segunda-feira, 13 de agosto de 2012

“O telefone tocou novamente, fui atender, e não era o meu amor! Será que ela ainda está muito zangada comigo? Que pena, que pena…”





   Eu estava sentada no chão do Sesc Vila Mariana lendo Mafalda. Fui lá atrás desta exposição de quadrinhos. Tinha Calvin e Snoopy também.  Cheguei achando que haveria quadros expostos, com a história destes personagens e seus criadores. Nada disso. Só uma mesa com os gibis e livros de quadrinhos para ler. Ok! Sentei-me ao chão e escolhi um. Lendo uma historinha da Mafalda, que se passa nos anos sessenta, tocava o telefone, dentro da história. No mesmo instante, tocou um telefone na área da exposição também.  E o som que tocou na sala era justamente de telefone antigo.  
  
  Existe todo tipo de toques de telefone possíveis e imagináveis. Tem gente que grava a voz com o nome da pessoa e quando ela liga, ouve-se a voz do indivíduo: “Oi fulano  atende o telefone, preciso falar com você”.  Mães malucas colocam o choro de seus bebês pra quando liga a babá da criança. Namorados grudentos gravam a voz da namorada dizendo: ”Amorequinhooo!  Atende vai, sua chuchuquinha quer falar com você.” Um outro muito comum é escolher o tema  do Dart Vader de “Guerra nas Estrelas” para quando liga o chefe. Um funk carioca bem sujo quando liga uma periguete e assim por diante.  Com a invenção da bina a ansiedade que demonstra o trecho da música que abre esta crônica tornou-se inviável. Sempre sabemos quem é quando toca o telefone.  No entanto também sabemos que a pessoa sabe que ligamos. Pois ela também tem bina. Há aplicativos do I-phone que é possível saber que a pessoa recebeu, e a que horas leu a sua mensagem. Ou seja não se fica mais ansioso se leu ou não . A ansiedade tornou-se: por que diabos ainda não respondeu?
  
  Todavia nós paulistanos temos experimentado a sensação de não saber quem está  ligando. Muita gente perdeu os contatos em seus telefones desde a mudança da Anatel de botar o número 9 na frente de todos os números de telefone de celular. O número permanece o mesmo, porém com um “9” na frente. O que causou a desprogramação da bina. O que causou desconforto a uma população acostumada a sempre saber quem está ligando. O telefone toca na festa, maior barulho, vem a tentação: atender ou não?  Quem será? O que vai pensar? O que vou dizer a esta pessoa qiue liga e não sei quem é?! Há tempos não se sentia mais essa dúvida.
 Eu adoro atender o orelhão quando ele toca.  Acho genial falar com a pessoa desconhecida no outro lado da linha. Triiiiimm!
- Alô?
- Olá, quem fala?
- Alguém na avenida Paulista num telefone fantasiado de massa encefálica.
- Como você chama?
- Sirleide, pra você. – tinha lido o nome e telefone da travesti, grudado no aparelho telefônico público.
- Ah, tá. Tudo bem Sirleide?
-Tudo.
- Tá muito trânsito aí na Paulista?
- Deixa eu dar uma olhadinha. Olha, sentido Paraíso tá meio travado, o consolo é o sentido Consolação que tá fluindo melhor.
- Tá. Entendi. Então o Zé já deve ter chegado no trabalho. Você pode chamar ele pra mim Sirleide?
  - Chamar quem? O Zé?
- É. Ele tá trabalhando, fala que é rapidinho, preciso dar um recado a ele, sou a mulher dele.
-Mas aonde ele trabalha?
- Aí na Paulista?
- Ah vá?
- Na banca de jornal na frente do prédio do Sesi, Fiesp não sei direito , é aquele prédio que parece um triângulo de lado.
- Hummm... É meu caminho, vou passar por ali agora. Pode deixar que eu aviso “seu” Zé. É pra ele vir aqui atender?
-Isso. Eu espero.
- Ok, sem problemas.
- Muito obrigada Sirleide! Você é uma graça!
-De nada.  Dona?
- Maria. Mulher do Zé.
- Maria mulher do Zé, nada mais justo. Bom dia pra senhora, vou lá avisar seu marido. E olhe, se vier pra cá traz guarda-chuva que tá vindo umas nuvens lá dos lados do centro pra cá, viu? Adeus.
  
