segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Flanelinha



  Uma das explicações para o costume de se desejar “merda” a um ator de teatro, está ligado ao desejo de que o espetáculo lote de gente para assistir. Se o estacionamento do teatro enchesse de carruagens e cavalos, o que o deixava lotado de merda dos animais, é porque a peça foi um sucesso de público. Merda significa “que sua apresentação encha de gente!”.  Os atores, com dinheiro no bolso de uma apresentação cheia de espectadores, limpavam juntos toda a merda no dia seguinte.
 Flanelinha é o nome dado aos guardadores de carro. Não sei se já existiam na época da expressão “merda”. Talvez o flanelinha da época shakesperiana escovasse os cavalos?  Na minha cidade, eu vi  a profissão começar com moleques de rua que carregavam flanelas amarelas para limpar o vidro do carro  e humildemente pediam uma “ajudinha”. Hoje não são tão pequenos assim, nem tão de rua, e levam como profissão extra.  Nem se dão ao trabalho de carregar a flanelinha, não lustram carro nenhum, só prometem que seu carro estará ali, onde você o deixo quando você retornar. E as vezes ajudam as ceguinhas a fazer baliza ou a encontrar vaga.
 Dizem eles que guardam os carros e nós temos que acreditar que ele vai ficar ali cuidando do automóvel, e pagar adiantado. O valor que ele mesmo estipula. Caso contrário nos ameaçam com um olhar de injustiçado vingativo, palavras magoadas, mexendo com nossa culpa social. Desço do carro que me foi emprestado.
- Pode deixar Dona, vaio no teatro?
-Boa noite?
- É 10 reais adiantado.
- Não vou te dar 10 reais.
- Dona, no estacionamento do teatro é 20.
- Eu não sou dona e não tenho 20 reais pra botar no estacionamento, por isso estou deixando na rua.
- Então me paga 10 adiantado e seu carro vai estar aqui guardadinho, prometo pra senhora.
- Qual senhora? Moço eu tenho vinte e poucos anos, sou mais nova que você. Na volta , quem sabe.
- Moça to fazendo só dez mas tem que ser agora depois não dá.
- Como assim não dá? Voltou a inflação de 30 anos atrás?
- Eu vou estar aqui eu prometo pra senhora, te dou minha palavra.
- Moço, não custa 10 reais deixar o carro na sarjeta. Com o cartão zona azul, é 3 reais, e a esse horário é zero reais, se botar na rua, que é o que eu estou fazendo.
- Mas essa área aqui é muito perigosa, a senhora que sabe, vale investir.
- Perigoso é onde eu moro, aqui é bem rico, arborizado e tranqüilo.
- Tá tranqüilo, boa peça pra senhora. - ( e faz cara de vingança)
- Moço só vou a esta peça porque ganhei o ingresso, não tenho dinheiro nem para entrada. E esse carro não é meu! Peguei emprestado para conseguir chegar aqui a esta hora.
Eu estava quase implorando clemência! Saí andando mas logo voltei e não mais no tom anterior. Mas indignada de verdade.
- Moço, o senhor pretende riscar este carro.
- Não disse nada disso não.
- E por que me faz ter medo disso?
- A senhora é muito medrosa.
- O senhor percebe que me extorquiu, me ameaçou, me acuou?
- Não fiz nada disso não senhora.
- Como você se chama? E quantos anos tem pra me chamar de senhora toda hora?
-Não vou dizer meu nome não. A... senhora moça, ta brava aí, se ia pagar 20 reais no estacionamento do teatro, to aqui te fazendo esse favor...
- Errado 1: eu não ia pagar 20 reais no estacionamento.Errado 2: favor não se cobra.  A rua é pública!
- Iiiihhh de novo está história de rua pública, Imagine chega o ladrão aqui vê seu carro, e achado não é roubado, e a rua é pública...
 -Esse carro não é meu e nem é visado para roubarem.  Eu vou ao teatro e eu não vou colocar o carro no estacionamento embora ele seja emprestado e eu devesse protegê-lo melhor, mas sabe por que eu não vou fazer isso? – ele me olha calado.- Por que eu não tenho dinheiro!  Eu não tenho um puto pra comprar uma água e hoje está um puta de um calor!  Eu só vou assistir essa peça de teatro, sabe pra quê? Pra prestigiar os colegas, pra ver se eles se sensibilizam com minha presença, porque eu sou atriz e pra variar, mais uma vez, eu estou desempregada! O senhor sabe o que significa ser uma atriz não global neste país? Eu ganhei o ingresso, caso contrário não poderia assistir!
-Calma moça- diz ele um pouco mais prestativo.- Quer um cigarro?
- Ah! Agora eu voltei a ser moça. Quero.- começo a fumar o cigarro dele, que é o mesmo do meu, indignada não mais olhando pra ele que diz:
- Atriz é pior que nóis, né? Mó dureza. É artista, eu to ligado como é. Não vai perder a peça não, vai lá. Tem nada não, seu carro tá guardado aqui, não precisa trazer dinheiro nenhum você não tem. Você foi honesta, voltou pra conversar. Vai lá,  é nóis.
- E sabe o que mais?
- Não sei, mas pode ir moça, tá tudo certo aqui.
- Eu já vi este texto mil vezes! – ele me olha assustado.
- Hamlet né? Até eu já vi moça. Mas esse é com o galã da TV lá.
- Pois é, e eu o vi na TV muito mais que mil vezes! Mas eu tenho que ir por motivos políticos. Vou me atrasar.
-Boa peça.
 A peça foi muito boa. Quando eu volto, o senhor moço não estava mais lá como havia prometido. Mas o carro estava inteirinho. E com um bilhetinho no pára-brisa que dizia: “quiser ver umas peça lôca alternativa, liga nóis. Rogério.” E um número de telefone.

sábado, 24 de novembro de 2012

Dramaturgias Macabras - Sampa doc.



