quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Poesia da enxaqueca


  Já ouvi que ateus não acreditam em Deus enquanto estão saudáveis. É só estarem doentes para se lembrarem inclusive da palavra Deus, que quase nunca pronunciam, é com  “D” maiúsculo. Eu quando tenho enxaqueca, me revolto com deus. Não posso acreditar que Ele é tão cruel a ponto de me deixar sem enxergar direito! Minha visão quadro do lado esquerdo some, fica toda xadrez, meus olhos doem, minha cabeça... Ai meu Deus! Nesta época do ano piora e por quê? Deus  é que sabe. O neurologista mesmo sabe nada. E eu que só escrevo assim. Como penso. E como estava assim morrendo de dor, fui ler poesia de um jeito poético. E comecei a escrever diferente. No escuro, num canto. Sem revolta , com doçura.
Sentada na cadeira
Debruçada na mesa
 as luzes da casa apagadas
Só o abat-jour aceso restava.
Com Deus não queria conversa
Só deixei a mente dolorida, aberta.
Recolhida pela dor, sem saber o que fazer
Encontro um livro de amor e na luz fraca comecei a ler.
Como podem escrever assim?
Era letra com melodia lida.
Mesmo com ouvido moído.
Era estranho como o que eu lia, eu ouvia!
Naquele canto esquecido
Me invadia a poesia.
Enquanto a dor me contorcia
Sobressaia a alegria
Que cura pela cabeça
A marvada da enxaqueca.
  Escrevi uma poesia. Bem mambembe e com pouca técnica.  Os modernistas a aprovariam.  Senti vontade de ser poeta! Poetiza. Coisa que nunca me passou pela cabeça quando estava sem dor. Deus escreve certo por linhas tortas. Se não fosse a dorzinha, não teria tido a linda madrugada que tive, sendo curada pela poesia.

Fake and fuck



  Todo dia  tem alguém querendo ser meu amigo no facebook. São centenas. Na vida real poucos tem paciência comigo! Antes pensei em adicionar todos , para depois chamá-los para lotar meus eventos. Mas depois de tanto compartilhar com a dor e a delícia da vivência alheia, de tantos ilustres desconhecidos, achei melhor parar de adicionar tanta gente.
 A internet,  informação rápida, pulverizada, como manejar? Para os pesquisadores do ano de 2850 dou minha contribuição de como isto está se dando, ao contar alguns casinhos do maior sucesso do nosso tempo virtual: o facebook.
  Queridos  pesquisadores do futuro: trata-se do mais famoso site de relacionamento do mundo. Mundo que há poucas décadas vem se tornando globalizado, cada dia mais. Há muito pouco tempo, eu posso do Brasil, falar com um indiano na Prússia, e vê-lo ao vivo se mexendo em minha tela.  Este enorme acesso ao mundo que neste início de século temos tido, ainda é passível de dúvidas quanto a como se comportar diante de. Como utilizar tais fascinantes ferramentas. Então estamos usando e aprendendo pra que servem e anti-servem, na prática.
   No começo do século passado, o encurtamento de distâncias e aproximação de culturas deixou todo mundo igualmente confuso em como se comportar diante de tantas novidades. Até inventaram o livro de pequenas éticas, o famoso livro de etiquetas, para que a nova aceleração de informação e convivência com o novo mundo, fosse regrada, a ponto de acalmar a muitos que não sabiam como agir. Foi por exemplo a explosão dos perfumes, por causa das multidões que começaram a usar locomotivas e bondes . Uma das regras de etiqueta era manter-se cheiroso para não incomodar o outro, que agora era bem próximo, sentava ao lado. Apesar de até hoje ter gente inoportuna que põe música alta no ônibus, a maioria das implicações criadas com esses encurtamentos de distância, nós da vida moderna e urbana, já superamos sua grande maioria. O encurtamento agora é outro. Mais psicológico.
   Em vez de perfumes a explosão é de perfis no facebook. E aí começa a maluquice humana, parecida com a que começou com os  tais comportamentos de “etiqueta” antes, mas desta vez,  de outro jeito.
   Para ser agradável você deve ser no mínimo lindo e genial em tudo que faz! Deve começar botando uma foto de si mesmo incrível e bem sucedida, ou de uma paisagem igualmente incrível e bem sucedida. Sempre de bem com a vida,  ou revoltado com injustiças, neste caso fazendo uma linha heróica. Tem de se mostrar “o cara” ao preencher o perfil do face e em suas publicações.
  Se  sofre, é com força, garra e  beleza. Se está se dando bem, continua humilde e brilhantemente justo! E assim  fica-se tentando provar originalidade o tempo todo possível, no “status” do seu face.
  Deve-se realmente atentar  para parecer o máximo, tudo de bom ponto com.  Afinal a entrevistadora do departamento de recursos humanos, de muitas empresas, pode checar no facebook como você  apresenta a sua vida pessoal e profissional para o mundo. Há um site de relacionamento com a intenção de expor o  profissional e suas conexões, mas esse ninguém entra. Nenhum chega nem perto do sucesso do facebook.
 A polícia investigadora mesmo já pegou muitos bandidos descuidados, através das pistas que os babacas/bandidos amadores deixam em seus perfis! 
  É muito útil para se expor, logo, quem precisa de exposição para viver, não pode viver sem hoje em dia.  Quem precisa de alguém para sair hoje a noite, também vai encontrar checando o estado civil, as preferências, fraquezas, amizades, tudo, qualquer coisa. Pra comer alguém é uma mão na roda.  Você já personaliza a cantada, diminuindo a probabilidade de erros nas tentativas.
  Aliás, o “face” como é carinhosamente chamado, foi inventado por um moleque americano, virgem, narigudo e cheio de espinhas no rosto, pra isso mesmo... Um nerd que não comia ninguém, estava no primeiro ano de faculdade, puto por ter levado um fora, inventou o facebook. Para catalogar pessoas e não ficar mais só. De quebra virar milionário e poder comer mais gente ainda, mas isso foi consequência.
Basica  e fundamentalmente, é pra isso serve o face! Freud tem mesmo razão. Não é que  tudo tem sempre sexo na história?
  Um dia eu descobri como cancelar as atualizações de gente chata que publica baboseiras no face, e só por isso continuei entrando no site. Diariamente. Mais de uma vez por dia. Me fez  viciar mais. E eu estava quase desistindo.
    Um amigo uma vez fez uma campanha: “pare de se lamentar no face”  porque tem gente que é demasiadamente sincera e coloca todos seus sentimentos, se mostrando: rancoroso, magoadinho, frágil...  claro, sempre de forma estratégica. Gente que diz preferir animais do que gente por exêmplo. Gente que quer reconhecimento por ser negro, gay, corinthiano... Mas o mais comum de novo, e eu devo confessar, sigo mais ou menos esta linha, é parecer o máximo. Ser linda, boa profissional, bem comida, amar a vida, as cores, e ter raiva obviamente de coisas “más” como o mensalão (falcatrua política do nosso tempo). No fundo, no fundo: tudo bobagem, pra valorizar nossa... boa imagem. Quesito importantíssimo nos dias de hoje. E não mais virtude só dos belos externamente. Há de ser interessantíssimo também.
  Quando me sinto um lixo não ponho no face: “sou uma merda de pessoa, totalmente incapaz e desnecessária ao mundo. Hoje se tivesse coragem, pois também sou covarde, me mataria”.  Não pegaria bem. Iriam me julgar: suicida, fraca, baixa auto estima, baixo astral, isso não seria boa imagem.  Mas daria gancho a boa imagem de outros! Muita gente ia comentar! Com frases lindas de recomposição, amizade eterna, do tipo:  “força amiga você vai sair dessa! Qualquer coisa liga! Estou aqui para o que der e vier”- e a pessoa nem tem seu telefone.. .  Muito previsível. Muito marketeiro.
    Voltando a como se comportar, são vários os dramas  facebookianos. Alguns amigos virtuais se acham os melhores amigos, com direitos de verdade, e se sentem profundamente desrespeitados se você sai bruscamente no meio de uma conversa virtual. Acham que você faltou com a etiqueta. Gente, e se caiu a conexão? E se o bolo no forno quase queima? E se a campainha tocou? Abriu o sinal de transito? E a pessoa quer uma explicação pela demora ou ausência de resposta.
   É tão grave nossa adicção caros amigos de 2850, que mesmo em mesas de bares onde amigos se reúnem para confraternizar, se vê cinco, seis pessoas reunidas todas sem notarem as próprias presenças. Por estarem presas as atualizações de seus  celulares. Obcecadas em eternizar seus momentos e provar que são felizes. Ávidas por “curtirs”e “compartilhares”.