  Estão revitalizando os telefones públicos do país. Estou amando a idéia. Deve ser para consigam se comunicar o montão de gringos que virão pra cá na Copa e nas Olimpíadas.  Imagine se um gringo precisar ligar do orelhão para alguém? Vai precisar de um limpo. Agora estão limpos e decorados.  A cidade está cheia orelhões artísticos. E você ainda continua tendo a opção de contratar um artista travesti, caso queira. Tem lá a propaganda deles com os telefones de contato direto. Não é disk-sexo. É o telefone pessoal deles (ou delas) mesmo.
  
  Tem-se hoje em dia, no mínimo um celular por pessoa. Porém para aproveitar as promoções das operadoras, muita gente tem mais de um. Um pra cada operadora. Pergunta-se o telefone da pessoa em seguida qual é a operadora dela. A Anatel proibiu a venda de novos chips e celulares de todas as operadores de celular do país. Decisão tomada pelo fato de elas prometerem tudo e não cumprirem o mínimo: sinal telefônico!
  
  No Brasil se pode fazer chamadas a cobrar! É o único lugar do mundo, acho. Ainda não soube de nenhum outro lugar que exista esta opção.  A gravação diz: “Chamada a cobrar: continue na linha após a identificação.” Aí você aceita, porque a gravação mandou. Assim você fala com o desprovido de recursos (grana, crédito, etc) para ligar.  O desprovido que precisou fazer a chamada a cobrar, por sua vez escuta: “Chamada a cobrar: diga seu nome e a cidade de onde está falando!”.  Livia Prestes, São Paulo –SP Brasil!  Subtexto: não desligue, por favor, sou pobre mas é importante! Preciso falar!
  
  O telefone fixo caiu praticamente em desuso. Mas curiosamente é utilizado para as ligações de 0800, somente. Não entendo o por quê disso, mas só é possível realizar uma ligação gratuita, que comece a 0800, de casa. Do telefone fixo. Por que? Não faço idéia, mas do celular, a ligação nem sequer é completada.
   E para quê ligar para um 0800? Ou qualquer número de informações, telemarketing, cadastro, serviços. Olha, este drama infelizmente faz parte da vida de todos nós. Uma hora ou outra você vai ter ligar nesses serviços para resolver algum pepino. Faça um alongamento antes, tome um pouco de água com açúcar já pra garantir, faça uma oração de paz e paciência e boa sorte. Ligue. Ela vai atender. Vai botar uma musiquinha para que você aguarde sua vez.  O atendimento vai começar eletrônico. Você vai discar vários códigos no intuito de adiantar a explicação do seu problema.  Enfim atenderá uma operadora de telemarketing treinada para te acalmar e te ajudar a resolver o problema. Ela confirmará todos os seus dados que você já havia digitado antes no atendimento eletrônico. Vai recitar um texto decorado, dizer o nome dela e em que ela pode ajudar?  Tenho a impressão de que todas elas estão lixando as unhas enquanto falam comigo.  Ela dirá: “Senhora? Senhora!”. Mil vezes.  Depois de você explicar seu problema pelo menos umas três ou quatro vezes para que ela entenda. Então ela vai dizer: “Não se preocupe senhora, vou estar passando a sua ligação para um outro departamento, onde a senhora estará falando com uma outra atendente, que estará resolvendo tudinho pra senhora, que estará ficando feliz e satisfeita, para depois a senhora estar participando da nossa pesquisa de qualidade de atendimento, tudo bem senhora? A senhora entendeu?”. “Sim senhora.” respondo.  Musiquinha de espera de novo.
  
  Hoje em dia as pessoa não pedem mais telefone para paquerar. Pedem o “face”.  Assim já realizam uma pequena pesquisa sobre a pessoa antes. Não é preciso conversar. Em vez de acreditar nas mentiras que a pessoa diz, você se arrisca acreditando nas mentiras que a pessoa posta no “face”. No espetáculo de Improvisação que  estou fazendo, quase toda noite a platéia dá facebook, conexão na internet e telefone, de tema.  No início do século passado, comemoravam o encurtamento de distâncias e as novas facilidades de comunicação.  No início deste está acontecendo a mesma revolução.  São tantas as novidades para se comunicar. Tantas as promoções, está mais fácil viajar. Me pergunto se essas tecnologias todas aproximam ou afastam mais ainda as pessoas. 
  