Comédia

No bairro jardins, a mocinha chiquérrima com sua bolsa Louis Vitton, estaciona seu carrão na porta de um restaurante em São Paulo. Antes de destravar o carro para o manobrista abrir, ela tira o cartão de débito de dentro da carteira e esconde a bolsa com celular e tudo de baixo do banco onde está o namorado sentado.
-Não vai levar a bolsa gatinha?
- De jeito nenhum. Se rolar um arrastão meu cartão de débito está na minha bolsa interna.
- Bolsa interna? Que conversa de canguru é essa?
- É uma bolsinha interna que só cabe um cartão, fica entre a blusinha e a lingerie. Última moda contra arrastão.- ela deixa o I-phone 4 e pega um celular antigo, também pequeno
- Não vai levar nem o celular?
- Mas no arrastão é o que eles mais querem: Celular! Pra comunicar a bandidagem da cadeia com a bandidagem da rua. Não tá sabendo? Quanto mais moderno mais eles gostam, esses antigos eles nem levam.- Ele dá um beijo nela e entra no restaurante todo feliz com a gata descolada e bem informada.

Jornal de papel

No dia seguinte, esse cara senta na varanda lê jornal, toma café e lendo o caderno de mercado, resolve investir na bolsa de valores, e na outra bolsinha e uma marca famosa de lingerie que lança essa bolsinha canguru, última moda das moças ricas de São Paulo. Ele vê a foto de Bündchen semi-nua, com cara de dor de dente, zóio de jibóia, e a tal bolsinha nas mãos. Em caso de amorzinho, cabe camisinhas também. Ele adora. Excitado, ele investe mais um pouquinho na internet pelo celular. E acende um baseado, pois já trabalhou hoje.

Telejornal

  Esse mesmo cara vê no noticiário  o governador dizendo a imprensa, que encontrou um novo nome para secretaria de segurança da cidade, já que o vigente pediu exoneração do cargo. O governador diz que este sim é macho, e está preparado para lidar com a situação. Era promotor e procurador de justiça.Um moço magro também tomando café e fumando baseado, vê a mesma TV na favela e diz segurando a bola:
- Promotor de justiça? Que P. de preparação é essa que ele tem? Pra lidar com isso aí tem que ter passagem na SWAT, ter sido líder do Hamas, ter vivido na palestina, ter ido para o Iraque... (indignado) Promotor de justiça! Vai fazer o quê com aquela escultura cega que segura uma balancinha? O melhor nome seria o... tsc, aquele o... - esquece o nome do seu palpite.
Muda canal tv para um jornal sensacionalista que conta: “ Terrorismo na zona oeste de São Paulo.  As 21 horas da noite de ontem, um bar que não havia sido avisado de toque de recolher, recebe a visita surpresa de assassinos motorizados. Dois homens numa moto atiram contra todos presentes no bar que tinha as portas abertas, mulheres e crianças que voltavam de um jogo de futebol. Os bandidos  fogem deixando um morto a queima roupa e dois feridos. As testemunhas, mais de 20 pessoas, vítimas deste ato terrorista (que segundo alguns moradores,  pode ter sido tanto do PCC como da própria polícia,) acabavam de voltar de um jogo de futebol entre dois times da mesma favela, que realizavam o jogo em pedido de paz. O menino morto tinha 19 anos. Jogava num dos dois times e tinha uma  esposa da mesma idade e uma filhinha.” Foto do casal. Imagens choro e tristeza no velório.  Sai sangue e lágrimas da TV.

Teatro

O corpo do menino demora horas para ser liberado ao IML devido a fila de mortos pobres desta noite. É que os mais pobres tem um planos de enterro mais lotado, rola uma fila. Com vergonha de dizer a família a verdade, “responsáveis” mentem dizendo que já estava na autópsia, enquanto o defunto se atrasava para o próprio velório lotado de amigos e parentes que o esperavam quando na verdade ele ainda estava coberto num canto do hospital. Saúde, educação, segurança... onde? Oi? Onu?

Internet

  Quem parece feliz é o senhor  Edgardo, dono da loja de caixões que acaba de comprar um carro novo com ar condicionado. Ele tem uma página no facebook chamada “Se vai, que vá com Deus”, e está investindo no negócio de cruzes, flores, esculturas de santos católicos, faixas, e plaquinhas com dizeres de saudades.  Ou dizeres de revolta. Estes são mais caros e devem ser sigilosos, afinal senhor Edgardo é católico, empreendedor, mas não é bobo.
 
