quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Guarda-chuva e óculos de sol




  Eu não gosto de levá-lo porque eu sempre esqueço. É como isqueiro: comprar e perder. Quando no dia, a combinação é chuva fina e densa, mais vento forte lateral, o guarda-chuva só serve como cone perfeito para ajudar a molhar as calças jeans, mais certeiramente do que se estivesse sem ele.  Subo munida do guarda-chuva as escadas do edifício Copan.  E por lá fiquei depois de meus afazeres, até a chuva passar. Forte e densa. Quando passa, saio e dou de cara com sol forte entre nuvens, com garoa . “Here comes the sun”dos Beatles toca no meu telefone, bem na hora. Vejo cada paulistano segurando de forma diferente o seu guarda-chuva. Um debaixo do braço, outro na mão, tinha um que parecia uma metralhadora nos braços do rapaz.
  Sampa sempre cheia de gente que vem e que vai, motorizadas ou não. Muda o tempo todo o clima, a paisagem. E o próprio tempo. Tem mais cinco minutos pra um cigarro? As tais margens plácidas ditas no nosso hino nacional, não se aplicam a torrencial que se forma nas ladeiras. Mas talvez se assemelhe as poças no chão que vão se formando, várias, de diferentes profundidades,  vão secando aos poucos.  Cedem o chão duro cada dia e noite mais, e mais um pouco. Pelo vento, pela água, pela pegada humana, pela própria terra e Terra que não para de se movimentar nunca. Várias pocinhas e poçonas que parecem lagos calmos com gotinhas a fazer ondinhas. Passeio por elas com cuidado e um tropeço novo. Mesmo passando pelo “conhecido” lugar de todos os dias. O velho conhecido é novo todo dia. Como nós,  como música, a mesma canção cada vez que tocada de novo é outra. Como tudo.
 Ainda cautelosos com a nova velha rua, os pedestres voltam a dominar as  calçadas, saem aos poucos de seus abrigos e seguem vorazes em sua jornada paulistana. Com seus figurinos, celulares, automóveis. Os cigarros acesos pipocam, inúmeros depois que a chuva passa. O ar que está limpo pela chuva,imediatamente começa a receber uma e outra fumacinha no ar. Como muda logo o cenário de São Paulo a cada minuto. Segundo!  Parece musical americano, troca um cenário esplendoroso por outro mais esplendoroso e rico ainda.  Um cidadão confia na trégua do céu e desce a rua Augusta com projeto de papel na mão, nem garoa há mais. Trocam seus guarda-chuvas por óculos de sol. A moça mais esperta ainda, enfia um tennis encharcado na bolsa de plástico e bota sandália aberta e alta. Subindo meu trajeto até o ponto de ônibus passo por uma de minhas favoritas: Rua João Guimarães Rosa. Acompanhada de um lento e persistente barulho de trator que sobe comigo, ao meu passo e vira nesta rua para funcionar em alguma das tantas obras que martelam em cada esquina. Ao lembrar do escritor, lembro do céu do sertão que ele descreve tão bem. E contemplo o nosso. O meu. Lotado de nuvens que logo vão dissipar mas não tão fugazmente como no nordeste. São mais pesadas, deslocam densamente, como os carros na Marginal lotada numa sexta-feira de feriado.
 Gotinhas de água voltam a cair em forma de garoa sobre o óculos. Terá um pára-brisa? E precisa? Tiro o óculos e ponho boné. As bolsas dos cidadãos paulistanos, são como a mala do gato Félix.

Eu ía passar o aniversário de São Paulo no nordeste. Mas como a lei de Murphy existe e é atuante, apareceu um trabalho urgente para mim. Algo que não podia esperar eu voltar no feriado. : “Vamos filmar no final de semana, e preparar tudo no feriado. Este filme é pra ontem!”. Até hoje não consegui entender o por quê de em publicidade tudo ser para ontem. Ou seja, já acordamos com 24hs de atraso. Tenho vontade de responder: “se era pra ontem, deviam ter me passado ante-ontem e hoje estaria pronto. Ou talvez amanhã.  Por que em São Paulo as pessoas sempre estão atrasadas? Respondo: pois o que estão fazendo hoje ,  era pra ontem!


 Aonde foi parar o  casarão que estava aqui? Eu juro que estava aqui, ontem. Quer dizer, semana passada. Este final de semana se não me engano e sumiu! Agora tem tapumes coloridos ou com fotos da São Paulo antiga, e aqui vai subir mais um arranha-céu. Poxa, podiam ter nos avisado, assim viríamos nos despedir do belo casarão. Tem de se amar São Paulo como se não houvesse amanhã. Porque amanhã ela será outra. Como no joguinho tétris. Como no jogo banco imobiliário, em uma rodada, cai uma chuva, sai um sol e já subiram novos hotéis.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Quem tem medo de dia ensolarado?


 Um dia antes fui assistir a peça “Disney Killer”. Boa. Tá em cartaz no centro cultural Vergueiro, num galpão sinistro, que ajuda no clima também sinistro da peça.