  Antigamente, na época da Mafalda, os pais iam ao cinema e deixavam o telefone da bilheteria com a criança, ou a babá.  Caso acontecesse alguma coisa, haveria primeiro de se falar com a bilheteira, que deste modo, saberia o nome do filho do casal, conheceria a família deles. A bilheteira encontraria o senhor e senhora X no cinema, e passaria a ligação a eles.  Para poder falar com os pais, o filho teve de ser educado e comunicativo com a bilheteira. Explicou pra ela a situação. Depois de falarem com o filho pelo telefone do cinema, os pais agradeceriam a bilheteira antes de ir embora. Outros tempos. Tinha-se um telefone por restaurante, um por boteco, um aparelho para  o povo de um cinema inteiro.  Hoje pede-se pelo amor de Deus para desligarem os celulares antes do filme e mesmo assim ninguém consegue. Novos tempos.



sábado, 4 de agosto de 2012

O carro na frente dos bois




  Estava atravessando na faixa de pedestres, o sinal estava verde para mim. Havia uma outra pessoa na minha frente, que fazia o mesmo: atravessava.  A mulher que dirigia, tinha os cabelos loiros e bem curtos.  Um nariz empinado, olhos verdes, um blazer bem bonito. Um brincão gigante na orelha e um carrão grande, alto e branco. A postura (e figurino) em que dirigia lhe parecia estar num filme de ação ou ficção científica. No entanto ela esperou para que o pedestre passasse no maior drama! Com aquele farol alto aceso forte na nossa cara e uma cara de brava e apressada.  Como se ela fosse uma super executiva, mega importante, e nós reles infortúnios, ousávamos estar em seu caminho. Ela suspirou fundo e passou acelerando na minha frente, como se tivesse feito um grande favor ao pedestre em parar pra ele passar. E me ignorar. Um reles pedestre, ok, mas esperar passarem dois, já estaríamos abusando da sua paciência. Ela deve ter pensado: “cidadania tem limite!”. Como se ela fosse melhor ou mais importante por causa daquele enorme carrão. Carrão. Tem uma estação de metrô e um bairro paulistano com esse nome. Uma homenagem profética?
Poucos carros são simpáticos. Poucos motoristas também.

   Na esquina seguinte, um outro carro, que estava na esquerda, deu seta intencionando  ir para direita, para fazer uma curva. Deram passagem a ele.  Mas buzinaram tanto para este homem.  Mas tanto.  Eu entendo que na cabeça de seus opressores, ele devia ter mantido a preferencial já que desejava fazer a tal curva. Mas gente, buzinaram, xingaram e saíram cantando pneu! É muito agressiva a tonalidade das buzinas dos carros. Você sai triste, ofendido, se sentindo um idiota. Ou é só muito pentelha mesmo. Na maioria da vezes uma buzinada é pior que um xingamento!  Deveriam inventar uma buzina mais amigável? Que igualmente chamasse a atenção, mas que não fosse tão alta, imponente, poluidora, imperativa. Talvez uma musiquinha mais suave?

   O trânsito de São Paulo parece uma selva.  Agora com o fim das férias, se iniciará o que eu chamo de o próprio inferno. Uma selva de carros pretos e prata, sem fim.  Por que será que não há carros cor de rosa? Amarelo com bolinhas? Ou cores mais leves relaxantes, tipo um verdinho d’agua. De vez em quando aparece um vermelho. No momento “a cara do verão” são os carros brancos, altos e grandes. Tem um ar de serem mais caros e não são confundidos com os taxis de Sampa porque são de design imponente, que os diferencia.  São tão altos, e com rodas enormes, feito as de tratores. Parecem projetados para passarem em cima de qualquer coisa. Ou qualquer pessoa.  Eu duvido que quem comprou este carro tenha feito rally na vida ou uma trilha sequer. Foi comprado com o intuito de assustar mesmo. Um investimento? Um “up”no social de seu dono. Muito mais que somente um automóvel.

