sexta-feira, 8 de março de 2013

Psicomanicuroterapeuta




  Manicures sabem tudo sobre homens. E sobre a vida! Entre elas existem as casadas , viúvas, mães, avós, e mesmos as solteiras, periguetes, são todas ótimas ouvintes e muito boas conselheiras. Tem manicure mais bem informada


que o próprio jornal, e contam as novidades com mais vontade que as apresentadoras de TV.
  Já tive que trocar de manicures inúmeras vezes, pois algumas se tornam perigosas. Sabem demais, fofocam muito aí me irrita e eu troco. O contrário também acontece. Já fui expulsa do salão pela manicure/ pedicure que me pediu “desculpas” mas  não iria mais me atender.  Me dispensou com veemência esbravejando: “O que vc fez com a sua mão? E com seu pé? Está tudo roído horroroso, não vou mais te atender. Procure um psicólogo e jogue seu alicate fora. Nunca vi se cortar desse jeito... Atendo mais não, enquanto não parar com isso.” Desolada fui evidentemente embora, e acabei sendo acolhida por outra que sabia um pouco mais sobre gente doida que corta e rói unhas. Uma psicomanicuroterapeuta. Essa  me atendeu e ainda conseguiu consertar o estrago que eu tinha feito, deixando meus pés e mão razoavelmente apresentáveis. E não me deu bronca. Mas palestrou sobre esta mania de roer.


  Era uma vez Jaqueline. Além de manicure e pedicure exemplar, era criativa, cuidadosa e limpa, mas o seu maior o diferencial era o de ser praticamente uma podóloga. Ela nem cobrava por isso devidamente. Não tinha feito “curso” de podologia,  somente era mais cuidadosa e talentosa.
   Certa vez ela conseguiu desencravar a unha de Josué, cliente que lhe ficou eternamente grato pelo alívio que sentia. E maravilhado pela massagem nos pés que ela lhe aplicou. Porém quando ela fez isso, não havia o libertado definitivamente do incômodo. Deixou a unha desencravada, mas provisoriamente, de modo que quando voltasse a crescer, encravaria de novo.  Ela tinha a técnica e instrumento para desviar a unha da ferida o libertando para sempre. Mas preferiu só aliviá-lo e manter a unha em direção da parte defeituosa de seu dedo, para que ele fosse obrigado a voltar. E voltava.  Sempre que crescia a unha e ela voltava a incomodar, Josué se aliviava da dor, e se deleitava com a massagem e o serviço bem feito de Jaqueline.
 Ela dispunha de qualquer horário para atendê-lo, a hora que fosse. Fazia-lhe o chá que gostava, comprava as bolachinhas com geléia. Quando na milésima visita Josué, o cliente querido, a indagou:
- Mas por que diabos será que esse problema sempre volta? Tenho o dedo defeituoso?
- Seu dedo é perfeito como o senhor.
- Como?- ela o fita nos olhos e diz com seriedade e firmeza:
- Case-se comigo e eu te livro disso para sempre.
Surpreso mas não tanto assim, Josué voltou na semana seguinte. Ela o esperava com esmalte branco, com vestido também branco e havia feito maquiagem de noiva. Ele botou no salão mesmo, um anel de noivado na anelar direito de Jaqueline. Feliz e com lágrimas nos olhos, ela o sentou cuidadosamente, cortou rapidamente um desnível de pele do dedo do pé dele, com um instrumento especial que tinha guardado, e disse:
-Agora pode crescer que não encrava mais.- ele a olhou com ternura e respondeu:
-  Agora nós vamos casar, e eu vou ter massagens nos pés todos os dias?
- Uma vez por semana. Se for mesmo bom marido.  -  E se casaram.
A minha manicure terminou minhas unhas novas, vermelhas, e como já me conhece, logo já disse.
- Fique quieta! Cuidado para não borrar, que eu fiz duas camadas.
- Oh não!
- Não acredito, você borrou a unha postiça? Droga, é bem pior que refazer unha normal...
-Não borrei não! Só lembrei que fiquei de cozinhar pro meu namorido hoje... E sem postiça já acho difícil, imagine com ela...
- É verdade você casou né? Namorido. É casada só não tá de aliança ainda.
- É. Mais ou menos. – ela me olhava pensando e séria.
- Se vai ser mulher casada não tem mais de roer unha por menor que seja, tem que ficar bonita e do jeito que ela realmente é.- Pensei “pronto mais uma que não vai mais querer me atender”
- Não vou mais te botar postiça.-  (pensei “bingo”) – E ainda bem que sua mão é bonita de qualquer jeito, e que você sabe, ou tenta  cozinhar. Se não ele ia largar você. Uma coisa ou outra né fia?
- O que quer dizer com isso? Como assim?- não estava entendendo nada.
- Nosso tempo acabou. Te espero na semana que vem. – E me deu a fichinha pra pagar.

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