 As peças de teatro geralmente falam de mil coisas, além do  assunto evidentemente representado ali. Eu sempre aprendi muito sobre gente e coisas de gente indo assistí-las. Além de muitas vezes ter funcionado como terapia.
 Essa falava, dentre outras coisas , sobre o medo. Eu detesto gente muito medrosa. Me dava agonia danada  ver a personagem que era assim. Viciada nos próprios medos.

 Uma noite antes assisti um programa de televisão apresentado pelo Mojica, grande cineasta e pesquisador de medos das pessoas, ele é o cara dos filmes de terror: o Zé do Caixão. Ele fez uma experiência que me deu arrepios a ponto e eu desligar a TV e ficar em silêncio na sala, atônita.  A moça estava de olhos vendados e ouvia o som de um instrumento grave, semelhante ao saxofone, porém mais denso, e um lento amedrontador. A música deste instrumento (desculpem não saber o nome daquele tipo de sax/corneta) , causava uma tensão, um clima pesado, arrastado.  De repente a câmera me mostra bem próximo da lente, o close de uma lesma. Ela se aproximava do rosto da mulher vendada. E com aquele som. Que horror. Não pude terminar de ver aquilo.
   Acho que este é o único medo fobia absurda que tenho. Me domina este medo. Aquele bicho e os parentes dele. Ouvi dizer que ela não existia no Brasil. Que um francês sádico maluco, trouxe elas para fazer criadouro e vender scargots. Que idéia idiota. O imbecil desistiu disso, voltou para França e as deixou aqui procriando no calor do Brasil. Elas fugiram dos criadouros e foram viver nos nossos rios. E já morreu gente de pegar a doença que aquela maldita gosmenta deixa nos rios e pode atacar o pâncreas, e outros órgãos de filtragem que tem o corpo. Um horror.

  Fora “isso” sempre fui a menina moleca mais corajosa que eu já conheci. Só andava com meninos e fazia mil maluquices. Não tenho medo de altura, de velocidade, de sapo, de cobra, buraco, armadilha, nada. Só de lesma.

 Uma vez estava num sítio que ia sempre com a minha família. Tinha uma égua no celeiro, se chamava Boneca. A ordem era não mexer com ela. Eu tinha menos de 10 anos e desobedeci, seqüestrando Boneca sem cela, e cavalguei pelo sítio. A bichinha disparou.  Me levou longe da casa, do celeiro e cavalgava a ponto de meus cabelos voarem e meu corpo em cima dela também. Determinado momento ela parou, pois não podia seguir aonde a mata fechava . Ela brecou. Respeitando as leis na inércia, eu voei para frente, quase quebrando a canela na raiz de uma árvore. Eu mal enxergava com a tanta dor que sentia. Quando tenho muita dor não enxergo direito! A imagem foi voltando e eu enxerguei meu pai, homem bravo e grande. Naquela época maior ainda. Eu comecei a negociar com ele que não brigasse muito comigo pois eu já mal conseguia ficar em pé de tanta dor, e esse poderia ser meu castigo. Depois de um tempo me olhando em silêncio o meu desespero, meu pai mandou eu buscar a Boneca. Por sorte ela estava perto. Então ele mandou eu subir na Boneca e levá-la de volta ao celeiro lá longe.
- Sem a cela?




-Não foi assim que voce a trouxe até aqui? - por que ele estava fazendo aquilo? Me pareceu um castigo terrível. Eu estava com muito medo dela, que suava, estava cansada e havia me derrubado no chão! Ele continuou: -  Se voce não subir nela agora e levá-la de volta ao celeiro,  vai ser pra sempre uma menina medrosa, vai ter medo de cavalos.
 Eu nunca tinha cavalgado antes, tinha sido a primeira vez.  Eu  com dor e o coração disparado . Ele me ajudou a subir, e voltamos para o celeiro em silêncio. Continuei sendo uma menina corajosa.
  

 Meu pai tinha métodos estranhos, uma vez me afogou na praia e disse que assim eu aprenderia mais rápido a nadar... Me forçou a subir naquela égua, mesmo depois de ela ter me derrubado. Foi quando naquele dia, ao tomar banho só mais tarde, vi minhas pernas estavam lotadas e carrapatos. Foram arrancados por mim e minha mãe um por um. Cada um deles me levando pelo menos uma gota de sangue. Então meu medo se tornou outro. Bichos escrotos que sugam. Barata eu adoro, não tenho medo, nem nojo. Tem barata na peça “Disney Killer”.

