Meu pai é músico. É por isso que eu tenho vinis do Jhonny Winter,
Jimmi Hendrix, Rolling Stones. Por causa desta influência tenho outros vinis
também além dos que afanei dele. Em 1983, quando eu nasci, meu pai achando que
eu fosse me chamar Luis Filipe, me comprou um violão, um Di Giorgio de madeira
belíssimo. Depois ele achou que minha irmã fosse se chamar Marlon, comprou
outro violão, mas nasceu Helena. Quando a Mariana, terceira filha nasceu, ele
não arriscou mais nomes de homens e parou de comprar violões. Se conformou em
ter três filhas. Tentou me ensinar violão e o máximo que aconteceu foi eu saber
cantar um pouco, ser mais ou menos afinadinha. Do instrumento sei alguns
acordes que saem abafados quando os tento. Logo começa a machucar os dedos e já
desisto. A inteligência musical é uma das mais rebuscadas que tem, dizem , e eu
acredito nisso. Devo ter herdado um pouco esta inteligência, mas não a
disciplina que um instrumento exige. Como o violão é muito bonito pensei em
consertá-lo para botar na estante da sala, assim quando vier visita que toca,
eu canto. E quando não tiver ninguém em casa, eu tento uns acordes.
Levei por
recomendação do papai a um consertador profissional de violas, violões e
guitarras na vila madalena. Meu pai não conseguia me dizer o nome e número do lugar então tive que achar
pelas características que ele me deu:
-É um japonês cabeludo, meio véio, numa casa azul na Teodoro
Sampaio.
-E onde fica a casa na Teodoro Sampaio?
-É uma escada que sobe, antes da galeria.
-Escada que sobe. Qual galeria, pai?
-É... depois sobe mais outra escada, são duas escadas. Tem
que ser com esse cara ele sim é bom. Ele vai dizer o que precisa fazer no
violão.
- E como ele chama?
- Não sei. Mas tem que ser lá, só pode ser lá.
O pior é que eu encontrei o lugar facilmente! O japonês cabeludo não trabalhava mai lá. Quem
me atendeu foi um senhor argentino chamado Juan. A parte de baixo da loja tinha exposto vários
instrumentos de cordas muito bacanas. A parte de cima, da segunda escada, era
uma marcenaria de instrumentos. Lugar sonoro, encantador. Cheio de músicos
testando, tocando. Deixei minha viola nas mãos de Juan.
Sábado a tarde
depois de uns 5 dias, fui buscar a bichinha. Novinha em folha. Tinha umas
esposas de músico me olhando na loja, todas tatuadas, fumavam cigarro na
varanda no topo da primeira escada. Tem tipo um palco ali, talvez para as
pessoas ensaiarem. Me disseram que as vezes até tem shows nesse espaço.
- Você toca faz tempo? – perguntou-me Juan com sotaque
argentino.
- Sim.
- Quer testar?
- Não, não, imagine, só de olhar já dá pra ver que tá massa.
Fumei um cigarro de filtro vermelho, fiz cara
de artista e segui pela Vila Madalena no sábado de sol com o violão nas costas.
Comecei descendo a Teodoro Sampaio e depois subindo a Praça Bendito Calixto,
lotada de gente a passear pela feirinha de antiguidades, e pelos bares e cantos
dali. Então me dei conta que estava de óculos escuros do Ray Charles, coturnos
pretos, calça preta e uma camiseta branca com um desenho em preto muito louco.
Eu estava sendo vista como uma rockeira “madalenandante”.
Quando cheguei ao
beco da vila madalena, espaço de paredes grafitadas e constante eventos
culturais, percebi que haviam montado um half de skate. Tocava ska, som perfeito para o esporte.
Conta-se pelos antigos moradores da Vila
Madalena, os velhinhos que ainda conseguem dormir na badalada região, que toda
a extensão que compreende os bairros Vila Beatriz, Vila Ida e Vila Madalena,
pertenciam a um português. Quando ele
vendeu os lotes para prefeitura , pôs os nomes das filhas nas divisões feitas.
Mas a vila Madá, como a apelidamos, virou a preferida dos artistas. Ela
ascendeu assim por causa de um bondinho que botaram nela no começo do século.
Hoje um apartamento dos chiquérrimos arquitetos franceses da Tryptic,
construído na região valem mais de milhões. É que os ricos seguem os artistas.
Agora o bairro valorizou tanto que nenhum artista pode viver lá, mas ainda passeiam
e se apresentam por ali.
Muitos deles me
cumprimentavam com olhar e gesto parceiro, achando que eu fosse uma guitarrista
a caminho do trabalho.
- Toca rock? – me perguntou um na rua.
- Opa!-
- MPB também?
Reggae?- fiz com a cabeça que sim!
Ele disse nome de bandas que eu conhecia e eu disse que
tocava todas aquelas! Então ele constatou:
- “Nóis do som têmo que tocar tudo mêmo! Essa é a lei! Não
sendo sertanejo, já era! Hahaha!”
Concordei de novo e continuei
caminhando. Não estava mentindo, toco tudo isso no som de casa! Adorei sentir o assédio de andar na Vila
Madalena com figurino de guitarrista. Enquanto o sol se punha nas cores
vibrantes da Vila que nascia pra noite bohêmia.
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