segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O curativo provisório




  Band-aid nome provisório de um curativo pequeno, está até no Aurélio. É que curativo pequeno é palavra dupla e grande. Uma vez fui pegar uma travessa de doce na geladeira, ela se espatifou no chão espalhando tudo e cortando meu tornozelo em alguma veia que jorrava muito sangue. Como na casa que eu estava não tinha band- AID, nem esparadrapo, colocaram silver-tape e fizeram em mim o que batizaram de “ponto falso”.  Estava mesmo bem aberto, e sem o tal ponto falso ficaria sangrando e sujando a casa de viagem toda . O  procedimento evitou que ficasse em mim uma marca feia e aberta.  No final das contas não mais necessário foi ir ao médico fazer ponto verdadeiro. O ponto falso funcionou bem. A marca hoje existe, é pequena.  Quando fomos a cidade não quis estragá-lo pois estava funcionando,  então só troquei a silver tape por um esparadrapo branco, onde utilizei da mesma técnica para continuar forçando meu corpo e suas plaquetas a resolverem a situação da abertura da pele, com a tecnologia que eu dispunha.
 Como se machucam os índios que vivem ainda com pouca  roupa que os protejam? Imagino que para eles a natureza seja mais macia que uma casa cheia de eletrodomésticos perigosos, móveis e vidros pontiagudos, ainda mais os modernos dinamarqueses.   Será que se machucam menos? Tenho uma amiga que fez uma cirurgia no pé porque o torceu andando numa superfície reta, com um salto alto chiquérrimo que lhe custou alta quantia, lhe ferindo algo de muitíssimo mais valor: o próprio corpo, cujo o qual não pode existir nada mais de valioso.
 Um índio tem índice de intoxicação por carne estragada? Pode processar o curandeiro por charlatanismo ou o cacique por corrupção? A carne chega a estragar numa tribo indígena, ou só comem  carne de peixe? Afinal usam um outro sistema de armazenamento e cozimento que usam. Não?
 Intermináveis são as discussões sobre inclusão do povo descendente de negro e índio que está em efervescência no país. Aonde eles querem ser incluídos? Os negros querem igualdade e que paguem a dívida social.  Os escravocratas já morreram. Em vez de fazer uma super sessão espírita que convoque os que erraram antes, teremos que negociar com os vivos presentes de hoje mesmo.  Indios e negros tem motivos e questões distintas, que devem começar a ser testadas, uma a uma, provisoriamente até se acertarem, pois toda raça humana, seus grupos e etnias estão passando por revoluções de pensamento e comportamento. Ainda bem.
Teremos de todos nos organizar a fim de que o respeito e a liderança de cada cultura se pulverize e se auto-reja com igualdade de representantes num mundo globalizado. Imagine se os japoneses quisessem cotas em universidades públicas? Só tem japa na USP! Eles deveriam pedir cotas na NBA para terem o direito de representatividade no basquetebol. Árabes devem querer descontos nos tecidos afinal as moças deles cobrem até os olhos, enquanto que as índias andam nuas e tomam banho de rio ao léo sem véu.
 A política de cotas, a pena de morte estão sendo pensadas, mas me parecem tapar sol com peneira.  Fazer o quê se estamos em tempos de sol a pino, aquecimento global e a própria peneira já ameniza o sol escaldante?  É tão absurdo que sejam necessárias cotas em universidade, em poder público para negros e índios, assim como é tão absurdo que seja necessário ter que pensar em retroceder com a pena de morte, só porque os homicídios tem aumentado nas ruas. No entanto eu concordo que se discuta tudo isso por um só motivo: acredito nos caminhos do porvir! Toda essa baboseira tão importante e fundamental, será motivo de piada quando um dia atingirmos uma sociedade justa.  Onde se consiga uma ordem. A ordem será o respeito, o consenso. E sempre haverá reajustes. Eternos reajustes.
 Este dia chegará depois de muita luta, mas não a com sangue habitual das décadas anteriores, que mostrou-se ineficiente e gerador do sentimento de vingança, mas a luta que queima neurônios para chegar as melhores idéias. E coragem para testá-las com suavidade, sem traumas, com a concessão de todos envolvidos. Esse meu discurso é mesmo patético.  Meu sonho de miss: a paz mundial.

  Ontem queimou a lâmpada da cozinha, quando finalmente eu havia ajeitado a iluminação da sala. Assim como na minha casa sempre vai faltar uma coisinha aqui e ali, as políticas irão se ajustando de acordo com as necessidades, não é mesmo?
   Num país tão grande e miscigenado como o nosso, e onde principalmente existem além dos imigrantes brancos de todas as partes, há um fortíssimo traço de população negra e índia, é mais que evidente que haveria de já estarem de velhos, super incluídos nas políticas todas: econômicas, sociais e culturais.  Acho válido que por sua tamanha expressão no país tenham correspondentes nas lideranças para estarem com todos os outros representantes, juntos na mudança de pensamento neste país. Vamos conseguir, somos bons nisso. Vide o Bom Retiro cheio de árabes e judeus ortodoxos almoçando em restaurantes koreanos!
   Todavia o Brasil sempre copiou ou foi influenciado por tantas culturas, e agora precisa  unificar e fortalecer  a sua própria.  Significa unir todas aqui presentes, não mais segregar. Mesmo que pra isso sejam adotadas medidas provisórias, progressistas, mas humanas antes de tudo. Um humano que entende que tem mais de mil versões étnicas, cada vez mais miscigenadas, e que também sabe que é parte de um planeta que tem a obrigação de manter, usufruir e também fornecer, equilibradamente.

Atentemos a afobação arqui-inimiga da perfeição. O desespero por justiça virou ganância de um estadista como Getúlio Vargas criando governos provisórios onde havia uma urgência de organizar os trabalhadores/exploradores brasileiros. A ditadura militar tinha a urgência de eliminar a possibilidade comunista. E todas as urgências afobadas que terminam em más experiências que atrasam a evolução que todos almejam.
 Que tudo seja analisado e votado. Qual resposta será há a mais cabível para todos hoje?
Uma sociedade mais justa consequentemente diminuirá a violência que poderá evitar a necessidade de pena de morte. Cotas para uma raça que reclama de exclusão centenária, terras para uma outra que não quer precisar de cotas, mas ter o direito de viver como acha que deve em terras de seus ancestrais. A terra é de todos ancestrais. Organizemos o espaço. Ninguém vai ficar sem terra para que alguém tenha a mais. Todos tem ancestrais, todos querem cotas, todos querem terras. Eu preciso de terra somente para o meu jardim, o máximo que eu planto são manjericões para o molho de tomate. Como filha legítima da cidade concreta, minha necessidade é outra.
Deve importar menos o  passado, que só nos serve aprender com os erros  e mirar em acertos futuros. Pensemos no presente e no futuro sem temê-lo, mas resolvê-lo sem pressa. Uma medida pode prevalecer outra deve sumir, mas devemos tentar o novo sem medo.
Vivemos um tempo de pura transição. Para algo que ainda não sabemos ao certo o que é.  Aqui chamamos de caminhos do porvir. Que só virão de fato, assim mesmo: testando, sem trauma, ocupando lentamente. Nada de enfrentamento ou comparações.  Em vez de divergir e confrontar: concordar, adicionar, encaixar para todos, que somos um tipo: brasileiros. Humanos. Terráqueos.

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