  Já ouvi de um guru certa vez, que o que desalinha os chacras e cria doenças, são duas coisas: o cultivo do medo e da dúvida. Agora preciso voltar a andar de bicicleta . Um caminhão em São Paulo atropelou minha bike. Tive que rapidamente pular dela para que a roda do caminhão passasse por cima.  Não quero deixar que me assalte o medo de bicicleta em plenos quase trinta anos de idade. Aos seis anos de idade eu somente utilizei as rodinhas da minha primeira bicicleta vermelha por um dia, quando a ganhei. No dia seguinte tirei as rodinhas para virar bicicleta de adulto. Queria pedalar que nem gente grande. Caí um monte. Meus pais perguntaram se eu queria que as botasse de volta. Jamais. Seria retroceder. Caí até aprender.
  O espaço da cidade dá total prioridade aos objetos de locomoção motorizados. Os caminhões, os carros.  Pelo tanto que poluem, por sua agressividade, e por serem armas letais que matam todo dia, deveriam ter menos preferência. Sonho meu...
  Tenho certeza de se pudéssemos ir ao trabalho de bike com segurança, chegaríamos ainda limpos, saudáveis e felizes ao trabalho. Sobrevivi. Agora falta vencer a terrível possibilidade de ter adquirido um medo. Medo de uma coisa que é pra ser locomoção, esporte e  lazer. Desse jeito, o próximo filme do Mojica será sobre o que? Um menininho andando de patinete num dia ensolarado? E vai amedontrar platéias cheias de acento.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A missão secreta extraordinária


Fui correr a noite na chuva, no parque do Ibirapuera. Parecia Londres na neblina, garoa e um frio de somente 9 graus. Não tinha ninguém no parque. E normalmente quando a temperatura não cai tanto, é lotado nesse horário. A iluminação do parque , de repente começa a fraquejar e então apaga. Bem no momento que estou ao lado do lago aonde tem uma pontezinha que o atravessa. Eu paro de correr, exatamente quando acontece o black-out.  Aprecio então a vista de uma água escura que espelha o céu, cercada de vultos de árvores que não mexem. Não há vento. Só o sereno que cai frio. Como sou uma moça prevenida, fui correr de chapéu. Tá bom vai, eu estava de boné mesmo. O chuviscar não me incomoda. Continuo naquele escuro agradável e de repente vejo que no céu, onde há uma mancha lilás escura, fortíssima. Linda e impressionante! Será porque teremos a Paraga Gay domingo? Não era isso.  Desço o olhar para o lago e avisto um cisne congelado como uma estátua. Haveria congelado o tempo?

Eu ainda mexia. Ou será que achava que mexia, seria pura ilusão minha? Pois o cisne não mexia nada, estava totalmente paralisado . E o parque do Ibirapuera estava escuro, vazio e com uma mancha gigantesca lilás escura no céu! E o mais estranho de tudo, o ar estava limpo! Limpíssimo. Tanto que dava até vontade de voltar a fumar pra sujar o pulmão um pouquinho.
Eu podia sentir o cheiro de vida, natureza e acreditem solidão, não havia ninguém ali! Uma solidão boa, rara, e no Ibira!  Tudo muito estranho e incomum. Todo aquele clima só podia significar uma coisa. Intervenção extra-terrestres.
Seres que habitam um planeta muito distante estavam presentes. Congelaram o tempo para corrigir alguma coisa que eu já iria desvendar. Já haviam avisado as autoridades terráqueas que viriam numa missão de paz atá a nossa cidade durante esses dias. Tanto que a moça do tempo já avisou na TV, que só irá abrir o tempo no domingo, depois do feriado de corpus cristi. Por tanto durante esses dias em que a cidade ficará encoberta de nuvens, esse et’s poderiam agir sem serem descobertos, sem causar pânico. Bem no feriado em que a maioria  de nosso país católico reza muito, mira o céu de olhos fechados. Por isso a necessidade de tantas nuvens baixas.
Através da tecnologia que possuem, sopraram nuvens carregadas e densas para bem em cima da cidade propositalmente. Para que não pudéssemos enxergar o firmamento de onde realizam sua missão: recolher os gases tóxicos da atmosfera paulistana. Para um experimento que salvaria vidas no planeta deles. É que eles são ets, e lá no planeta deles é tudo diferente. Esses gases que agente odeia aqui, é um raridade pra eles. E só mesmo aqui neste trecho do mundo eles encontrariam a quantidade e qualidade da poluição necessária para levarem, e fazerem a tal mutação química. O governo sabe de tudo. Mas não pode falar pois chocaria a população. Então mandam a moça do tempo dizer que é uma frente fria.
Só que em um desses tanques, provavelmente acoplados as naves , por onde eles levariam todo esse material para transmutação, houve um enorme vazamento. E lá estava a prova dele. Aquela lindíssima mancha lilás escura e brilhante no céu de Sampa, mais precisamente, do deserto Ibirapuera. E durante o tempo congelado eles tentavam consertar o vazamento antes que São Paulo inteira a visse.
De repente de novo a iluminação do parque volta. Checo se posso mexer mesmo, mas como saber se antes em vez de parada eu estava mesmo paralisada pelos ets?  Caminho um pouco. Avisto um homem correndo. Com medo dele, saio logo dali pois continua vazio o parque, pode ser perigoso nem pelos ets, mas pelos terráqueos mesmo. Olho de novo o cisne e ele continuava mesmo estático. A mancha lilás também permanecia lá. Vou correndo para o portão, decidida a  ir embora pra casa.
Na saída do parque, afoita por tudo que me houvera ocorrido, vejo uma que a luz lilás nada mais era que um fenômeno físico. Era a luz da nossa ilustre Assembléia Legislativa que refletia nas nuvens brancas, que baixas, causavam o efeito cinematográfico. Ao cruzar o portão de saída, no lago principal que é mais iluminado, enxergo um cisne de ferro e madeira, nitidamente. Idêntico ao outro que achei ser vítima dos ets . A falta de luz repentina foi só um curto circuito. O fato de o tempo só melhorar no domingo, é porque será  a  parada gay, e não pode chover nesse dia. A natureza é sábia e não quis enervar uma traveca ao borrar sua maquiagem com  garoa. E o homem que corria era um civil, esportista, normal, nada demais. Tão sozinho e inofensivo como eu. Tsc

