Manicures sabem tudo sobre homens. E sobre a vida! Entre elas existem as casadas , viúvas, mães, avós, e mesmos as solteiras, periguetes, são todas ótimas ouvintes e muito boas conselheiras. Tem manicure mais bem informada
Já tive que trocar de manicures inúmeras vezes, pois algumas se tornam perigosas. Sabem demais, fofocam muito aí me irrita e eu troco. O contrário também acontece. Já fui expulsa do salão pela manicure/ pedicure que me pediu “desculpas” mas não iria mais me atender. Me dispensou com veemência esbravejando: “O que vc fez com a sua mão? E com seu pé? Está tudo roído horroroso, não vou mais te atender. Procure um psicólogo e jogue seu alicate fora. Nunca vi se cortar desse jeito... Atendo mais não, enquanto não parar com isso.” Desolada fui evidentemente embora, e acabei sendo acolhida por outra que sabia um pouco mais sobre gente doida que corta e rói unhas. Uma psicomanicuroterapeuta. Essa me atendeu e ainda conseguiu consertar o estrago que eu tinha feito, deixando meus pés e mão razoavelmente apresentáveis. E não me deu bronca. Mas palestrou sobre esta mania de roer.
Era uma vez Jaqueline. Além de manicure e pedicure exemplar, era criativa, cuidadosa e limpa, mas o seu maior o diferencial era o de ser praticamente uma podóloga. Ela nem cobrava por isso devidamente. Não tinha feito “curso” de podologia, somente era mais cuidadosa e talentosa.
Certa vez ela conseguiu desencravar a unha de Josué, cliente que lhe ficou eternamente grato pelo alívio que sentia. E maravilhado pela massagem nos pés que ela lhe aplicou. Porém quando ela fez isso, não havia o libertado definitivamente do incômodo. Deixou a unha desencravada, mas provisoriamente, de modo que quando voltasse a crescer, encravaria de novo. Ela tinha a técnica e instrumento para desviar a unha da ferida o libertando para sempre. Mas preferiu só aliviá-lo e manter a unha em direção da parte defeituosa de seu dedo, para que ele fosse obrigado a voltar. E voltava. Sempre que crescia a unha e ela voltava a incomodar, Josué se aliviava da dor, e se deleitava com a massagem e o serviço bem feito de Jaqueline.
Ela dispunha de qualquer horário para atendê-lo, a hora que fosse. Fazia-lhe o chá que gostava, comprava as bolachinhas com geléia. Quando na milésima visita Josué, o cliente querido, a indagou:
- Mas por que diabos será que esse problema sempre volta? Tenho o dedo defeituoso?
- Seu dedo é perfeito como o senhor.
- Como?- ela o fita nos olhos e diz com seriedade e firmeza:
- Case-se comigo e eu te livro disso para sempre.
Surpreso mas não tanto assim, Josué voltou na semana seguinte. Ela o esperava com esmalte branco, com vestido também branco e havia feito maquiagem de noiva. Ele botou no salão mesmo, um anel de noivado na anelar direito de Jaqueline. Feliz e com lágrimas nos olhos, ela o sentou cuidadosamente, cortou rapidamente um desnível de pele do dedo do pé dele, com um instrumento especial que tinha guardado, e disse:
-Agora pode crescer que não encrava mais.- ele a olhou com ternura e respondeu:
- Agora nós vamos casar, e eu vou ter massagens nos pés todos os dias?
- Uma vez por semana. Se for mesmo bom marido. - E se casaram.
A minha manicure terminou minhas unhas novas, vermelhas, e como já me conhece, logo já disse.
- Fique quieta! Cuidado para não borrar, que eu fiz duas camadas.
- Oh não!
- Não acredito, você borrou a unha postiça? Droga, é bem pior que refazer unha normal...
-Não borrei não! Só lembrei que fiquei de cozinhar pro meu namorido hoje... E sem postiça já acho difícil, imagine com ela...
- É verdade você casou né? Namorido. É casada só não tá de aliança ainda.
- É. Mais ou menos. – ela me olhava pensando e séria.
- Se vai ser mulher casada não tem mais de roer unha por menor que seja, tem que ficar bonita e do jeito que ela realmente é.- Pensei “pronto mais uma que não vai mais querer me atender”
- Não vou mais te botar postiça.- (pensei “bingo”) – E ainda bem que sua mão é bonita de qualquer jeito, e que você sabe, ou tenta cozinhar. Se não ele ia largar você. Uma coisa ou outra né fia?
- O que quer dizer com isso? Como assim?- não estava entendendo nada.
- Nosso tempo acabou. Te espero na semana que vem. – E me deu a fichinha pra pagar.
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