  O design destes carros é pensado para impor, assustar. Compare as lanternas a dois olhos humanos.  Parecem muito a um par de olhos nervosos! Sanguinários! Quase os “transformers” do cinema. Já repararam a voz dos locutores nos comerciais de carro? Aquela voz de demolidor! Superior. “O melhor e mais robusto da categoria.”  E que categoria.
  Gente, carro é só um objeto de locomoção, poxa! Objeto que seduz por aumentar a velocidade na liberdade de ir e vir, da qual prezamos tanto.  Porém, ao ser escravo do trânsito, automaticamente se perde essa liberdade.

 Não coloquemos o carro na frente dos bois, quando o boi é o mais importante.
Me sinto muitas vezes culpada de usar carro sozinha, sobram quatro lugares vagos! Antiecológico. Quanto pesa um só carro? Quanto gasta para  levar somente a mim que peso 60 quilinhos?  Me aflige ver tanto espaço inutilizado. Poderia levar uma família inteira guaxinins para passear. E mais quilos de castanhas no porta-malas. Poderia levar alguém ao trabalho, aliviando os ônibus lotados. Talvez alguém muito legal na rua esteja indo na mesma direção que eu e poderia estar vindo comigo, ouvindo o mesmo programa de rádio, dando umas opiniões. Despoluindo o planeta, e ainda, se não se enjoasse em movimento, lendo o jornal para mim.
  
  Tanto trânsito enfileirado. A locutora disse na rádio:  “as férias em São Paulo estão dando um sossego danado pra nós paulistanos. Neste momento a CET registra somente 48 kilometros de lentidão, um recorde de tranqüilidade que há tempos não tínhamos!”. Parece piada , eu sei, mas ela disse isso com a maior alegria.   Como quem diz : “saiam de carro a cidade está livre!”. Gente , 48 kilômetros é a costa inteira da Eslovênia! Não se preocupem , com a volta as aulas voltaremos a fazer a marca de engarrafamento do tamanho da costa do Brasil. Desisto de ter filhos só de pensar nas filas de carro na porta das escolas. Queria poder levá-lo a pé. Eu acho que chique mesmo, seria viver perto de casa e ir ao trabalho a pé.  Agora que o IPI baixou mais ainda, as pessoas estão comprando carros que combinem com o visual da estação.

   Imagine se as cores dos carros fossem divididas por profissão, saberíamos quem são essas tantas pessoas que vão se afileirar sozinhas em suas naves hermeticamente projetadas para a solidão. Por que tudo preto e prata? Por que é mais fácil de vender depois. Cor neutra. Acinzenta mais ainda a cidade.

  Calma, eu acho carro uma ótima invenção. Uma das melhores versões da roda.  Difícil é entender o significado que dão a ele. Para trabalhar todos os dias em uma cidade grande não seria melhor investir em transporte coletivo? Usaria-se o carro no final de semana, pra sair da cidade, fazer compras grandes, mas todo dia?  Usar carro todo dia, para tudo, é um costume muito nada a ver. Por que não adaptar a cidade a outras versões da roda como a bicicleta, o patinete, os patins, o triciclo, o carrinho de rolimã para as ladeiras.

  O prefeito Kassab aprovou projeto que transformará o subterrâneo do centro da cidade, ali em toda região da praça da Sé, num mega estacionamento gigantão. Das cidades que eu conheci as que usam transporte coletivo e investem cada ano mais neles, são as mais chiques.  Acho péssimo esse louvor exagerado ao ter seu “carro próprio”, que diabos isso significa? Já que amamos tanto carro assim, poderíamos dar e pegar mais carona.  Andar de taxi, bonde, aerotrem. Reparar nos acontecimentos, no movimento, talvez ler alguma coisa no banco de trás e ter uma boa idéia. Dirigir não possibilita a riqueza que é poder ir a pé, ou de transporte público. Bem mais chique. Mais enriquecedor, mil vezes mais que atropelar tudo e todos, sozinho ouvindo som alto, se escondendo da CET pra atender o celular. Vence o mais alto, mais bravo e mais barulhento. É uma nervosa, rápida e ao mesmo tempo lenta competição!  Em época de olimpíadas: que vença o maior? Mais caro e mais antipático!