Poesia da enxaqueca


  Já ouvi que ateus não acreditam em Deus enquanto estão saudáveis. É só estarem doentes para se lembrarem inclusive da palavra Deus, que quase nunca pronunciam, é com  “D” maiúsculo. Eu quando tenho enxaqueca, me revolto com deus. Não posso acreditar que Ele é tão cruel a ponto de me deixar sem enxergar direito! Minha visão quadro do lado esquerdo some, fica toda xadrez, meus olhos doem, minha cabeça... Ai meu Deus! Nesta época do ano piora e por quê? Deus  é que sabe. O neurologista mesmo sabe nada. E eu que só escrevo assim. Como penso. E como estava assim morrendo de dor, fui ler poesia de um jeito poético. E comecei a escrever diferente. No escuro, num canto. Sem revolta , com doçura.
Sentada na cadeira
Debruçada na mesa
 as luzes da casa apagadas
Só o abat-jour aceso restava.
Com Deus não queria conversa
Só deixei a mente dolorida, aberta.
Recolhida pela dor, sem saber o que fazer
Encontro um livro de amor e na luz fraca comecei a ler.
Como podem escrever assim?
Era letra com melodia lida.
Mesmo com ouvido moído.
Era estranho como o que eu lia, eu ouvia!
Naquele canto esquecido
Me invadia a poesia.
Enquanto a dor me contorcia
Sobressaia a alegria
Que cura pela cabeça
A marvada da enxaqueca.
  Escrevi uma poesia. Bem mambembe e com pouca técnica.  Os modernistas a aprovariam.  Senti vontade de ser poeta! Poetiza. Coisa que nunca me passou pela cabeça quando estava sem dor. Deus escreve certo por linhas tortas. Se não fosse a dorzinha, não teria tido a linda madrugada que tive, sendo curada pela poesia.