Palhaço ( no sentido de o sujeito agir de modo "non sense")

O homem vai ao debate, para debater com especialistas no assunto e jura de pé junto  (para que só fiquem juntos e não amarrados) de que a situação está sob controle. Ele diz que o Estado de São Paulo é o mais seguro do país. O que me faz pensar em cancelar viagens pelo país. E mais, diz na verdade está tudo bem, que tudo isso é um sensacionalismo nas redes sociais. Sabe as redes sociais? Adoram lançar boatos que se espalham bobagens na cabeça da população com muita facilidade! Os deixando iludidos e apavorados a toa!Uma glamorização da informação!

Novela

 É de uma fé cênica que assusta! Diz estar falando a pura verdade, afinal ele não tem rabo preso com o PSDB, mas acha que na verdade pode ser tudo culpa do PT que está tomando o país e quer difamar o governo dos outros... No final só falta ele mostrar a língua para seu interlocutor.

Drama

O Brasil só não tem mais voz na ONU porque ainda, com seu auge na ditadura, é campeão em tortura. E onde acontece a tortura? Nos morros cariocas, favelas e principalmente nos presídios. No morro eu entendo, mas o presídio não seria um lugar de retenção e regeneração?  Deveria ser. Mas é o único lugar onde não cai o sinal de celular jamais. Se voce está com problemas de sinal no celular, experimente ligar de um presídio. Sinal ilimitado. 100% de mensagens enviadas com sucesso.

Tragédia

Ai de mim! É o fim. Quem diria que iria acabar assim. Há culpa da fumaça branca e do pó de pirilimpimpim.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O curativo provisório




  Band-aid nome provisório de um curativo pequeno, está até no Aurélio. É que curativo pequeno é palavra dupla e grande. Uma vez fui pegar uma travessa de doce na geladeira, ela se espatifou no chão espalhando tudo e cortando meu tornozelo em alguma veia que jorrava muito sangue. Como na casa que eu estava não tinha band- AID, nem esparadrapo, colocaram silver-tape e fizeram em mim o que batizaram de “ponto falso”.  Estava mesmo bem aberto, e sem o tal ponto falso ficaria sangrando e sujando a casa de viagem toda . O  procedimento evitou que ficasse em mim uma marca feia e aberta.  No final das contas não mais necessário foi ir ao médico fazer ponto verdadeiro. O ponto falso funcionou bem. A marca hoje existe, é pequena.  Quando fomos a cidade não quis estragá-lo pois estava funcionando,  então só troquei a silver tape por um esparadrapo branco, onde utilizei da mesma técnica para continuar forçando meu corpo e suas plaquetas a resolverem a situação da abertura da pele, com a tecnologia que eu dispunha.
 Como se machucam os índios que vivem ainda com pouca  roupa que os protejam? Imagino que para eles a natureza seja mais macia que uma casa cheia de eletrodomésticos perigosos, móveis e vidros pontiagudos, ainda mais os modernos dinamarqueses.   Será que se machucam menos? Tenho uma amiga que fez uma cirurgia no pé porque o torceu andando numa superfície reta, com um salto alto chiquérrimo que lhe custou alta quantia, lhe ferindo algo de muitíssimo mais valor: o próprio corpo, cujo o qual não pode existir nada mais de valioso.
 Um índio tem índice de intoxicação por carne estragada? Pode processar o curandeiro por charlatanismo ou o cacique por corrupção? A carne chega a estragar numa tribo indígena, ou só comem  carne de peixe? Afinal usam um outro sistema de armazenamento e cozimento que usam. Não?
 Intermináveis são as discussões sobre inclusão do povo descendente de negro e índio que está em efervescência no país. Aonde eles querem ser incluídos? Os negros querem igualdade e que paguem a dívida social.  Os escravocratas já morreram. Em vez de fazer uma super sessão espírita que convoque os que erraram antes, teremos que negociar com os vivos presentes de hoje mesmo.  Indios e negros tem motivos e questões distintas, que devem começar a ser testadas, uma a uma, provisoriamente até se acertarem, pois toda raça humana, seus grupos e etnias estão passando por revoluções de pensamento e comportamento. Ainda bem.
Teremos de todos nos organizar a fim de que o respeito e a liderança de cada cultura se pulverize e se auto-reja com igualdade de representantes num mundo globalizado. Imagine se os japoneses quisessem cotas em universidades públicas? Só tem japa na USP! Eles deveriam pedir cotas na NBA para terem o direito de representatividade no basquetebol. Árabes devem querer descontos nos tecidos afinal as moças deles cobrem até os olhos, enquanto que as índias andam nuas e tomam banho de rio ao léo sem véu.
 A política de cotas, a pena de morte estão sendo pensadas, mas me parecem tapar sol com peneira.  Fazer o quê se estamos em tempos de sol a pino, aquecimento global e a própria peneira já ameniza o sol escaldante?  É tão absurdo que sejam necessárias cotas em universidade, em poder público para negros e índios, assim como é tão absurdo que seja necessário ter que pensar em retroceder com a pena de morte, só porque os homicídios tem aumentado nas ruas. No entanto eu concordo que se discuta tudo isso por um só motivo: acredito nos caminhos do porvir! Toda essa baboseira tão importante e fundamental, será motivo de piada quando um dia atingirmos uma sociedade justa.  Onde se consiga uma ordem. A ordem será o respeito, o consenso. E sempre haverá reajustes. Eternos reajustes.
 Este dia chegará depois de muita luta, mas não a com sangue habitual das décadas anteriores, que mostrou-se ineficiente e gerador do sentimento de vingança, mas a luta que queima neurônios para chegar as melhores idéias. E coragem para testá-las com suavidade, sem traumas, com a concessão de todos envolvidos. Esse meu discurso é mesmo patético.  Meu sonho de miss: a paz mundial.