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Libertadores Genérico




  Desde cedo já havia começado a preparação do que seria mais tarde a comemoração do título inédito do Corinthians. Fazia tempo que não via a cidade assim. Bandeiras sobre os carros, nas janelas, nas costas de pedestres. Cornetas, vuvulzelas. Motoqueiros com capa de super herói com o símbolo do time. Que é um timão. Com uma âncora e dois remos atrás. Timão é o nome dado a roda ou volante com que se manobra o leme do navio. E também é o aumentativo de time. E é o símbolo do time Corinthians.  Só mais uma curiosidade: a pronúncia de “menininhas” em grego é “corinthias”. Mas quase ninguém sabe disso, e bambi, torcida de menininhas, acabou sendo fama que ficou para um outro time paulistano. Vai entender.
  Muita gente de camisa oficial, faxinha na cabeça andando pela rua. Me lembrou nos anos 90 quando o São Paulo ganhava um monte de campeonatos, e eu sãopaulina, estava no lugar deles hoje. No rádio um torcedor diz “hoje é um daqueles dias que você não vê a hora de passar e quando chegar a noite não quer que acabe nunca mais”. Ele estava certo. Realmente demorou pra acabar.
  Fico pensando que piadas vamos fazer contra o Corinthians agora, já que a principal que mais os irritava, não terá mais efeito. Eu adorava perguntar: “Você sabe oque faz um corinthiano depois de ganhar a Libertadores?”. Resposta: “Ele desliga o play-station e vai dormir”.  Na realidade transformaram o dia seguinte de Campeões em feriado!
Três da manhã e ainda ouvia-se os berros, os gritos masculinos e femininos, as buzinas. Quatro e meia e ainda tem fogos de artifício explodindo.  Olho no rádio relógio na escuridão do quarto e são seis da manhã e em coro escuto “timão êo”. Era a feira sendo montada na rua de trás de casa. Quando achei que as seis, conseguiria dormir, descubro que os feirantes são todos corinthianos e começaram a soltar mais rojões logo cedinho. E cantaram mais um pouquinho antes de começar a trabalhar.
  Claro pela manhã, as dez, lendo o jornal, se vê a quantidade de casos violentos gerados pela alegria corinthiana. Violência, atropelamentos, embriaguês.  Mas eu não posso deixar de observar o quanto a alegria propriamente dita  de todos que estão felizes com o título é positiva. Super positiva, uma energia muito alta! Aquele estádio lotado vibrando em conjunto por uma vitória. Dois milhões de pessoas muito felizes! Uma prova disso é o segundo gol. Creio  que aquele gol foi da torcida. Forte e firme como estava desestabilizou o jogador do Boca que possibilitou que fosse realizado o segundo gol do Corinthians  Oque eu quero dizer é que algum inglês inventou o futebol. E pensou em tudo. A base era: botar vinte e dois caras pra correr atrás da esfera de couro e se organizarem juntos para dominá-la. Quase um treinamento de guerra. Uma forma pacificista de guerrear. E creio ter sido criado por bons motivos, mesmo que o inglês em questão nem tenha percebido.
 O rugby é bem mais violento. A primeira vez que eu fui a um jogo de rugby, no Chile, me lembro de ter ficado muito impressionada. A torcida era completamente diferente. Tinha mulheres com luvas de couro e chapéu. De pernas cruzadas e cara blazet. Quando tinha gol, elas se levantavam aplaudiam e sentavam de pernas cruzadas de novo. Os homens, como sempre, eram um pouco mais enérgicos, mas nada comparada a torcida do timão (apelido do Corinthians) no futebol. Ouvi de um jogador: “o rugby é um jogo rude, jogado por homens cavalheiros. E o futebol é um jogo de cavalheiros jogado por homens rudes.” Concordei na hora, pois no rugby você pode esfregar a cara do indivíduo no barro e não será falta, e eles impressionantemente naquela brutalidade toda, não se machucam como no futebol onde não vale o toque que não seja dos pés na bola!
  Mas é impressionante a movimentação energética que acontece nos jogos. Este ano teremos olimpíadas, gostaria de saber se diminui a violência do mundo nesta época, sem contar a da imprudência do exacerbo da alegria gerada do esporte.