Fake and fuck



  Todo dia  tem alguém querendo ser meu amigo no facebook. São centenas. Na vida real poucos tem paciência comigo! Antes pensei em adicionar todos , para depois chamá-los para lotar meus eventos. Mas depois de tanto compartilhar com a dor e a delícia da vivência alheia, de tantos ilustres desconhecidos, achei melhor parar de adicionar tanta gente.
 A internet,  informação rápida, pulverizada, como manejar? Para os pesquisadores do ano de 2850 dou minha contribuição de como isto está se dando, ao contar alguns casinhos do maior sucesso do nosso tempo virtual: o facebook.
  Queridos  pesquisadores do futuro: trata-se do mais famoso site de relacionamento do mundo. Mundo que há poucas décadas vem se tornando globalizado, cada dia mais. Há muito pouco tempo, eu posso do Brasil, falar com um indiano na Prússia, e vê-lo ao vivo se mexendo em minha tela.  Este enorme acesso ao mundo que neste início de século temos tido, ainda é passível de dúvidas quanto a como se comportar diante de. Como utilizar tais fascinantes ferramentas. Então estamos usando e aprendendo pra que servem e anti-servem, na prática.
   No começo do século passado, o encurtamento de distâncias e aproximação de culturas deixou todo mundo igualmente confuso em como se comportar diante de tantas novidades. Até inventaram o livro de pequenas éticas, o famoso livro de etiquetas, para que a nova aceleração de informação e convivência com o novo mundo, fosse regrada, a ponto de acalmar a muitos que não sabiam como agir. Foi por exemplo a explosão dos perfumes, por causa das multidões que começaram a usar locomotivas e bondes . Uma das regras de etiqueta era manter-se cheiroso para não incomodar o outro, que agora era bem próximo, sentava ao lado. Apesar de até hoje ter gente inoportuna que põe música alta no ônibus, a maioria das implicações criadas com esses encurtamentos de distância, nós da vida moderna e urbana, já superamos sua grande maioria. O encurtamento agora é outro. Mais psicológico.
   Em vez de perfumes a explosão é de perfis no facebook. E aí começa a maluquice humana, parecida com a que começou com os  tais comportamentos de “etiqueta” antes, mas desta vez,  de outro jeito.
   Para ser agradável você deve ser no mínimo lindo e genial em tudo que faz! Deve começar botando uma foto de si mesmo incrível e bem sucedida, ou de uma paisagem igualmente incrível e bem sucedida. Sempre de bem com a vida,  ou revoltado com injustiças, neste caso fazendo uma linha heróica. Tem de se mostrar “o cara” ao preencher o perfil do face e em suas publicações.
  Se  sofre, é com força, garra e  beleza. Se está se dando bem, continua humilde e brilhantemente justo! E assim  fica-se tentando provar originalidade o tempo todo possível, no “status” do seu face.
  Deve-se realmente atentar  para parecer o máximo, tudo de bom ponto com.  Afinal a entrevistadora do departamento de recursos humanos, de muitas empresas, pode checar no facebook como você  apresenta a sua vida pessoal e profissional para o mundo. Há um site de relacionamento com a intenção de expor o  profissional e suas conexões, mas esse ninguém entra. Nenhum chega nem perto do sucesso do facebook.
 A polícia investigadora mesmo já pegou muitos bandidos descuidados, através das pistas que os babacas/bandidos amadores deixam em seus perfis! 
  É muito útil para se expor, logo, quem precisa de exposição para viver, não pode viver sem hoje em dia.  Quem precisa de alguém para sair hoje a noite, também vai encontrar checando o estado civil, as preferências, fraquezas, amizades, tudo, qualquer coisa. Pra comer alguém é uma mão na roda.  Você já personaliza a cantada, diminuindo a probabilidade de erros nas tentativas.
  Aliás, o “face” como é carinhosamente chamado, foi inventado por um moleque americano, virgem, narigudo e cheio de espinhas no rosto, pra isso mesmo... Um nerd que não comia ninguém, estava no primeiro ano de faculdade, puto por ter levado um fora, inventou o facebook. Para catalogar pessoas e não ficar mais só. De quebra virar milionário e poder comer mais gente ainda, mas isso foi consequência.
Basica  e fundamentalmente, é pra isso serve o face! Freud tem mesmo razão. Não é que  tudo tem sempre sexo na história?
  Um dia eu descobri como cancelar as atualizações de gente chata que publica baboseiras no face, e só por isso continuei entrando no site. Diariamente. Mais de uma vez por dia. Me fez  viciar mais. E eu estava quase desistindo.
    Um amigo uma vez fez uma campanha: “pare de se lamentar no face”  porque tem gente que é demasiadamente sincera e coloca todos seus sentimentos, se mostrando: rancoroso, magoadinho, frágil...  claro, sempre de forma estratégica. Gente que diz preferir animais do que gente por exêmplo. Gente que quer reconhecimento por ser negro, gay, corinthiano... Mas o mais comum de novo, e eu devo confessar, sigo mais ou menos esta linha, é parecer o máximo. Ser linda, boa profissional, bem comida, amar a vida, as cores, e ter raiva obviamente de coisas “más” como o mensalão (falcatrua política do nosso tempo). No fundo, no fundo: tudo bobagem, pra valorizar nossa... boa imagem. Quesito importantíssimo nos dias de hoje. E não mais virtude só dos belos externamente. Há de ser interessantíssimo também.
  Quando me sinto um lixo não ponho no face: “sou uma merda de pessoa, totalmente incapaz e desnecessária ao mundo. Hoje se tivesse coragem, pois também sou covarde, me mataria”.  Não pegaria bem. Iriam me julgar: suicida, fraca, baixa auto estima, baixo astral, isso não seria boa imagem.  Mas daria gancho a boa imagem de outros! Muita gente ia comentar! Com frases lindas de recomposição, amizade eterna, do tipo:  “força amiga você vai sair dessa! Qualquer coisa liga! Estou aqui para o que der e vier”- e a pessoa nem tem seu telefone.. .  Muito previsível. Muito marketeiro.
    Voltando a como se comportar, são vários os dramas  facebookianos. Alguns amigos virtuais se acham os melhores amigos, com direitos de verdade, e se sentem profundamente desrespeitados se você sai bruscamente no meio de uma conversa virtual. Acham que você faltou com a etiqueta. Gente, e se caiu a conexão? E se o bolo no forno quase queima? E se a campainha tocou? Abriu o sinal de transito? E a pessoa quer uma explicação pela demora ou ausência de resposta.
   É tão grave nossa adicção caros amigos de 2850, que mesmo em mesas de bares onde amigos se reúnem para confraternizar, se vê cinco, seis pessoas reunidas todas sem notarem as próprias presenças. Por estarem presas as atualizações de seus  celulares. Obcecadas em eternizar seus momentos e provar que são felizes. Ávidas por “curtirs”e “compartilhares”.