  Ontem queimou a lâmpada da cozinha, quando finalmente eu havia ajeitado a iluminação da sala. Assim como na minha casa sempre vai faltar uma coisinha aqui e ali, as políticas irão se ajustando de acordo com as necessidades, não é mesmo?
   Num país tão grande e miscigenado como o nosso, e onde principalmente existem além dos imigrantes brancos de todas as partes, há um fortíssimo traço de população negra e índia, é mais que evidente que haveria de já estarem de velhos, super incluídos nas políticas todas: econômicas, sociais e culturais.  Acho válido que por sua tamanha expressão no país tenham correspondentes nas lideranças para estarem com todos os outros representantes, juntos na mudança de pensamento neste país. Vamos conseguir, somos bons nisso. Vide o Bom Retiro cheio de árabes e judeus ortodoxos almoçando em restaurantes koreanos!
   Todavia o Brasil sempre copiou ou foi influenciado por tantas culturas, e agora precisa  unificar e fortalecer  a sua própria.  Significa unir todas aqui presentes, não mais segregar. Mesmo que pra isso sejam adotadas medidas provisórias, progressistas, mas humanas antes de tudo. Um humano que entende que tem mais de mil versões étnicas, cada vez mais miscigenadas, e que também sabe que é parte de um planeta que tem a obrigação de manter, usufruir e também fornecer, equilibradamente.

Atentemos a afobação arqui-inimiga da perfeição. O desespero por justiça virou ganância de um estadista como Getúlio Vargas criando governos provisórios onde havia uma urgência de organizar os trabalhadores/exploradores brasileiros. A ditadura militar tinha a urgência de eliminar a possibilidade comunista. E todas as urgências afobadas que terminam em más experiências que atrasam a evolução que todos almejam.
 Que tudo seja analisado e votado. Qual resposta será há a mais cabível para todos hoje?
Uma sociedade mais justa consequentemente diminuirá a violência que poderá evitar a necessidade de pena de morte. Cotas para uma raça que reclama de exclusão centenária, terras para uma outra que não quer precisar de cotas, mas ter o direito de viver como acha que deve em terras de seus ancestrais. A terra é de todos ancestrais. Organizemos o espaço. Ninguém vai ficar sem terra para que alguém tenha a mais. Todos tem ancestrais, todos querem cotas, todos querem terras. Eu preciso de terra somente para o meu jardim, o máximo que eu planto são manjericões para o molho de tomate. Como filha legítima da cidade concreta, minha necessidade é outra.
Deve importar menos o  passado, que só nos serve aprender com os erros  e mirar em acertos futuros. Pensemos no presente e no futuro sem temê-lo, mas resolvê-lo sem pressa. Uma medida pode prevalecer outra deve sumir, mas devemos tentar o novo sem medo.
Vivemos um tempo de pura transição. Para algo que ainda não sabemos ao certo o que é.  Aqui chamamos de caminhos do porvir. Que só virão de fato, assim mesmo: testando, sem trauma, ocupando lentamente. Nada de enfrentamento ou comparações.  Em vez de divergir e confrontar: concordar, adicionar, encaixar para todos, que somos um tipo: brasileiros. Humanos. Terráqueos.

