Um diretor russo veio
ao Brasil conhecer o teatro daqui. Veio para um espetáculo específico. Ele já sabia
da nossa língua, do grupo que visitara e do texto que fora assistir. Na verdade
esse texto era de muito conhecimento dele.
Já havia montado, teorizado sobre, ganhado prêmio por, e tudo mais. Um
especialista. O que deixava o grupo bem nervoso. Receber a “visita” de um cara
desse é até mais tenso do que a do mais crítico dos críticos! Ele senta na
primeira fila. Conforme a peça vai se desenrolando, ele vai se enformigando na
cadeira. Quando um ator termina de dar a fala esperada, ele leva a mão na testa e morde o lábio “mmmff!”. A fala continua e
ele com o queixo para cima, entreolha e solta um “Uhh!!”, como quem diz: quase! Na trave! Continua
vendo a peça com muita atenção, aflito. O clima da cena esquenta e então num
sentido apreensivo ele diz “No! No! no!” , desesperado. Baixa a cabeça entre os joelhos, não querendo
ver o que está acontecendo. Desta posição ele vai abrindo os dedos que fechavam
a sua visão, e aos poucos volta a acompanhar
o lance. Atento, dispara um “ssss!” pra dentro como se sentisse junto a dor do
ator e do personagem . Nos último minutos do segundo ato ele já está mais
calmo. “Ufa”! Termina a peça ele solta
um muxoxo “tsc...” E sai da sala com o
restante da platéia, pensativo e suspirante. Como se seu time tivesse perdido
uma partida. No camarim os atores comemoram os acertos e lamentam os erros.
Lembram as estratégias e refletem se conseguiram atenderam as expectativas da
torcida, que hoje estava ansiosa por acertos.
Futebol é um esporte coletivo e é o mais popular do mundo.
Grande elenco, onze caras de cada lado correndo atrás daquela esfera de couro,
enquanto uma multidão de pessoas em volta fica torcendo contra ou favor. A
equipe ensaia como fazer gols e ganhar o jogo.
Tem um técnico que dirige tudo como será. Um designer criou a logo. A cada temporada cria-se novas variações de
texto e formas que obedecem as cores do time e que inovam cada ano mais em como
atrair mais público.
Uma outra vez, eu
soube que montariam um texto que gosto. E conhecendo a companhia e seu elenco,
fiquei curiosíssima para saber a escalação. Duas mulheres eram necessárias.
Qual delas seria a protagonista e qual a coadjuvante daquele jogo que eu queria
tanto ver como que iria ficar? O diretor ( incompetente) escolheu a esposa como
protagonista. E botou a melhor atriz da companhia para ter poucos minutos de
fala, enquanto a outra chata dominava o palco por mais de uma hora de show. Mas quando a bola estava com essa talentosa
coadjuvante... eu vibrava! E quando ela saia de cena eu levava os braços a
cruzar e a esperar por sua próxima entrada. Saí indginada do teatro. Enérgica,
xingando a incompetência técnica do diretor!
As vezes o ator
jogador é bom, mas o diretor não extraiu tudo o que ele podia. Por isso que existem mil técnicos de futebol
em butecos. Como público que está de fora, nos parece evidente o que seria
melhor ter feito.
No nosso país existem dois principais tipos de protagonistas
das páginas de coluna social: artistas na maioria atores, e jogadores de
futebol. Alguns até acabam namorando entre si e geram capas de revistas por
anos a fio. Fora os dramas que rolam na vida dos jogadores, que é uma novela.
Tem jogador de futebol que aparece mais na TV que ator, e não digo jogando, mas
fazendo publicidade mesmo.
Eu não sabia que eu sabia de futebol. Descobri na Venezuela,
onde o esporte oficial é o beiseboll. Era beiseboll em tudo quanto era esquina.
Andava duas quadras e lá estava mais um jogando no quintal. Morei em Caracas por praticamente três anos
seguidos, entre idas e vindas. E peguei um ano de Copa do Mundo naquele país.
Um dia fui com venezuelanos assistir a um jogo as eliminatórias num pub, era
Venezuela e algum outro time tão ruim quanto, não me lembro qual. O jogo estava
ridículo. Eles estava muito mal, mesmo.
Porém, nunca me diverti tanto. Ver aquilo era muito melhor que muito show de
comédia por aí. Era desengonçado, cheio de erros emperrados, clownesco. De
repente do nada, sem motivo algum: um gol. E o locutor vibra: “goooolaaaaço!
Diós ! Que gol maravijoso!” e os venezuelanos comemoravam e diziam o quanto o
gol tinha sido bonito e bem elaborado! Eu não entendo como aquele gol aconteceu.
Até hoje rio lembrando da situação. Decorei a cena e as falas daquela ação. As
vezes, como aconteceu no jogo da Venezuela, foi um horror, mas deu certo.
As vezes o jogador é
bom mas não ouve o coleguinha, é fominha. Jogador de futebol fominha quer ser
estrela. Perde o gol, mas não perde a cena.
Um casal sai do teatro:
-Mas que coisa linda que vimos agora... diz a garota
-Como assim linda? Eu não entendi nada! Que maluquice esta
peça, não era pra ser Romeu e Julieta?
- Mas o cenário era lindo, o figurino a luz, aquele beijo em
boca de cena... lindo.
- Mas eles não tinham que contar uma história?
-Tinham.
- E contaram?
- Não. Mas eu amei. E você?
- ele torce o nariz e responde – Mmmmm, é, eu também gostei
daquele balão voador alienígena. Bonito né?
Dois amigos saem do jogo de futebol:
-Aquele técnico é um idiota! Zero a zero no final do segundo
tempo e ele deixou o Edfundo no banco?
Pra quê botar aquele perna de pau do Gaymar?
- Perna de pau? O cara deu um chapéu no galinha preta,
voltou, passou por entre as canetas do zagueiro e é perna de pau?
- Mas pra ganhar o jogo não tem que fazer gol? Você viu algum gol hoje?
- Não.
- E tá feliz?
-Na junção de pontos podemos deixar o gol para a próxima
partida e ainda podemos ganhar o campeonato. Imagina se ele fizesse aquilo que
o Gaymar fez e ainda marcasse o gol?
- É... não se pode ter tudo na vida...
- No jogo que vem, o Edfundo faz gol de penalti e ganhamos.
- Será?
- Tomara...
O futebol é mais
democrático, mas eu creio não existir nada mais coletivo que fazer teatro. Cada
um faz sua parte e todos, todos mesmo, são de suma importância. A humanidade sabe que só a união faz a força,
e clama por esta celebração, do coletivo. As pessoas viajam, se deslocam para
ver um espetáculo que mova seu espírito. O esporte exercita, movimenta, mexe. A
imaginação também.

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