quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Fake and fuck



  Todo dia  tem alguém querendo ser meu amigo no facebook. São centenas. Na vida real poucos tem paciência comigo! Antes pensei em adicionar todos , para depois chamá-los para lotar meus eventos. Mas depois de tanto compartilhar com a dor e a delícia da vivência alheia, de tantos ilustres desconhecidos, achei melhor parar de adicionar tanta gente.
 A internet,  informação rápida, pulverizada, como manejar? Para os pesquisadores do ano de 2850 dou minha contribuição de como isto está se dando, ao contar alguns casinhos do maior sucesso do nosso tempo virtual: o facebook.
  Queridos  pesquisadores do futuro: trata-se do mais famoso site de relacionamento do mundo. Mundo que há poucas décadas vem se tornando globalizado, cada dia mais. Há muito pouco tempo, eu posso do Brasil, falar com um indiano na Prússia, e vê-lo ao vivo se mexendo em minha tela.  Este enorme acesso ao mundo que neste início de século temos tido, ainda é passível de dúvidas quanto a como se comportar diante de. Como utilizar tais fascinantes ferramentas. Então estamos usando e aprendendo pra que servem e anti-servem, na prática.
   No começo do século passado, o encurtamento de distâncias e aproximação de culturas deixou todo mundo igualmente confuso em como se comportar diante de tantas novidades. Até inventaram o livro de pequenas éticas, o famoso livro de etiquetas, para que a nova aceleração de informação e convivência com o novo mundo, fosse regrada, a ponto de acalmar a muitos que não sabiam como agir. Foi por exemplo a explosão dos perfumes, por causa das multidões que começaram a usar locomotivas e bondes . Uma das regras de etiqueta era manter-se cheiroso para não incomodar o outro, que agora era bem próximo, sentava ao lado. Apesar de até hoje ter gente inoportuna que põe música alta no ônibus, a maioria das implicações criadas com esses encurtamentos de distância, nós da vida moderna e urbana, já superamos sua grande maioria. O encurtamento agora é outro. Mais psicológico.
   Em vez de perfumes a explosão é de perfis no facebook. E aí começa a maluquice humana, parecida com a que começou com os  tais comportamentos de “etiqueta” antes, mas desta vez,  de outro jeito.
   Para ser agradável você deve ser no mínimo lindo e genial em tudo que faz! Deve começar botando uma foto de si mesmo incrível e bem sucedida, ou de uma paisagem igualmente incrível e bem sucedida. Sempre de bem com a vida,  ou revoltado com injustiças, neste caso fazendo uma linha heróica. Tem de se mostrar “o cara” ao preencher o perfil do face e em suas publicações.
  Se  sofre, é com força, garra e  beleza. Se está se dando bem, continua humilde e brilhantemente justo! E assim  fica-se tentando provar originalidade o tempo todo possível, no “status” do seu face.
  Deve-se realmente atentar  para parecer o máximo, tudo de bom ponto com.  Afinal a entrevistadora do departamento de recursos humanos, de muitas empresas, pode checar no facebook como você  apresenta a sua vida pessoal e profissional para o mundo. Há um site de relacionamento com a intenção de expor o  profissional e suas conexões, mas esse ninguém entra. Nenhum chega nem perto do sucesso do facebook.
 A polícia investigadora mesmo já pegou muitos bandidos descuidados, através das pistas que os babacas/bandidos amadores deixam em seus perfis! 
  É muito útil para se expor, logo, quem precisa de exposição para viver, não pode viver sem hoje em dia.  Quem precisa de alguém para sair hoje a noite, também vai encontrar checando o estado civil, as preferências, fraquezas, amizades, tudo, qualquer coisa. Pra comer alguém é uma mão na roda.  Você já personaliza a cantada, diminuindo a probabilidade de erros nas tentativas.
  Aliás, o “face” como é carinhosamente chamado, foi inventado por um moleque americano, virgem, narigudo e cheio de espinhas no rosto, pra isso mesmo... Um nerd que não comia ninguém, estava no primeiro ano de faculdade, puto por ter levado um fora, inventou o facebook. Para catalogar pessoas e não ficar mais só. De quebra virar milionário e poder comer mais gente ainda, mas isso foi consequência.
Basica  e fundamentalmente, é pra isso serve o face! Freud tem mesmo razão. Não é que  tudo tem sempre sexo na história?
  Um dia eu descobri como cancelar as atualizações de gente chata que publica baboseiras no face, e só por isso continuei entrando no site. Diariamente. Mais de uma vez por dia. Me fez  viciar mais. E eu estava quase desistindo.
    Um amigo uma vez fez uma campanha: “pare de se lamentar no face”  porque tem gente que é demasiadamente sincera e coloca todos seus sentimentos, se mostrando: rancoroso, magoadinho, frágil...  claro, sempre de forma estratégica. Gente que diz preferir animais do que gente por exêmplo. Gente que quer reconhecimento por ser negro, gay, corinthiano... Mas o mais comum de novo, e eu devo confessar, sigo mais ou menos esta linha, é parecer o máximo. Ser linda, boa profissional, bem comida, amar a vida, as cores, e ter raiva obviamente de coisas “más” como o mensalão (falcatrua política do nosso tempo). No fundo, no fundo: tudo bobagem, pra valorizar nossa... boa imagem. Quesito importantíssimo nos dias de hoje. E não mais virtude só dos belos externamente. Há de ser interessantíssimo também.
  Quando me sinto um lixo não ponho no face: “sou uma merda de pessoa, totalmente incapaz e desnecessária ao mundo. Hoje se tivesse coragem, pois também sou covarde, me mataria”.  Não pegaria bem. Iriam me julgar: suicida, fraca, baixa auto estima, baixo astral, isso não seria boa imagem.  Mas daria gancho a boa imagem de outros! Muita gente ia comentar! Com frases lindas de recomposição, amizade eterna, do tipo:  “força amiga você vai sair dessa! Qualquer coisa liga! Estou aqui para o que der e vier”- e a pessoa nem tem seu telefone.. .  Muito previsível. Muito marketeiro.
    Voltando a como se comportar, são vários os dramas  facebookianos. Alguns amigos virtuais se acham os melhores amigos, com direitos de verdade, e se sentem profundamente desrespeitados se você sai bruscamente no meio de uma conversa virtual. Acham que você faltou com a etiqueta. Gente, e se caiu a conexão? E se o bolo no forno quase queima? E se a campainha tocou? Abriu o sinal de transito? E a pessoa quer uma explicação pela demora ou ausência de resposta.
   É tão grave nossa adicção caros amigos de 2850, que mesmo em mesas de bares onde amigos se reúnem para confraternizar, se vê cinco, seis pessoas reunidas todas sem notarem as próprias presenças. Por estarem presas as atualizações de seus  celulares. Obcecadas em eternizar seus momentos e provar que são felizes. Ávidas por “curtirs”e “compartilhares”.