 Um dia voce tem um super pensamento filosófico,  de novo,ao mesmo tempo altruísta, ao mesmo tempo sexy, inteligente e político pra frentista!  Você entra na internet, entra no face e publica.  Daquele instante em seguida sua vida não é mais a mesma. Você vai clicar compulsoriamente na tecla “refresh” para  ver se alguém interessante leu seu brilhantismo vespertino. Se curtiu ou não o bendito post.  De repente só as pessoas mais chatas  da sua lista de amigos curtem e você se sente, um lixo. As vezes ninguém vê. Um sofrimento.
   Uma colega sua fala abertamente sobre sexo tântrico anal, você acha  super corajoso da parte dela! Só vê risadas (kkkk) e poucas curtidas. Como a atualização apitou no seu I-phone, você vai e discursa sobre isso. Diz que os gays não conseguem virar héteros porque praticam sexo anal, e é comprovada que a região é erógena, e causa sensação de prazer e doação transcendentais. E mais, que deve ser feito com carinho pois dói, e é muito íntimo e etc. Você tinha lido isso numa revista. Escreve um monte de baboseiras para se sentir ou descolada,  ou parceira da menina, ou porque quer ver o que vão replicar, e mais que tudo isso: porque é um vício. Você não tinha o que fazer quando recebeu esta atualização. Por fim vvocê escreve: “Faça! Dói mas vale a pena!”. Poucas horas depois de o mundo inteiro ver sua tese barata, a mesma amiga posta de novo: “Gente! Alguém entrou no meu face e publicou maluquices sobre sexo anal! Imagine eeeeeu  falar sobre essas coisas aqui no face! Sou uma mulher casada! Que baixaria!”  e com risos (kkkk). Agora meio mundo te acha uma pervertida louca.
  Tem sempre alguém que sempre curte nossos vômitos. E quando essa pessoa vomita também, você vai lá e curte solidariamente. Mesmo sem achar o menor sentido no que a pessoa escreveu.   Um dia numa festa,  a pessoa aparece  vestida com um mini shorts pink e salto alto, numa festa Black-Tie, é homem, barbado, tem cheiro de cachaça, a camiseta está escrito “Romney and Obama fuck each other”. Ele(a) te cumprimenta fervorosamente. Você fica sem saber quem é, qual é o nome, e que diabos significa aqueles dizeres na camiseta dele. Ele te mostra a tatugem com o nome fake que ele usa na “net” . Escrito nas costas. Detalhe:  neste momento você falava de teatro na Idade média com um possível  patrocinador da sua peça. Que delicadamente sai de fininho e desaparece. Face pode ser trágico...é para sempre na vida da pessoa. Quase uma prisão ou uma doença que aflorada ou não, está lá, com seu nome, esperando para manifestar.
  Um dia você conta a um amigo confidencialmente sua opinião sobre assunto muito polêmico. Tão polêmico que você mesma não tem certeza de qual é a sua opinião. Ele vai lá e te marca numa foto horrível que super afirma o que você não disse, mas divagou sobre. E agora todos sabem da opinião que nem você mesmo sabe direito se tem.
   Aí você diz: Chega! Eu posso viver  fora desta escravidão mental! E cancela sua conta. De sete em sete dias mais ou menos, o face vai te mandar um e-mail com a novas fotos postadas pelos seus principais amigos, felizes como sempre, geniais, nobres sentenças e quotes de efeito, mais a seguinte frase: “eles sentem falta de voce. Para voltar ao facebook e reativar sua conta clique aqui”, e um botão azul lindo. Quando você clica, automaticamente está lá de volta. Exatamente como deixou. Você troca a foto por uma de fênix, em que está ainda mais gostosa, pele de pêssego, sorriso de pérolas. Põe uma frase “Einstein” sobre retornos/ renascimento. As pessoas curtem. E como um louco ora transtornado em abstinência, você clica naquela porra de estrelinha do lado que torna sua publicação mais vista. E respira aliviado e novamente incluído na era digital.