De violão nas costas


Meu pai é músico. É por isso que eu tenho vinis do Jhonny Winter, Jimmi Hendrix, Rolling Stones. Por causa desta influência tenho outros vinis também além dos que afanei dele. Em 1983, quando eu nasci, meu pai achando que eu fosse me chamar Luis Filipe, me comprou um violão, um Di Giorgio de madeira belíssimo. Depois ele achou que minha irmã fosse se chamar Marlon, comprou outro violão, mas nasceu Helena. Quando a Mariana, terceira filha nasceu, ele não arriscou mais nomes de homens e parou de comprar violões. Se conformou em ter três filhas. Tentou me ensinar violão e o máximo que aconteceu foi eu saber cantar um pouco, ser mais ou menos afinadinha. Do instrumento sei alguns acordes que saem abafados quando os tento. Logo começa a machucar os dedos e já desisto. A inteligência musical é uma das mais rebuscadas que tem, dizem , e eu acredito nisso. Devo ter herdado um pouco esta inteligência, mas não a disciplina que um instrumento exige. Como o violão é muito bonito pensei em consertá-lo para botar na estante da sala, assim quando vier visita que toca, eu canto. E quando não tiver ninguém em casa, eu tento uns acordes. 
  Levei por recomendação do papai a um consertador profissional de violas, violões e guitarras na vila madalena. Meu pai não conseguia me dizer o  nome e número do lugar então tive que achar pelas características que ele me deu:
-É um japonês cabeludo, meio véio, numa casa azul na Teodoro Sampaio.
-E onde fica a casa na Teodoro Sampaio?
-É uma escada que sobe, antes da galeria.
-Escada que sobe. Qual galeria, pai?
-É... depois sobe mais outra escada, são duas escadas. Tem que ser com esse cara ele sim é bom. Ele vai dizer o que precisa fazer no violão.
- E como ele chama?
- Não sei. Mas tem que ser lá, só pode  ser lá.
  O pior é que eu encontrei o lugar facilmente!  O japonês cabeludo não trabalhava mai lá. Quem me atendeu foi um senhor argentino chamado Juan.  A parte de baixo da loja tinha exposto vários instrumentos de cordas muito bacanas. A parte de cima, da segunda escada, era uma marcenaria de instrumentos. Lugar sonoro, encantador. Cheio de músicos testando, tocando. Deixei minha viola nas mãos de Juan.
  Sábado a tarde depois de uns 5 dias, fui buscar a bichinha. Novinha em folha. Tinha umas esposas de músico me olhando na loja, todas tatuadas, fumavam cigarro na varanda no topo da primeira escada. Tem tipo um palco ali, talvez para as pessoas ensaiarem. Me disseram que as vezes até tem shows nesse espaço.
- Você toca faz tempo? – perguntou-me Juan com sotaque argentino.
- Sim.
- Quer testar?
- Não, não, imagine, só de olhar já dá pra ver que tá massa.
   Fumei um cigarro de filtro vermelho, fiz cara de artista e segui pela Vila Madalena no sábado de sol com o violão nas costas. Comecei descendo a Teodoro Sampaio e depois subindo a Praça Bendito Calixto, lotada de gente a passear pela feirinha de antiguidades, e pelos bares e cantos dali. Então me dei conta que estava de óculos escuros do Ray Charles, coturnos pretos, calça preta e uma camiseta branca com um desenho em preto muito louco. Eu estava sendo vista como uma rockeira “madalenandante”.
 Quando cheguei ao beco da vila madalena, espaço de paredes grafitadas e constante eventos culturais, percebi que haviam montado um half de skate.  Tocava ska, som perfeito para o esporte.
   Conta-se pelos antigos moradores da Vila Madalena, os velhinhos que ainda conseguem dormir na badalada região, que toda a extensão que compreende os bairros Vila Beatriz, Vila Ida e Vila Madalena, pertenciam a um português.  Quando ele vendeu os lotes para prefeitura , pôs os nomes das filhas nas divisões feitas. Mas a vila Madá, como a apelidamos, virou a preferida dos artistas. Ela ascendeu assim por causa de um bondinho que botaram nela no começo do século. Hoje um apartamento dos chiquérrimos arquitetos franceses da Tryptic, construído na região valem mais de milhões. É que os ricos seguem os artistas. Agora o bairro valorizou tanto que nenhum artista pode viver lá, mas ainda passeiam e se apresentam por ali.
 Muitos deles me cumprimentavam com olhar e gesto parceiro, achando que eu fosse uma guitarrista a caminho do trabalho.
- Toca rock? – me perguntou um na rua.
- Opa!-
- MPB também?  Reggae?- fiz com a cabeça que sim!
Ele disse nome de bandas que eu conhecia e eu disse que tocava todas aquelas! Então ele constatou:
- “Nóis do som têmo que tocar tudo mêmo! Essa é a lei! Não sendo sertanejo, já era! Hahaha!”
 Concordei de novo e continuei caminhando. Não estava mentindo, toco tudo isso no som de casa!  Adorei sentir o assédio de andar na Vila Madalena com figurino de guitarrista. Enquanto o sol se punha nas cores vibrantes da Vila que nascia pra noite bohêmia.