 Um dia voce tem um super pensamento filosófico,  de novo,ao mesmo tempo altruísta, ao mesmo tempo sexy, inteligente e político pra frentista!  Você entra na internet, entra no face e publica.  Daquele instante em seguida sua vida não é mais a mesma. Você vai clicar compulsoriamente na tecla “refresh” para  ver se alguém interessante leu seu brilhantismo vespertino. Se curtiu ou não o bendito post.  De repente só as pessoas mais chatas  da sua lista de amigos curtem e você se sente, um lixo. As vezes ninguém vê. Um sofrimento.
   Uma colega sua fala abertamente sobre sexo tântrico anal, você acha  super corajoso da parte dela! Só vê risadas (kkkk) e poucas curtidas. Como a atualização apitou no seu I-phone, você vai e discursa sobre isso. Diz que os gays não conseguem virar héteros porque praticam sexo anal, e é comprovada que a região é erógena, e causa sensação de prazer e doação transcendentais. E mais, que deve ser feito com carinho pois dói, e é muito íntimo e etc. Você tinha lido isso numa revista. Escreve um monte de baboseiras para se sentir ou descolada,  ou parceira da menina, ou porque quer ver o que vão replicar, e mais que tudo isso: porque é um vício. Você não tinha o que fazer quando recebeu esta atualização. Por fim vvocê escreve: “Faça! Dói mas vale a pena!”. Poucas horas depois de o mundo inteiro ver sua tese barata, a mesma amiga posta de novo: “Gente! Alguém entrou no meu face e publicou maluquices sobre sexo anal! Imagine eeeeeu  falar sobre essas coisas aqui no face! Sou uma mulher casada! Que baixaria!”  e com risos (kkkk). Agora meio mundo te acha uma pervertida louca.
  Tem sempre alguém que sempre curte nossos vômitos. E quando essa pessoa vomita também, você vai lá e curte solidariamente. Mesmo sem achar o menor sentido no que a pessoa escreveu.   Um dia numa festa,  a pessoa aparece  vestida com um mini shorts pink e salto alto, numa festa Black-Tie, é homem, barbado, tem cheiro de cachaça, a camiseta está escrito “Romney and Obama fuck each other”. Ele(a) te cumprimenta fervorosamente. Você fica sem saber quem é, qual é o nome, e que diabos significa aqueles dizeres na camiseta dele. Ele te mostra a tatugem com o nome fake que ele usa na “net” . Escrito nas costas. Detalhe:  neste momento você falava de teatro na Idade média com um possível  patrocinador da sua peça. Que delicadamente sai de fininho e desaparece. Face pode ser trágico...é para sempre na vida da pessoa. Quase uma prisão ou uma doença que aflorada ou não, está lá, com seu nome, esperando para manifestar.
  Um dia você conta a um amigo confidencialmente sua opinião sobre assunto muito polêmico. Tão polêmico que você mesma não tem certeza de qual é a sua opinião. Ele vai lá e te marca numa foto horrível que super afirma o que você não disse, mas divagou sobre. E agora todos sabem da opinião que nem você mesmo sabe direito se tem.
   Aí você diz: Chega! Eu posso viver  fora desta escravidão mental! E cancela sua conta. De sete em sete dias mais ou menos, o face vai te mandar um e-mail com a novas fotos postadas pelos seus principais amigos, felizes como sempre, geniais, nobres sentenças e quotes de efeito, mais a seguinte frase: “eles sentem falta de voce. Para voltar ao facebook e reativar sua conta clique aqui”, e um botão azul lindo. Quando você clica, automaticamente está lá de volta. Exatamente como deixou. Você troca a foto por uma de fênix, em que está ainda mais gostosa, pele de pêssego, sorriso de pérolas. Põe uma frase “Einstein” sobre retornos/ renascimento. As pessoas curtem. E como um louco ora transtornado em abstinência, você clica naquela porra de estrelinha do lado que torna sua publicação mais vista. E respira aliviado e novamente incluído na era digital.

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