Feliz Natal Punk



 “ Papai Noel velho batuta rei dos miseráveis! Aquele porco capitalista! Presenteia os ricos, cospe nos pobres!”
   Meu sobrinho de quase dois anos  está na melhor fase, ou no começo da melhor fase para ter loucura por papai Noel. Também pudera. É uma figura perfeitamente pensada para crianças. Gordo, barba branca, risonho como os bebês com aquele “Hohoho” amigável, e vermelho. Uma das três primeiras cores que os bebês conseguem enxergar, e a mais forte delas. É cercado de outras coisas coloridas como enfeites, presentes, flocos de neve, estrelinhas e bichinhos fofos.  O fato é que o Natal sempre me estressa. Tirando o prazer de ver bebês felizes por causa do bom velhinho, me incomoda  conforme vai chegando  a festa cristã. E não é por que muitas noites de Natal meu pai foi comprar cigarros e voltou no ano novo. Embora pudesse ser este o motivo. Ele devia se sentir mal por não poder encher a casa de presentes, não querer por roupa vermelha de frio, nem cantar jingle Bells a meia noite!
 Festas juninas sempre fizeram muito mais sentido, é alegre e divertido, tem mais interação. E eu sou a favor da cura pelo riso, pela graça, a reflexão pode vir depois do sarro e ser genuína. Não curto crescimento forçado pela dor.  Natal é uma depressão!  E quem não tem família? Ou mora longe dela? Extremamente anti-democrático!
  Nem vou falar das pessoas que gastam seu décimo terceiro salário comprando presentes de amigo, inimigo secreto, mais o presente do chefe, da esposa, das crianças. E por pura obrigação, nada a ver com presentear alguém com algum objeto, velho, novo, caro ou barato, ninguém pensa com carinho naquilo. Pensa se pode pagar ou não, e compra. E os que querem renovar a casa? Se endividam, pagam juros que calculam o dobro do valor das coisas. Me irrita muito, fazerem isso... Outra coisa, papai Noel só distribui presentes por que é um velho rico dono de uma fábrica de brinquedos que não vendeu muito o ano todo. Não tem família por que não aceita seu filho gay ter adotado um bebê. É cercado de mamães noelas novinhas, e duendes fumadores de ópio. Sente a “marvada culpa cristã” e por isso, marketeiramente sai “distribuindo” presentes. E seus súditos agem igual. Mas gastam tudo o que tem para fazer isso e se livrarem da culpa cristã.

