Eu não gosto de
levá-lo porque eu sempre esqueço. É como isqueiro: comprar e perder. Quando no
dia, a combinação é chuva fina e densa, mais vento forte lateral, o guarda-chuva
só serve como cone perfeito para ajudar a molhar as calças jeans, mais
certeiramente do que se estivesse sem ele.
Subo munida do guarda-chuva as escadas do edifício Copan. E por lá fiquei depois de meus afazeres, até
a chuva passar. Forte e densa. Quando passa, saio e dou de cara com sol forte
entre nuvens, com garoa . “Here comes the sun”dos Beatles toca no meu telefone,
bem na hora. Vejo cada paulistano segurando de forma diferente o seu
guarda-chuva. Um debaixo do braço, outro na mão, tinha um que parecia uma
metralhadora nos braços do rapaz.
Sampa sempre cheia
de gente que vem e que vai, motorizadas ou não. Muda o tempo todo o clima, a
paisagem. E o próprio tempo. Tem mais cinco minutos pra um cigarro? As tais
margens plácidas ditas no nosso hino nacional, não se aplicam a torrencial que
se forma nas ladeiras. Mas talvez se assemelhe as poças no chão que vão se
formando, várias, de diferentes profundidades, vão secando aos poucos. Cedem o chão duro cada dia e noite mais, e
mais um pouco. Pelo vento, pela água, pela pegada humana, pela própria terra e
Terra que não para de se movimentar nunca. Várias pocinhas e poçonas que
parecem lagos calmos com gotinhas a fazer ondinhas. Passeio por elas com
cuidado e um tropeço novo. Mesmo passando pelo “conhecido” lugar de todos os
dias. O velho conhecido é novo todo dia. Como nós, como música, a mesma canção cada vez que
tocada de novo é outra. Como tudo.
Ainda cautelosos com
a nova velha rua, os pedestres voltam a dominar as calçadas, saem aos poucos de seus abrigos e
seguem vorazes em sua jornada paulistana. Com seus figurinos, celulares,
automóveis. Os cigarros acesos pipocam, inúmeros depois que a chuva passa. O ar
que está limpo pela chuva,imediatamente começa a receber uma e outra fumacinha
no ar. Como muda logo o cenário de São Paulo a cada minuto. Segundo! Parece musical americano, troca um cenário
esplendoroso por outro mais esplendoroso e rico ainda. Um cidadão confia na trégua do céu e desce a
rua Augusta com projeto de papel na mão, nem garoa há mais. Trocam seus
guarda-chuvas por óculos de sol. A moça mais esperta ainda, enfia um tennis
encharcado na bolsa de plástico e bota sandália aberta e alta. Subindo meu
trajeto até o ponto de ônibus passo por uma de minhas favoritas: Rua João
Guimarães Rosa. Acompanhada de um lento e persistente barulho de trator que
sobe comigo, ao meu passo e vira nesta rua para funcionar em alguma das tantas
obras que martelam em cada esquina. Ao lembrar do escritor, lembro do céu do
sertão que ele descreve tão bem. E contemplo o nosso. O meu. Lotado de nuvens
que logo vão dissipar mas não tão fugazmente como no nordeste. São mais
pesadas, deslocam densamente, como os carros na Marginal lotada numa
sexta-feira de feriado.
Gotinhas de água
voltam a cair em forma de garoa sobre o óculos. Terá um pára-brisa? E precisa?
Tiro o óculos e ponho boné. As bolsas dos cidadãos paulistanos, são como a mala
do gato Félix.
Eu ía passar o aniversário de São Paulo no nordeste. Mas
como a lei de Murphy existe e é atuante, apareceu um trabalho urgente para mim.
Algo que não podia esperar eu voltar no feriado. : “Vamos filmar no final de
semana, e preparar tudo no feriado. Este filme é pra ontem!”. Até hoje não
consegui entender o por quê de em publicidade tudo ser para ontem. Ou seja, já
acordamos com 24hs de atraso. Tenho vontade de responder: “se era pra ontem,
deviam ter me passado ante-ontem e hoje estaria pronto. Ou talvez amanhã. Por que em São Paulo as pessoas sempre estão
atrasadas? Respondo: pois o que estão fazendo hoje , era pra ontem!
Aonde foi parar o casarão que estava aqui? Eu juro que estava aqui, ontem. Quer dizer, semana passada. Este final de semana se não me engano e sumiu! Agora tem tapumes coloridos ou com fotos da São Paulo antiga, e aqui vai subir mais um arranha-céu. Poxa, podiam ter nos avisado, assim viríamos nos despedir do belo casarão. Tem de se amar São Paulo como se não houvesse amanhã. Porque amanhã ela será outra. Como no joguinho tétris. Como no jogo banco imobiliário, em uma rodada, cai uma chuva, sai um sol e já subiram novos hotéis.


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