 Um dia voce tem um super pensamento filosófico,  de novo,ao mesmo tempo altruísta, ao mesmo tempo sexy, inteligente e político pra frentista!  Você entra na internet, entra no face e publica.  Daquele instante em seguida sua vida não é mais a mesma. Você vai clicar compulsoriamente na tecla “refresh” para  ver se alguém interessante leu seu brilhantismo vespertino. Se curtiu ou não o bendito post.  De repente só as pessoas mais chatas  da sua lista de amigos curtem e você se sente, um lixo. As vezes ninguém vê. Um sofrimento.
   Uma colega sua fala abertamente sobre sexo tântrico anal, você acha  super corajoso da parte dela! Só vê risadas (kkkk) e poucas curtidas. Como a atualização apitou no seu I-phone, você vai e discursa sobre isso. Diz que os gays não conseguem virar héteros porque praticam sexo anal, e é comprovada que a região é erógena, e causa sensação de prazer e doação transcendentais. E mais, que deve ser feito com carinho pois dói, e é muito íntimo e etc. Você tinha lido isso numa revista. Escreve um monte de baboseiras para se sentir ou descolada,  ou parceira da menina, ou porque quer ver o que vão replicar, e mais que tudo isso: porque é um vício. Você não tinha o que fazer quando recebeu esta atualização. Por fim vvocê escreve: “Faça! Dói mas vale a pena!”. Poucas horas depois de o mundo inteiro ver sua tese barata, a mesma amiga posta de novo: “Gente! Alguém entrou no meu face e publicou maluquices sobre sexo anal! Imagine eeeeeu  falar sobre essas coisas aqui no face! Sou uma mulher casada! Que baixaria!”  e com risos (kkkk). Agora meio mundo te acha uma pervertida louca.
  Tem sempre alguém que sempre curte nossos vômitos. E quando essa pessoa vomita também, você vai lá e curte solidariamente. Mesmo sem achar o menor sentido no que a pessoa escreveu.   Um dia numa festa,  a pessoa aparece  vestida com um mini shorts pink e salto alto, numa festa Black-Tie, é homem, barbado, tem cheiro de cachaça, a camiseta está escrito “Romney and Obama fuck each other”. Ele(a) te cumprimenta fervorosamente. Você fica sem saber quem é, qual é o nome, e que diabos significa aqueles dizeres na camiseta dele. Ele te mostra a tatugem com o nome fake que ele usa na “net” . Escrito nas costas. Detalhe:  neste momento você falava de teatro na Idade média com um possível  patrocinador da sua peça. Que delicadamente sai de fininho e desaparece. Face pode ser trágico...é para sempre na vida da pessoa. Quase uma prisão ou uma doença que aflorada ou não, está lá, com seu nome, esperando para manifestar.
  Um dia você conta a um amigo confidencialmente sua opinião sobre assunto muito polêmico. Tão polêmico que você mesma não tem certeza de qual é a sua opinião. Ele vai lá e te marca numa foto horrível que super afirma o que você não disse, mas divagou sobre. E agora todos sabem da opinião que nem você mesmo sabe direito se tem.
   Aí você diz: Chega! Eu posso viver  fora desta escravidão mental! E cancela sua conta. De sete em sete dias mais ou menos, o face vai te mandar um e-mail com a novas fotos postadas pelos seus principais amigos, felizes como sempre, geniais, nobres sentenças e quotes de efeito, mais a seguinte frase: “eles sentem falta de voce. Para voltar ao facebook e reativar sua conta clique aqui”, e um botão azul lindo. Quando você clica, automaticamente está lá de volta. Exatamente como deixou. Você troca a foto por uma de fênix, em que está ainda mais gostosa, pele de pêssego, sorriso de pérolas. Põe uma frase “Einstein” sobre retornos/ renascimento. As pessoas curtem. E como um louco ora transtornado em abstinência, você clica naquela porra de estrelinha do lado que torna sua publicação mais vista. E respira aliviado e novamente incluído na era digital.

Feliz Natal Punk



 “ Papai Noel velho batuta rei dos miseráveis! Aquele porco capitalista! Presenteia os ricos, cospe nos pobres!”
   Meu sobrinho de quase dois anos  está na melhor fase, ou no começo da melhor fase para ter loucura por papai Noel. Também pudera. É uma figura perfeitamente pensada para crianças. Gordo, barba branca, risonho como os bebês com aquele “Hohoho” amigável, e vermelho. Uma das três primeiras cores que os bebês conseguem enxergar, e a mais forte delas. É cercado de outras coisas coloridas como enfeites, presentes, flocos de neve, estrelinhas e bichinhos fofos.  O fato é que o Natal sempre me estressa. Tirando o prazer de ver bebês felizes por causa do bom velhinho, me incomoda  conforme vai chegando  a festa cristã. E não é por que muitas noites de Natal meu pai foi comprar cigarros e voltou no ano novo. Embora pudesse ser este o motivo. Ele devia se sentir mal por não poder encher a casa de presentes, não querer por roupa vermelha de frio, nem cantar jingle Bells a meia noite!
 Festas juninas sempre fizeram muito mais sentido, é alegre e divertido, tem mais interação. E eu sou a favor da cura pelo riso, pela graça, a reflexão pode vir depois do sarro e ser genuína. Não curto crescimento forçado pela dor.  Natal é uma depressão!  E quem não tem família? Ou mora longe dela? Extremamente anti-democrático!
  Nem vou falar das pessoas que gastam seu décimo terceiro salário comprando presentes de amigo, inimigo secreto, mais o presente do chefe, da esposa, das crianças. E por pura obrigação, nada a ver com presentear alguém com algum objeto, velho, novo, caro ou barato, ninguém pensa com carinho naquilo. Pensa se pode pagar ou não, e compra. E os que querem renovar a casa? Se endividam, pagam juros que calculam o dobro do valor das coisas. Me irrita muito, fazerem isso... Outra coisa, papai Noel só distribui presentes por que é um velho rico dono de uma fábrica de brinquedos que não vendeu muito o ano todo. Não tem família por que não aceita seu filho gay ter adotado um bebê. É cercado de mamães noelas novinhas, e duendes fumadores de ópio. Sente a “marvada culpa cristã” e por isso, marketeiramente sai “distribuindo” presentes. E seus súditos agem igual. Mas gastam tudo o que tem para fazer isso e se livrarem da culpa cristã.