 Aquela comilança descontrolada, as cidades que disputam a casa mais iluminada, nada a ver com bom gosto, mas com poder aquisitivo, gastando um monte de energia. Me irrita explodir aquele monte de fogos e aquele monte de bêbados batendo seus carros, numa data que deveria ser reflexiva e de ajuda ao próximo!  Ninguém lembra de Jesus molequinho, mal nasceu e já estava ameaçado de morte pelo império romano.
 E os que resolvem fazer caridade porque é natal? Caridade é o ano todo! Cada um como pode. Madame leva roupas usada ( que ela não quer mais) para doar em Diadema, e se sente madre Teresa de Calcutá por isso.  Sendo que ela mora no Morumbi ao lado de uma favela que ela nunca ajudou. Inclusive  a empregada dela, que está na casa todo dia, por que nunca se juntaram para fazer caridade?
Palavras bonitas e transformadoras  empesteiam o facebook e a caixa de entrada do email. A maioria delas tão... falsas. Penso que devo escrever uma crônica legal pra postar no Angu, algo reformador e natalino.  Que preguiça. Todas essas atitudes deveríam ser feitas o tempo todo, ser incorporadas a pessoas. Se somente afloram nas pessoas agora, que seja de verdade e não máscara. Mas não é isso o que mais me irrita. 
  Insuportável de verdade, é ver os motivos natalinos todos ambientados na neve, no Natal que acontece no Brasil. Nada mais cruel que as vestes do papai Noel. Levei meu sobrinho para vê-lo no shopping e ele não estava lá para receber as crianças devido aos casos de pedofilia. Não se pode mais sentar no colo do bom velhinho. Foi proibido. As mamãe-noelas que trabalham no shopping são mau humoradissimas de tantos pais tarados ficarem dando em cima delas.
Um inferno em vez de um tempo de paz... Então os papai noéis que perderam emprego por causa dos pedófilos, migram para Teodoro Sampaio lotada naquele calor de dezembro. Eles soam litros mas não podem emagracer de jeito nenhum, se não perdem o emprego de novo. 
Quantos profissionais de cultura e de moda são formados todos os anos, e ninguém ainda pensou numa solução para mudar isso. Não é só o figurino agoniante de papai Noel, mas o que diabos significa aquele tanto de bonecos de neve? Que criança brasileira já fez uma porra de um boneco de neve na vida? Só algumas milionárias e muito provavelmente por insistência dos pais. Por que não inventam algum outro símbolo tropical para Natais tropicais, gente?   Adaptem isso façam alguma coisa assim não pode continuar, é ridículo!
Para agradar as crianças os Estados Unidos adaptaram O “dia de los muertos”para “halloween” com aquelas abóboras e o tal dos “doces ou travessuras”. Nós não podemos deixar o Natal continuar a ser isso! Deve haver um jeito de ele permanecer gordo, vermelho barbudo, com uma mala mágica aonde ele troca de roupa ao chegar  Brasil, poxa. As pessoas se acumulando na avenida Paulista naquele calor infernal, pra tirar fotos daqueles enfeites natalinos que são importados. E remetem ao frio do pólo norte. Dá agonia só de olhar, e querem fotografar. Os papai noéis tocam jazz.  Por que não botam um papai Noel com pandeiro? Os duendes de bermudas, umas fadas voadoras mais arejadas, sei lá.
A propósito... De qualquer modo, desejo um feliz Natal a todos! Não comam muito, faz mal. Se iluminem, sintam paz em meio a euforia do fogos de artifício. Construa ao seu redor a sua saúde física e mental e estará em harmonia. Usem roupas leves e claras, bebam bastante água e comecem os exercícios.  No ano novo, faça boa passagem, e tente coisas novas para  objetivos velhos ainda não alcançados, que você ainda quer que chegue. Se permita mudar de idéia, aumente suas capacidades, há um ano inteiro na frente para isso. E claro, que tudo se realize no ano que vai nascer.  Muito dinheiro no bolso saúde pra dar e vender. Que venha 2013, trazendo alegria de viver em todos como são onde estão, se transformando como podem a melhor maneira.  Até o ano que vem! Pronto. Acho que consegui.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Flanelinha