sábado, 20 de outubro de 2012

A plantinha carnívora parte II



 
  A melhor coisa era ir a praia, chegar logo ao Rio de Janeiro. Fomos os três. Em Ipanema tomamos mate com limão: eu, minha amiga gringa e meu namorado leitor de jornal. Muito sol e muito Brasil. Rodas de futebol se formaram uma ao lado da outra formando uma fila de rodinhas de futebol na beira mar. As cariocas dando ombradas, cabeçadas e matando a bola no peito. Eu disse a minha amiga que  também faço isso muito bem, que jogo desde pequena. Só não estava muito disposta naquela hora. Até parece...
  Empolgada e intrigada em ver mulheres e velhos jogando futebol, a canadense tirava fotos, filmava. Eu tomava sol e as vezes dava explicações esdrúxulas sobre nossa cultura. Chato era voltar ao hotel e lidar com a cara de safado do recepcionista.
 Quando chegamos os três para pedir um quarto, ele fez aquela cara e perguntou: “Um quarto, com uma cama de casal para três?”. Respondi: “Moço, queremos três camas! Ele é meu namorado e ela é minha amiga mesmo! Não é amante nossa não! Estamos viajando em três e só vamos ficar em um só quarto para economizar. Não é nada do que o senhor está pensando.”  Ele olhou pra cara do meu namorado, com a sobrancelha dizendo: “Sei...”. 
  O Rio de Janeiro está caro, não podíamos pagar dois quartos, era só isso. Mas ninguém daquele hotel parecia acreditar nisso. E nos olhávamos toda manhã na sala de desjejum como se fossemos Vicky, Cristina e Barcelona.
   Exaustos de sol, dormimos. Cada um em sua cama. Pensamos em sair a noite mas o cansaço foi maior. Dormimos mesmo. Lá pras duas da manhã, a canadense começa a delirar “Oh my God!, Oh no, no... no!”. Estava passando mal do estômago. No começo vomitou bastante, depois se contorcia de dor, e gemia alto na cama. “Oh! Oh, no... Wait a minute.... Yes... Yes!  Oh my God!” Acho que os “yes”era quando melhorava a dor, e os “nos”era pra quando piorava. Liguei para o melhor médico que eu conheço em São Paulo. Passei a situação, ele passou uma receita. Fui comprar o remédio. Chego na recepção com o saquinho da farmácia e recebo mais um olhar duvidoso do recepcionista. Ela tomou o remédio e conseguiu dormir. Havia de ser o mate com limão. Quando foi três da manhã começou o escândalo de novo. Ela sentia muita dor e gemia escandalosamente!  Já não mais vomitava, mas se contorcia de dor e gemia cada vez mais alto: “Please! Livia! Dont’leave me!” clamando por ajuda. Fui com ela ao hospital. No elevador trombamos a senhora que mudava de quarto e olhava feio. Mudava por causa do barulho? Ou da mente pervertida dela?
  Taxi amarelo.
- Senhor, minha amiga está passando mal – “Oh my God!”-  Calma amiga , já estamos indo.
- É gringa? Qual foi? Cachaça? – com sotaque carioca.
- Não senhor, é vegetariana e também não bebe álcool.
- Foi aquelas porra de bola que os gringo toma pra ficar doidão?- com muito sotaque carioca
- Senhor, pode nos levar ao hospital mais próximo, no caminho conversamos?
- E onde é o mais próximo?
- Vai me dizer que não é carioca? -  desci do taxi e avistei o recepcionista curioso na porta do hotel. - Aonde é o hospital mais próximo?- perguntei.
- O taxista não sabe?- também surpreso o recepcionista.
-Não.- ele explicou ao taxista aonde tinham dois. E depois perguntou-me:
- É exstasy?
- Não. Ela é vegetariana, não fuma nem usa drogas, foi o mate. Explico quando eu voltar. Até.
  No caminho comecei a rir e não pude explicar a minha amiga o por quê. É que no rádio do taxista, tocava uma rádio evangélica, e o locutor dizia: “Você, que está sozinha ouvindo este programa... seu marido foi comprar cigarros e nunca mais voltou. EnTão você o espera na janela todas as tardes...”  Pedi ao taxista que abaixasse ou desligasse o rádio, mas ele não o fez. Fiquei ouvindo o programa evangélico e a canadense gemer até chegar. Longe.
 No hospital o ar condicionado estava congelante. Abrir a porta do pronto socorro foi como abrir um freezer. Em seu habitat natural de gelo, a canadense pelo menos parou um pouco de gemer. Enquanto esperávamos e eu me resfriava, perguntei se podia pelo menos aumentar um pouquinho a temperatura. Não. Por causa dos germes cariocas. Eles morrem no frio, tem que ficar frio.
  A atendente me fazia perguntas que eu não sabia responder sobre minha amiga. Mas as respondi e fomos atendidas por um médico gatinho. Jovem, carioca, moreno. Foi logo perguntando se ela estava drogada, ou se era cachaça. Disse a ele que nós duas éramos vegetarianas, viajantes, livres, fazíamos yoga e perguntei o telefone dele. Mentira. Ele diagnosticou que ela era gringa e havia tomado mate na praia. Chamou de “mal estar do viajante”. Que iria passar, era só tomar água, mas estava desidratada e precisava de soro.
Pra tomar o soro foi um suplício. Dois litros! E logo voltamos para pedir alta ao médico gatinho. Estávamos maquiadas e mais coradas. Entramos na sala tinha um médico velho! Com sotaque capixaba. Devia ter uns mil anos. E diferente do outro, não diagnosticou o mal estar do viajante, mas um possível começo de úlcera que a acompanhava há tempos!  Receitou um monte de remédios pra tomar por um mês e mais outros que ela deveria tomar pelo resto da vida. Não poderia mais tomar café,  pediu uma biópsia do estômago e deu gratuitamente o tratamento com remédios, mais as guias para os exames.
  De volta ao hotel, eu estava feliz que no pronto socorro público minha amiga gringa havia sido bem atendida por dois médicos diferentes, num super ar condicionado e estava medicada,  saudável e corada. Ela não poderia falar mal da gente no Canadá, afinal deu tudo certo. Então no dia seguinte eu perguntei em inglês:
- O que acha agora da saúde pública do Brasil?- ela havia me perguntado antes- Você pode dizer melhor que eu.
Responde a canadense:
- Acho normal. Tem o mínimo. E faltou um cobertorzinho, estava muito frio lá dentro.