 Aquela comilança descontrolada, as cidades que disputam a casa mais iluminada, nada a ver com bom gosto, mas com poder aquisitivo, gastando um monte de energia. Me irrita explodir aquele monte de fogos e aquele monte de bêbados batendo seus carros, numa data que deveria ser reflexiva e de ajuda ao próximo!  Ninguém lembra de Jesus molequinho, mal nasceu e já estava ameaçado de morte pelo império romano.
 E os que resolvem fazer caridade porque é natal? Caridade é o ano todo! Cada um como pode. Madame leva roupas usada ( que ela não quer mais) para doar em Diadema, e se sente madre Teresa de Calcutá por isso.  Sendo que ela mora no Morumbi ao lado de uma favela que ela nunca ajudou. Inclusive  a empregada dela, que está na casa todo dia, por que nunca se juntaram para fazer caridade?
Palavras bonitas e transformadoras  empesteiam o facebook e a caixa de entrada do email. A maioria delas tão... falsas. Penso que devo escrever uma crônica legal pra postar no Angu, algo reformador e natalino.  Que preguiça. Todas essas atitudes deveríam ser feitas o tempo todo, ser incorporadas a pessoas. Se somente afloram nas pessoas agora, que seja de verdade e não máscara. Mas não é isso o que mais me irrita. 
  Insuportável de verdade, é ver os motivos natalinos todos ambientados na neve, no Natal que acontece no Brasil. Nada mais cruel que as vestes do papai Noel. Levei meu sobrinho para vê-lo no shopping e ele não estava lá para receber as crianças devido aos casos de pedofilia. Não se pode mais sentar no colo do bom velhinho. Foi proibido. As mamãe-noelas que trabalham no shopping são mau humoradissimas de tantos pais tarados ficarem dando em cima delas.
Um inferno em vez de um tempo de paz... Então os papai noéis que perderam emprego por causa dos pedófilos, migram para Teodoro Sampaio lotada naquele calor de dezembro. Eles soam litros mas não podem emagracer de jeito nenhum, se não perdem o emprego de novo. 
Quantos profissionais de cultura e de moda são formados todos os anos, e ninguém ainda pensou numa solução para mudar isso. Não é só o figurino agoniante de papai Noel, mas o que diabos significa aquele tanto de bonecos de neve? Que criança brasileira já fez uma porra de um boneco de neve na vida? Só algumas milionárias e muito provavelmente por insistência dos pais. Por que não inventam algum outro símbolo tropical para Natais tropicais, gente?   Adaptem isso façam alguma coisa assim não pode continuar, é ridículo!
Para agradar as crianças os Estados Unidos adaptaram O “dia de los muertos”para “halloween” com aquelas abóboras e o tal dos “doces ou travessuras”. Nós não podemos deixar o Natal continuar a ser isso! Deve haver um jeito de ele permanecer gordo, vermelho barbudo, com uma mala mágica aonde ele troca de roupa ao chegar  Brasil, poxa. As pessoas se acumulando na avenida Paulista naquele calor infernal, pra tirar fotos daqueles enfeites natalinos que são importados. E remetem ao frio do pólo norte. Dá agonia só de olhar, e querem fotografar. Os papai noéis tocam jazz.  Por que não botam um papai Noel com pandeiro? Os duendes de bermudas, umas fadas voadoras mais arejadas, sei lá.
A propósito... De qualquer modo, desejo um feliz Natal a todos! Não comam muito, faz mal. Se iluminem, sintam paz em meio a euforia do fogos de artifício. Construa ao seu redor a sua saúde física e mental e estará em harmonia. Usem roupas leves e claras, bebam bastante água e comecem os exercícios.  No ano novo, faça boa passagem, e tente coisas novas para  objetivos velhos ainda não alcançados, que você ainda quer que chegue. Se permita mudar de idéia, aumente suas capacidades, há um ano inteiro na frente para isso. E claro, que tudo se realize no ano que vai nascer.  Muito dinheiro no bolso saúde pra dar e vender. Que venha 2013, trazendo alegria de viver em todos como são onde estão, se transformando como podem a melhor maneira.  Até o ano que vem! Pronto. Acho que consegui.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Flanelinha