  Uma das explicações para o costume de se desejar “merda” a um ator de teatro, está ligado ao desejo de que o espetáculo lote de gente para assistir. Se o estacionamento do teatro enchesse de carruagens e cavalos, o que o deixava lotado de merda dos animais, é porque a peça foi um sucesso de público. Merda significa “que sua apresentação encha de gente!”.  Os atores, com dinheiro no bolso de uma apresentação cheia de espectadores, limpavam juntos toda a merda no dia seguinte.
 Flanelinha é o nome dado aos guardadores de carro. Não sei se já existiam na época da expressão “merda”. Talvez o flanelinha da época shakesperiana escovasse os cavalos?  Na minha cidade, eu vi  a profissão começar com moleques de rua que carregavam flanelas amarelas para limpar o vidro do carro  e humildemente pediam uma “ajudinha”. Hoje não são tão pequenos assim, nem tão de rua, e levam como profissão extra.  Nem se dão ao trabalho de carregar a flanelinha, não lustram carro nenhum, só prometem que seu carro estará ali, onde você o deixo quando você retornar. E as vezes ajudam as ceguinhas a fazer baliza ou a encontrar vaga.
 Dizem eles que guardam os carros e nós temos que acreditar que ele vai ficar ali cuidando do automóvel, e pagar adiantado. O valor que ele mesmo estipula. Caso contrário nos ameaçam com um olhar de injustiçado vingativo, palavras magoadas, mexendo com nossa culpa social. Desço do carro que me foi emprestado.
- Pode deixar Dona, vaio no teatro?
-Boa noite?
- É 10 reais adiantado.
- Não vou te dar 10 reais.
- Dona, no estacionamento do teatro é 20.
- Eu não sou dona e não tenho 20 reais pra botar no estacionamento, por isso estou deixando na rua.
- Então me paga 10 adiantado e seu carro vai estar aqui guardadinho, prometo pra senhora.
- Qual senhora? Moço eu tenho vinte e poucos anos, sou mais nova que você. Na volta , quem sabe.
- Moça to fazendo só dez mas tem que ser agora depois não dá.
- Como assim não dá? Voltou a inflação de 30 anos atrás?
- Eu vou estar aqui eu prometo pra senhora, te dou minha palavra.
- Moço, não custa 10 reais deixar o carro na sarjeta. Com o cartão zona azul, é 3 reais, e a esse horário é zero reais, se botar na rua, que é o que eu estou fazendo.
- Mas essa área aqui é muito perigosa, a senhora que sabe, vale investir.
- Perigoso é onde eu moro, aqui é bem rico, arborizado e tranqüilo.
- Tá tranqüilo, boa peça pra senhora. - ( e faz cara de vingança)
- Moço só vou a esta peça porque ganhei o ingresso, não tenho dinheiro nem para entrada. E esse carro não é meu! Peguei emprestado para conseguir chegar aqui a esta hora.
Eu estava quase implorando clemência! Saí andando mas logo voltei e não mais no tom anterior. Mas indignada de verdade.
- Moço, o senhor pretende riscar este carro.
- Não disse nada disso não.
- E por que me faz ter medo disso?
- A senhora é muito medrosa.
- O senhor percebe que me extorquiu, me ameaçou, me acuou?
- Não fiz nada disso não senhora.
- Como você se chama? E quantos anos tem pra me chamar de senhora toda hora?
-Não vou dizer meu nome não. A... senhora moça, ta brava aí, se ia pagar 20 reais no estacionamento do teatro, to aqui te fazendo esse favor...
- Errado 1: eu não ia pagar 20 reais no estacionamento.Errado 2: favor não se cobra.  A rua é pública!
- Iiiihhh de novo está história de rua pública, Imagine chega o ladrão aqui vê seu carro, e achado não é roubado, e a rua é pública...
 -Esse carro não é meu e nem é visado para roubarem.  Eu vou ao teatro e eu não vou colocar o carro no estacionamento embora ele seja emprestado e eu devesse protegê-lo melhor, mas sabe por que eu não vou fazer isso? – ele me olha calado.- Por que eu não tenho dinheiro!  Eu não tenho um puto pra comprar uma água e hoje está um puta de um calor!  Eu só vou assistir essa peça de teatro, sabe pra quê? Pra prestigiar os colegas, pra ver se eles se sensibilizam com minha presença, porque eu sou atriz e pra variar, mais uma vez, eu estou desempregada! O senhor sabe o que significa ser uma atriz não global neste país? Eu ganhei o ingresso, caso contrário não poderia assistir!
-Calma moça- diz ele um pouco mais prestativo.- Quer um cigarro?
- Ah! Agora eu voltei a ser moça. Quero.- começo a fumar o cigarro dele, que é o mesmo do meu, indignada não mais olhando pra ele que diz:
- Atriz é pior que nóis, né? Mó dureza. É artista, eu to ligado como é. Não vai perder a peça não, vai lá. Tem nada não, seu carro tá guardado aqui, não precisa trazer dinheiro nenhum você não tem. Você foi honesta, voltou pra conversar. Vai lá,  é nóis.
- E sabe o que mais?
- Não sei, mas pode ir moça, tá tudo certo aqui.
- Eu já vi este texto mil vezes! – ele me olha assustado.
- Hamlet né? Até eu já vi moça. Mas esse é com o galã da TV lá.
- Pois é, e eu o vi na TV muito mais que mil vezes! Mas eu tenho que ir por motivos políticos. Vou me atrasar.
-Boa peça.
 A peça foi muito boa. Quando eu volto, o senhor moço não estava mais lá como havia prometido. Mas o carro estava inteirinho. E com um bilhetinho no pára-brisa que dizia: “quiser ver umas peça lôca alternativa, liga nóis. Rogério.” E um número de telefone.

sábado, 24 de novembro de 2012

Dramaturgias Macabras - Sampa doc.



Comédia

No bairro jardins, a mocinha chiquérrima com sua bolsa Louis Vitton, estaciona seu carrão na porta de um restaurante em São Paulo. Antes de destravar o carro para o manobrista abrir, ela tira o cartão de débito de dentro da carteira e esconde a bolsa com celular e tudo de baixo do banco onde está o namorado sentado.
-Não vai levar a bolsa gatinha?
- De jeito nenhum. Se rolar um arrastão meu cartão de débito está na minha bolsa interna.
- Bolsa interna? Que conversa de canguru é essa?
- É uma bolsinha interna que só cabe um cartão, fica entre a blusinha e a lingerie. Última moda contra arrastão.- ela deixa o I-phone 4 e pega um celular antigo, também pequeno
- Não vai levar nem o celular?
- Mas no arrastão é o que eles mais querem: Celular! Pra comunicar a bandidagem da cadeia com a bandidagem da rua. Não tá sabendo? Quanto mais moderno mais eles gostam, esses antigos eles nem levam.- Ele dá um beijo nela e entra no restaurante todo feliz com a gata descolada e bem informada.

Jornal de papel

No dia seguinte, esse cara senta na varanda lê jornal, toma café e lendo o caderno de mercado, resolve investir na bolsa de valores, e na outra bolsinha e uma marca famosa de lingerie que lança essa bolsinha canguru, última moda das moças ricas de São Paulo. Ele vê a foto de Bündchen semi-nua, com cara de dor de dente, zóio de jibóia, e a tal bolsinha nas mãos. Em caso de amorzinho, cabe camisinhas também. Ele adora. Excitado, ele investe mais um pouquinho na internet pelo celular. E acende um baseado, pois já trabalhou hoje.