A Plantinha carnívora



 Ser vegetariano é chique. Pega bem. Diz a profecia Maia que no ano de 2012 mudaria o eixo  da Terra. Não sei muito bem o que isso significa. Mas parece que ao mudar a tal ordem mundial, tanto a moda, costumes, como as tendências mercadológicas, começariam a vir do oriente. O que já vem acontecendo desde os anos 60: a orientalização do ocidente. A China hoje não é só um gigante. É um tigre gigante! A China comanda a energia do mundo. Inclusive a nossa no Brasil.  Os chineses acabam de comprar as empresas de energia que eram dos espanhóis.   A energia passa de européia a oriental. Parece que foi em religiões orientais que a estória de vegetarianismo começou. Não é na India que a vaca é sagrada? Comem cachorrinhos por lá?
  Enfim, ser vegetariano por aqui, dá idéia de ser mais saudável, o que hoje é super  “cool”. O vegetariano deixa de ser, como dizem os budistas, um “fantasma faminto”, e torna-se uma pessoa mais leve. Que faz sexo tântrico, yoga. Que recicla, que é contra o sangue derramado em guerras.  Um sentimento “new hippie” para nós ocidentais.
  Bem... Uma grande amiga minha, gringa, diz que a partir de sei lá quando, virou vegetariana . Nunca tinha sido antes.  Desconfiei e respeitei. Ela estava convicta. De férias no Brasil, eu tive de eleger o lugar onde iríamos almoçar. Aonde? Liguei para um da lista do restaurant week da cidade, onde estávamos de viagem. Chamava Veg Villagio restaurante. Pelo nome imaginei que era veegan.
- Restaurante Veg Villagio, bom dia.
- Bom dia. Quero fazer uma reserva e preciso saber se vocês tem prato vegetariano.
- Temos sim.
- Perfeito. São três pessoas.
-Que horas?
- Daqui á 30, 40 minutos.
-Ok, feita sua reserva.
-Legal. Moça, pode me dizer como são os pratos vegetariano?
- Posso sim. Temos de todas as cores.
- Como assim?
- Que cor a senhora gosta?
-Que cor eu gosto?- vai que era um código veegan -  Olha...Não é pra mim. Eu como carne.
- Ah,nossas carnes são maravilhosas. Eu sugiro baby beef mal passado, com batata sautê.
-Minha amiga é vegetariana. Pergunto por ela. Aí tem carne?
-Não se preocupe,  temos frango e peixe, sua amiga gosta?
- Moça,minha amiga é vegetariana.
- Sim, sim, nós temos peixes vegetarianos.
- Peixes vegetarianos. E os pratos vegetarianos como são?
-Eles comem algas- disse ela me interrompendo.
-Quem come alga, o peixe? A minha amiga também.
- É mesmo? É que temos um aquário aqui no Vila Villagio cheio de peixes comedores de algas.
- E podemos comer o peixe do aquário?
-Sim, matamos ele na hora é só a senhora escolher.
- Moça, eu preciso saber como são os pratos ve-ge-ta-ri-a-nos, que significa que só vai  vegetais, nada de peixe, nem frango.
- Senhora, a Veg Villagio vende a comida e os pratos onde vai as comidas. Você come o prato, quer dizer, a comida que vem nele, e de quebra ganha o prato pra botar de enfeite na parede da sua casa.- ela falava de modo vacilante como que tentando se lembrar do texto mal decorado.
- Entendi. Os pratos são decorativos.
- Sim temos de todas as cores, vários temas, desenhos de peixe, frango e vegetais. Ah, e flores também. Ah! Oi , alô?
- Oi.- já cansada dela.
- Tem também aquele com uma moça com os seios de fora, corpo metade de peixe e com um abacaxi na cabeça. É o último.
-Certo- já quase desistindo- Mas como é a comida vegetariana que vai nesses pratos que são coloridos, decorativos e repleto de temas. A comida vegetariana. Como é?
- Não sei moça nunca experimentei. Mas é boa, eu acho.
- Ok, obrigada, deixa pra lá. Acho que minha amiga vegetariana não vai gostar de me ver escolhendo o peixe que vocês vão matar pra eu comer... Cancele a reserva.
  Enquanto isso minha amiga me pressionava para irmos embora! Dizia estar morrendo de fome e queria que eu encontrasse logo o raio do restaurante . Liguei para um outro da lista que se chamava “ A Vaca redentora”. Com esse nome pensei que podia ser de comida indiana. E lá deve ter a tal veegan, verde, ou seja lá o que for.
  Estava com muita fome a esta altura. Em vez de ligar fui direto. Descobri ser um rodízio. Sim, uma churrascaria tipicamente brasileira. Expliquei para minha amiga que todo rodízio brasileiro tem um buffet enorme de saladas. Mato não iria faltar. E que culturalmente seria legal ela conhecer um rodízio. Falei das plaquinhas que são como semáforos na mesa. “Sim” para mais carne e “não” para quando queremos dar um tempo. Isso só existe no Brasil! A fome, e um pouco de curiosidade, a fez concordar. Eu num lugar deste mais pareço uma planta carnívora.
 A planta carnívora fica parada esperando vir a mosquinha, que gruda nela e em seguida é ingerida pela planta. Eu na churrascaria, fico igualmente plantada, quieta  esperando o garçom trazer a carne, botar no meu prato e depois eu a vou ingerindo.
 Defendia durante o almoço o não fanatismo. Já fui vegetariana por um tempo, vampira por alguns meses, gente, eu mudo o tempo todo. Mas uma coisa nunca mudou em mim. Meu pavor por lesmas. Pavor mesmo. Medo profundo. E  no prato verde de minha amiga eu avistei uma. Caímos juntas para trás. Ela de nojo, eu de asco e pavor. O restaurante todo notou nosso horror. Neste dia o bicho morto e bem passado para “ao ponto” estava uma delícia, mas perdeu imediatamente o sabor, pois aterrorizante  foi  ver o bicho vivo e não comestível, ali, no prato e ao mesmo tempo no habitat natural dele o alface. Provando que o vegetarianismo e o tal do equilíbrio ser muito perigosos.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Crime desOrganizado