  Uma das explicações para o costume de se desejar “merda” a um ator de teatro, está ligado ao desejo de que o espetáculo lote de gente para assistir. Se o estacionamento do teatro enchesse de carruagens e cavalos, o que o deixava lotado de merda dos animais, é porque a peça foi um sucesso de público. Merda significa “que sua apresentação encha de gente!”.  Os atores, com dinheiro no bolso de uma apresentação cheia de espectadores, limpavam juntos toda a merda no dia seguinte.
 Flanelinha é o nome dado aos guardadores de carro. Não sei se já existiam na época da expressão “merda”. Talvez o flanelinha da época shakesperiana escovasse os cavalos?  Na minha cidade, eu vi  a profissão começar com moleques de rua que carregavam flanelas amarelas para limpar o vidro do carro  e humildemente pediam uma “ajudinha”. Hoje não são tão pequenos assim, nem tão de rua, e levam como profissão extra.  Nem se dão ao trabalho de carregar a flanelinha, não lustram carro nenhum, só prometem que seu carro estará ali, onde você o deixo quando você retornar. E as vezes ajudam as ceguinhas a fazer baliza ou a encontrar vaga.
 Dizem eles que guardam os carros e nós temos que acreditar que ele vai ficar ali cuidando do automóvel, e pagar adiantado. O valor que ele mesmo estipula. Caso contrário nos ameaçam com um olhar de injustiçado vingativo, palavras magoadas, mexendo com nossa culpa social. Desço do carro que me foi emprestado.
- Pode deixar Dona, vaio no teatro?
-Boa noite?
- É 10 reais adiantado.
- Não vou te dar 10 reais.
- Dona, no estacionamento do teatro é 20.
- Eu não sou dona e não tenho 20 reais pra botar no estacionamento, por isso estou deixando na rua.
- Então me paga 10 adiantado e seu carro vai estar aqui guardadinho, prometo pra senhora.
- Qual senhora? Moço eu tenho vinte e poucos anos, sou mais nova que você. Na volta , quem sabe.
- Moça to fazendo só dez mas tem que ser agora depois não dá.
- Como assim não dá? Voltou a inflação de 30 anos atrás?
- Eu vou estar aqui eu prometo pra senhora, te dou minha palavra.
- Moço, não custa 10 reais deixar o carro na sarjeta. Com o cartão zona azul, é 3 reais, e a esse horário é zero reais, se botar na rua, que é o que eu estou fazendo.
- Mas essa área aqui é muito perigosa, a senhora que sabe, vale investir.
- Perigoso é onde eu moro, aqui é bem rico, arborizado e tranqüilo.
- Tá tranqüilo, boa peça pra senhora. - ( e faz cara de vingança)
- Moço só vou a esta peça porque ganhei o ingresso, não tenho dinheiro nem para entrada. E esse carro não é meu! Peguei emprestado para conseguir chegar aqui a esta hora.
Eu estava quase implorando clemência! Saí andando mas logo voltei e não mais no tom anterior. Mas indignada de verdade.
- Moço, o senhor pretende riscar este carro.
- Não disse nada disso não.
- E por que me faz ter medo disso?
- A senhora é muito medrosa.
- O senhor percebe que me extorquiu, me ameaçou, me acuou?
- Não fiz nada disso não senhora.
- Como você se chama? E quantos anos tem pra me chamar de senhora toda hora?
-Não vou dizer meu nome não. A... senhora moça, ta brava aí, se ia pagar 20 reais no estacionamento do teatro, to aqui te fazendo esse favor...
- Errado 1: eu não ia pagar 20 reais no estacionamento.Errado 2: favor não se cobra.  A rua é pública!
- Iiiihhh de novo está história de rua pública, Imagine chega o ladrão aqui vê seu carro, e achado não é roubado, e a rua é pública...
 -Esse carro não é meu e nem é visado para roubarem.  Eu vou ao teatro e eu não vou colocar o carro no estacionamento embora ele seja emprestado e eu devesse protegê-lo melhor, mas sabe por que eu não vou fazer isso? – ele me olha calado.- Por que eu não tenho dinheiro!  Eu não tenho um puto pra comprar uma água e hoje está um puta de um calor!  Eu só vou assistir essa peça de teatro, sabe pra quê? Pra prestigiar os colegas, pra ver se eles se sensibilizam com minha presença, porque eu sou atriz e pra variar, mais uma vez, eu estou desempregada! O senhor sabe o que significa ser uma atriz não global neste país? Eu ganhei o ingresso, caso contrário não poderia assistir!
-Calma moça- diz ele um pouco mais prestativo.- Quer um cigarro?
- Ah! Agora eu voltei a ser moça. Quero.- começo a fumar o cigarro dele, que é o mesmo do meu, indignada não mais olhando pra ele que diz:
- Atriz é pior que nóis, né? Mó dureza. É artista, eu to ligado como é. Não vai perder a peça não, vai lá. Tem nada não, seu carro tá guardado aqui, não precisa trazer dinheiro nenhum você não tem. Você foi honesta, voltou pra conversar. Vai lá,  é nóis.
- E sabe o que mais?
- Não sei, mas pode ir moça, tá tudo certo aqui.
- Eu já vi este texto mil vezes! – ele me olha assustado.
- Hamlet né? Até eu já vi moça. Mas esse é com o galã da TV lá.
- Pois é, e eu o vi na TV muito mais que mil vezes! Mas eu tenho que ir por motivos políticos. Vou me atrasar.
-Boa peça.
 A peça foi muito boa. Quando eu volto, o senhor moço não estava mais lá como havia prometido. Mas o carro estava inteirinho. E com um bilhetinho no pára-brisa que dizia: “quiser ver umas peça lôca alternativa, liga nóis. Rogério.” E um número de telefone.