Telejornal

  Esse mesmo cara vê no noticiário  o governador dizendo a imprensa, que encontrou um novo nome para secretaria de segurança da cidade, já que o vigente pediu exoneração do cargo. O governador diz que este sim é macho, e está preparado para lidar com a situação. Era promotor e procurador de justiça.Um moço magro também tomando café e fumando baseado, vê a mesma TV na favela e diz segurando a bola:
- Promotor de justiça? Que P. de preparação é essa que ele tem? Pra lidar com isso aí tem que ter passagem na SWAT, ter sido líder do Hamas, ter vivido na palestina, ter ido para o Iraque... (indignado) Promotor de justiça! Vai fazer o quê com aquela escultura cega que segura uma balancinha? O melhor nome seria o... tsc, aquele o... - esquece o nome do seu palpite.
Muda canal tv para um jornal sensacionalista que conta: “ Terrorismo na zona oeste de São Paulo.  As 21 horas da noite de ontem, um bar que não havia sido avisado de toque de recolher, recebe a visita surpresa de assassinos motorizados. Dois homens numa moto atiram contra todos presentes no bar que tinha as portas abertas, mulheres e crianças que voltavam de um jogo de futebol. Os bandidos  fogem deixando um morto a queima roupa e dois feridos. As testemunhas, mais de 20 pessoas, vítimas deste ato terrorista (que segundo alguns moradores,  pode ter sido tanto do PCC como da própria polícia,) acabavam de voltar de um jogo de futebol entre dois times da mesma favela, que realizavam o jogo em pedido de paz. O menino morto tinha 19 anos. Jogava num dos dois times e tinha uma  esposa da mesma idade e uma filhinha.” Foto do casal. Imagens choro e tristeza no velório.  Sai sangue e lágrimas da TV.

Teatro

O corpo do menino demora horas para ser liberado ao IML devido a fila de mortos pobres desta noite. É que os mais pobres tem um planos de enterro mais lotado, rola uma fila. Com vergonha de dizer a família a verdade, “responsáveis” mentem dizendo que já estava na autópsia, enquanto o defunto se atrasava para o próprio velório lotado de amigos e parentes que o esperavam quando na verdade ele ainda estava coberto num canto do hospital. Saúde, educação, segurança... onde? Oi? Onu?

Internet

  Quem parece feliz é o senhor  Edgardo, dono da loja de caixões que acaba de comprar um carro novo com ar condicionado. Ele tem uma página no facebook chamada “Se vai, que vá com Deus”, e está investindo no negócio de cruzes, flores, esculturas de santos católicos, faixas, e plaquinhas com dizeres de saudades.  Ou dizeres de revolta. Estes são mais caros e devem ser sigilosos, afinal senhor Edgardo é católico, empreendedor, mas não é bobo.
 
Palhaço ( no sentido de o sujeito agir de modo "non sense")

O homem vai ao debate, para debater com especialistas no assunto e jura de pé junto  (para que só fiquem juntos e não amarrados) de que a situação está sob controle. Ele diz que o Estado de São Paulo é o mais seguro do país. O que me faz pensar em cancelar viagens pelo país. E mais, diz na verdade está tudo bem, que tudo isso é um sensacionalismo nas redes sociais. Sabe as redes sociais? Adoram lançar boatos que se espalham bobagens na cabeça da população com muita facilidade! Os deixando iludidos e apavorados a toa!Uma glamorização da informação!

Novela

 É de uma fé cênica que assusta! Diz estar falando a pura verdade, afinal ele não tem rabo preso com o PSDB, mas acha que na verdade pode ser tudo culpa do PT que está tomando o país e quer difamar o governo dos outros... No final só falta ele mostrar a língua para seu interlocutor.

Drama

O Brasil só não tem mais voz na ONU porque ainda, com seu auge na ditadura, é campeão em tortura. E onde acontece a tortura? Nos morros cariocas, favelas e principalmente nos presídios. No morro eu entendo, mas o presídio não seria um lugar de retenção e regeneração?  Deveria ser. Mas é o único lugar onde não cai o sinal de celular jamais. Se voce está com problemas de sinal no celular, experimente ligar de um presídio. Sinal ilimitado. 100% de mensagens enviadas com sucesso.

Tragédia

Ai de mim! É o fim. Quem diria que iria acabar assim. Há culpa da fumaça branca e do pó de pirilimpimpim.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O curativo provisório