  Nunca me senti tão confusa para votar . E entender  o que diz o jornal. As notícias não batem. Incêndio em favela, ONU parabeniza São Paulo por melhorar habitação dos pobres. Foto de Maluf apoiando o PT, Russomano em terceiro lugar depois de estar o tempo todo em primeiro nas pesquisas. Além da última vez que eu fui assaltada.  Já me aconteceu muitas outras vezes. Mas arrastão em restaurante foi a primeira.
 Eu estava morrendo de fome. A comida pousou na mesa pelo garçom. Na hora que pego nos talheres, entrou um moleque. Depois outro e depois vários. Todos bem vestidos para assaltar. Estavam juntos, notei depois. Seria coincidência mais de um assaltante mesmo lugar? Imagine se um deles dissesse: “vai embora , cheguei primeiro!”. Uma quadrilha de festa junina. Fiquei com medo que levassem minha refeição. Não anunciaram o assalto como nos filmes, foram fazendo aos poucos. Roubando cada mesa, as vezes a mesma, e apavorando geral, com frases e palavrões típicos e sotaque paulistano da nossa periferia. Eram meninos.
  Não pareciam ter experiência no ramo em que estavam. Quase lhes dei meu cartão para que me ligasse a fim de eu fazer uma consultoria. Para que no próximo assalto se desenvolvessem melhor. Nem sequer tinham sacos para botar o material roubado dentro! O carro eles tinham e saíram cantando pneu. Óbvio que assim seriam encontrados! Um dos baby assaltantes não sabia se roubava ou não o whisky do bar. Talvez não soubesse se caberia ou não no carro, ficou indeciso, como os eleitores de São Paulo. Olhou a estante do bar, pegou um. Devolveu. Pegou de novo e acabou levando algumas garrafas de bebida.  Devia ser o alcólatra da turma.

 Desconfio que eram atores contratados por partidos políticos que disputavam a prefeitura da cidade. Era semana de eleição e eram amadores demais. Apoiados pelo atual governo, receberam um cachet para fazer aquilo. Uma estratégia de marketing.  Nós vítimas diríamos em nossos blogs e facebooks que a polícia funciona.  Pois nossos pertences foram encontrados um dia depois.
 Eu não ligo que a polícia funciona. Queria uma política que evitasse que esses meninos passassem  aquele papelão atrapalhando meu jantar e de quebra botando minha vida e a deles em risco. Eles deviam estar jogando capoeira, aprendendo inglês, estar de aprendiz de algum ofício, namorando. Estavam na puberdade!  Acabada a ação deles, sem meus pertences, eu comecei a comer. Em volta as damas se abanavam, suspiravam de medo e aguardavam a polícia ( e seus maridos, pois pra mim era tudo charme) salvá-las. Eu ainda ganhei o jantar de graça! Não precisei pagar! Ganhei uma crônica prontinha. Eu devia ter pedido mais comida, eu sabia, tive esse “feeling”. Levei o restante pra viagem.
O que será que queriam fazer com aqueles I-phones todos, se são bloqueados pela Apple? A delegada que fez meu B.O. disse que os assaltantes tem um vigoroso sistema que desbloqueia. Quando fui buscar meu celular na delegacia, eu tinha esperança de que já tivessem  conseguido desbloquear o meu. É que a minha operadora o havia bloqueado por falta de pagamento. Na verdade por falta de receberem meu recibo.
 Como atriz meu sonho sempre foi ser aquelas mulheres de bandidos. Que sabem atirar, que sabem enganar e também sabem ser muito chiques, tipo a Júlia Roberts em “Onze homens e um segredo”. Ladra famosa. Casal de golpistas que vai a cassinos e reuniões com banqueiros e acionistas. Não era o caso de nenhum deles. Mas claro, devo admitir que se deve ter coragem para fazer aquilo. Deve dar um frio na barriga danado. Fico pensando se fizeram aquilo por necessidade ou por emoção. É uma adrenalina que nem saltando de avião em queda livre se consegue. E se tivesse sido completado, mais ainda.  Falando em completar meu celular não completa chamadas. Eles esqueceram, ou não tiveram tempo de desbloquear.