  Band-aid nome provisório de um curativo pequeno, está até no Aurélio. É que curativo pequeno é palavra dupla e grande. Uma vez fui pegar uma travessa de doce na geladeira, ela se espatifou no chão espalhando tudo e cortando meu tornozelo em alguma veia que jorrava muito sangue. Como na casa que eu estava não tinha band- AID, nem esparadrapo, colocaram silver-tape e fizeram em mim o que batizaram de “ponto falso”.  Estava mesmo bem aberto, e sem o tal ponto falso ficaria sangrando e sujando a casa de viagem toda . O  procedimento evitou que ficasse em mim uma marca feia e aberta.  No final das contas não mais necessário foi ir ao médico fazer ponto verdadeiro. O ponto falso funcionou bem. A marca hoje existe, é pequena.  Quando fomos a cidade não quis estragá-lo pois estava funcionando,  então só troquei a silver tape por um esparadrapo branco, onde utilizei da mesma técnica para continuar forçando meu corpo e suas plaquetas a resolverem a situação da abertura da pele, com a tecnologia que eu dispunha.
 Como se machucam os índios que vivem ainda com pouca  roupa que os protejam? Imagino que para eles a natureza seja mais macia que uma casa cheia de eletrodomésticos perigosos, móveis e vidros pontiagudos, ainda mais os modernos dinamarqueses.   Será que se machucam menos? Tenho uma amiga que fez uma cirurgia no pé porque o torceu andando numa superfície reta, com um salto alto chiquérrimo que lhe custou alta quantia, lhe ferindo algo de muitíssimo mais valor: o próprio corpo, cujo o qual não pode existir nada mais de valioso.
 Um índio tem índice de intoxicação por carne estragada? Pode processar o curandeiro por charlatanismo ou o cacique por corrupção? A carne chega a estragar numa tribo indígena, ou só comem  carne de peixe? Afinal usam um outro sistema de armazenamento e cozimento que usam. Não?
 Intermináveis são as discussões sobre inclusão do povo descendente de negro e índio que está em efervescência no país. Aonde eles querem ser incluídos? Os negros querem igualdade e que paguem a dívida social.  Os escravocratas já morreram. Em vez de fazer uma super sessão espírita que convoque os que erraram antes, teremos que negociar com os vivos presentes de hoje mesmo.  Indios e negros tem motivos e questões distintas, que devem começar a ser testadas, uma a uma, provisoriamente até se acertarem, pois toda raça humana, seus grupos e etnias estão passando por revoluções de pensamento e comportamento. Ainda bem.
Teremos de todos nos organizar a fim de que o respeito e a liderança de cada cultura se pulverize e se auto-reja com igualdade de representantes num mundo globalizado. Imagine se os japoneses quisessem cotas em universidades públicas? Só tem japa na USP! Eles deveriam pedir cotas na NBA para terem o direito de representatividade no basquetebol. Árabes devem querer descontos nos tecidos afinal as moças deles cobrem até os olhos, enquanto que as índias andam nuas e tomam banho de rio ao léo sem véu.
 A política de cotas, a pena de morte estão sendo pensadas, mas me parecem tapar sol com peneira.  Fazer o quê se estamos em tempos de sol a pino, aquecimento global e a própria peneira já ameniza o sol escaldante?  É tão absurdo que sejam necessárias cotas em universidade, em poder público para negros e índios, assim como é tão absurdo que seja necessário ter que pensar em retroceder com a pena de morte, só porque os homicídios tem aumentado nas ruas. No entanto eu concordo que se discuta tudo isso por um só motivo: acredito nos caminhos do porvir! Toda essa baboseira tão importante e fundamental, será motivo de piada quando um dia atingirmos uma sociedade justa.  Onde se consiga uma ordem. A ordem será o respeito, o consenso. E sempre haverá reajustes. Eternos reajustes.
 Este dia chegará depois de muita luta, mas não a com sangue habitual das décadas anteriores, que mostrou-se ineficiente e gerador do sentimento de vingança, mas a luta que queima neurônios para chegar as melhores idéias. E coragem para testá-las com suavidade, sem traumas, com a concessão de todos envolvidos. Esse meu discurso é mesmo patético.  Meu sonho de miss: a paz mundial.

  Ontem queimou a lâmpada da cozinha, quando finalmente eu havia ajeitado a iluminação da sala. Assim como na minha casa sempre vai faltar uma coisinha aqui e ali, as políticas irão se ajustando de acordo com as necessidades, não é mesmo?
   Num país tão grande e miscigenado como o nosso, e onde principalmente existem além dos imigrantes brancos de todas as partes, há um fortíssimo traço de população negra e índia, é mais que evidente que haveria de já estarem de velhos, super incluídos nas políticas todas: econômicas, sociais e culturais.  Acho válido que por sua tamanha expressão no país tenham correspondentes nas lideranças para estarem com todos os outros representantes, juntos na mudança de pensamento neste país. Vamos conseguir, somos bons nisso. Vide o Bom Retiro cheio de árabes e judeus ortodoxos almoçando em restaurantes koreanos!
   Todavia o Brasil sempre copiou ou foi influenciado por tantas culturas, e agora precisa  unificar e fortalecer  a sua própria.  Significa unir todas aqui presentes, não mais segregar. Mesmo que pra isso sejam adotadas medidas provisórias, progressistas, mas humanas antes de tudo. Um humano que entende que tem mais de mil versões étnicas, cada vez mais miscigenadas, e que também sabe que é parte de um planeta que tem a obrigação de manter, usufruir e também fornecer, equilibradamente.

Atentemos a afobação arqui-inimiga da perfeição. O desespero por justiça virou ganância de um estadista como Getúlio Vargas criando governos provisórios onde havia uma urgência de organizar os trabalhadores/exploradores brasileiros. A ditadura militar tinha a urgência de eliminar a possibilidade comunista. E todas as urgências afobadas que terminam em más experiências que atrasam a evolução que todos almejam.
 Que tudo seja analisado e votado. Qual resposta será há a mais cabível para todos hoje?
Uma sociedade mais justa consequentemente diminuirá a violência que poderá evitar a necessidade de pena de morte. Cotas para uma raça que reclama de exclusão centenária, terras para uma outra que não quer precisar de cotas, mas ter o direito de viver como acha que deve em terras de seus ancestrais. A terra é de todos ancestrais. Organizemos o espaço. Ninguém vai ficar sem terra para que alguém tenha a mais. Todos tem ancestrais, todos querem cotas, todos querem terras. Eu preciso de terra somente para o meu jardim, o máximo que eu planto são manjericões para o molho de tomate. Como filha legítima da cidade concreta, minha necessidade é outra.
Deve importar menos o  passado, que só nos serve aprender com os erros  e mirar em acertos futuros. Pensemos no presente e no futuro sem temê-lo, mas resolvê-lo sem pressa. Uma medida pode prevalecer outra deve sumir, mas devemos tentar o novo sem medo.
Vivemos um tempo de pura transição. Para algo que ainda não sabemos ao certo o que é.  Aqui chamamos de caminhos do porvir. Que só virão de fato, assim mesmo: testando, sem trauma, ocupando lentamente. Nada de enfrentamento ou comparações.  Em vez de divergir e confrontar: concordar, adicionar, encaixar para todos, que somos um tipo: brasileiros. Humanos. Terráqueos.

De violão nas costas


Meu pai é músico. É por isso que eu tenho vinis do Jhonny Winter, Jimmi Hendrix, Rolling Stones. Por causa desta influência tenho outros vinis também além dos que afanei dele. Em 1983, quando eu nasci, meu pai achando que eu fosse me chamar Luis Filipe, me comprou um violão, um Di Giorgio de madeira belíssimo. Depois ele achou que minha irmã fosse se chamar Marlon, comprou outro violão, mas nasceu Helena. Quando a Mariana, terceira filha nasceu, ele não arriscou mais nomes de homens e parou de comprar violões. Se conformou em ter três filhas. Tentou me ensinar violão e o máximo que aconteceu foi eu saber cantar um pouco, ser mais ou menos afinadinha. Do instrumento sei alguns acordes que saem abafados quando os tento. Logo começa a machucar os dedos e já desisto. A inteligência musical é uma das mais rebuscadas que tem, dizem , e eu acredito nisso. Devo ter herdado um pouco esta inteligência, mas não a disciplina que um instrumento exige. Como o violão é muito bonito pensei em consertá-lo para botar na estante da sala, assim quando vier visita que toca, eu canto. E quando não tiver ninguém em casa, eu tento uns acordes. 
  Levei por recomendação do papai a um consertador profissional de violas, violões e guitarras na vila madalena. Meu pai não conseguia me dizer o  nome e número do lugar então tive que achar pelas características que ele me deu:
-É um japonês cabeludo, meio véio, numa casa azul na Teodoro Sampaio.
-E onde fica a casa na Teodoro Sampaio?
-É uma escada que sobe, antes da galeria.
-Escada que sobe. Qual galeria, pai?
-É... depois sobe mais outra escada, são duas escadas. Tem que ser com esse cara ele sim é bom. Ele vai dizer o que precisa fazer no violão.
- E como ele chama?
- Não sei. Mas tem que ser lá, só pode  ser lá.
  O pior é que eu encontrei o lugar facilmente!  O japonês cabeludo não trabalhava mai lá. Quem me atendeu foi um senhor argentino chamado Juan.  A parte de baixo da loja tinha exposto vários instrumentos de cordas muito bacanas. A parte de cima, da segunda escada, era uma marcenaria de instrumentos. Lugar sonoro, encantador. Cheio de músicos testando, tocando. Deixei minha viola nas mãos de Juan.
  Sábado a tarde depois de uns 5 dias, fui buscar a bichinha. Novinha em folha. Tinha umas esposas de músico me olhando na loja, todas tatuadas, fumavam cigarro na varanda no topo da primeira escada. Tem tipo um palco ali, talvez para as pessoas ensaiarem. Me disseram que as vezes até tem shows nesse espaço.
- Você toca faz tempo? – perguntou-me Juan com sotaque argentino.
- Sim.
- Quer testar?
- Não, não, imagine, só de olhar já dá pra ver que tá massa.
   Fumei um cigarro de filtro vermelho, fiz cara de artista e segui pela Vila Madalena no sábado de sol com o violão nas costas. Comecei descendo a Teodoro Sampaio e depois subindo a Praça Bendito Calixto, lotada de gente a passear pela feirinha de antiguidades, e pelos bares e cantos dali. Então me dei conta que estava de óculos escuros do Ray Charles, coturnos pretos, calça preta e uma camiseta branca com um desenho em preto muito louco. Eu estava sendo vista como uma rockeira “madalenandante”.
 Quando cheguei ao beco da vila madalena, espaço de paredes grafitadas e constante eventos culturais, percebi que haviam montado um half de skate.  Tocava ska, som perfeito para o esporte.
   Conta-se pelos antigos moradores da Vila Madalena, os velhinhos que ainda conseguem dormir na badalada região, que toda a extensão que compreende os bairros Vila Beatriz, Vila Ida e Vila Madalena, pertenciam a um português.  Quando ele vendeu os lotes para prefeitura , pôs os nomes das filhas nas divisões feitas. Mas a vila Madá, como a apelidamos, virou a preferida dos artistas. Ela ascendeu assim por causa de um bondinho que botaram nela no começo do século. Hoje um apartamento dos chiquérrimos arquitetos franceses da Tryptic, construído na região valem mais de milhões. É que os ricos seguem os artistas. Agora o bairro valorizou tanto que nenhum artista pode viver lá, mas ainda passeiam e se apresentam por ali.
 Muitos deles me cumprimentavam com olhar e gesto parceiro, achando que eu fosse uma guitarrista a caminho do trabalho.
- Toca rock? – me perguntou um na rua.
- Opa!-
- MPB também?  Reggae?- fiz com a cabeça que sim!
Ele disse nome de bandas que eu conhecia e eu disse que tocava todas aquelas! Então ele constatou:
- “Nóis do som têmo que tocar tudo mêmo! Essa é a lei! Não sendo sertanejo, já era! Hahaha!”
 Concordei de novo e continuei caminhando. Não estava mentindo, toco tudo isso no som de casa!  Adorei sentir o assédio de andar na Vila Madalena com figurino de guitarrista. Enquanto o sol se punha nas cores vibrantes da Vila que nascia pra noite bohêmia.