 Estou fazendo espetáculo de improvisação no teatro, e soube que em alguns países o improviso é considerado um esporte. No esporte as pessoas não esperam acabar o espetáculo para aplaudir, elas vibram durante toda a execução do mesmo.
 Uma vez um colega de teatro convocou seu grupo de atores para ir até a Avenida Paulista fazer um intervenção teatral. Eram dias insuportáveis de quente em São Paulo. Os executivos continuavam a se vestir com paletós e gravatas. E a sair para almoçar ao meio dia, quando o sol estava a pino. Muito quente mesmo, estava fazendo quase quarenta graus em clima seco.  Os atores então se vestiram em trajes de banho: biquínis, sungas, chinelos. Munidos de raquetes de frescobol, guarda-sol , e tudo mais que remetia ao que aquele clima propunha: praia.  Eles sugeriam que os passantes de uma Avenida Paulista ao meio dia , lotada, passassem protetor solar, usassem borrifador de água no rosto, jogassem um voleibol ou deitassem um pouco com alguns deles nas cangas estendidas debaixo do guarda-sol, na ilha, em frente ao MASP. O vendedor de sorvete ficou por ali mesmo, compondo a cena realística. Foi o tipo da coisa que além de atrair todos os jornais, como fazem os esportes, simplesmente mudou brutalmente a energia cotidiana daquela Av. Paulista naquele horário.  Como fez a final da Copa Libertadores  com a cidade inteira este ano.   Outra intervenção que este grupo de teatro quis fazer, foi “O  Ano-Novo no meio do ano” na Paulista. Todos de branco, e após a contagem de 10 à 0 gritar “Feliz Ano Novo!!”  bem alto e com veemência! E em seguida abraçar a todos, brindar e desejar muita saúde, felicidade, prosperidade, e todas essas coisas que se desejam um ao outro na passagem de ano. O grupo quis provar que a manipulação de energia acontece, transforma o espaço e tem efeito incrível.
  Pensei que baseado nisso tudo, podíamos criar  uma Copa Libertadores Genérica! Se utilizar dessa paixão, dessa mobilização pra conseguir outras coisas, tão importantes ou mais que chegar ao Mundial em Tóquio. Como acabar com a corrupção por exemplo. Tomar decisões através de jogos .  Haveria as torcidas a favor de idéias que são a favor, ou contra. Imagine como seria um jogo de futebol que decidisse se é necessário cotas para negros nas universidades ou não. Se Demóstenes Torres deve ou não ser preso em vez de cassado. Imagino o tanto de bicheiros e donos de cassinos na torcida.  Se é mesmo necessário usar paletó num calor de quarenta graus. Seria a torcida organizada mais chique de todas, com estilistas do mundo inteiro querendo decidir os modos de vestir com formalidade!  Teria um desfile do vencedor.  Ok, fui longe demais. Fazer oque,  fiquei pensando essas coisas! Afinal não podia dormir. A energia, os gritos, e os rojões não deixavam, tive que pensar em alguma coisa. Um jogo de tenis onde se decida o segundo turno de uma presidência de república! Claro, seria após votações. E ainda depois, iríamos para o teatro encenar as formas, caminhos e cores de governo. Acho que nesse caso as torcidas se mesclariam. Como os políticos fazem, se odeiam ontem, se apoiam hoje. Que venham as olimpíadas! E salve o São Paulo Futebol Clube! 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Templo é dinheiro




  Religião vem do termo religare, em latim. Significa o modo de conectar-se ao que é divino. Templo é o lugar pra se fazer isso. É um ambiente material, custa dinheiro. Não só a estrutura, mas todo seu marketing e divulgação. As igrejas disputam público com os teatros, bares e academias. Afinal é possível religar-se com arte, gastronomia, literatura, ioga, corrida...

Pra mim, nada mais é tão divino quanto um determinado bolo de chocolate com recheio e cobertura, acompanhado de um cafezinho amargo. O templo para isso seria uma doceria. Me conecta com o infinito. Divino para Carlos Aparecido pode ser um doce de cupuaçu, templo: frutaria. E para  Carla Aparecida, o divino nem doce é. Pode ser um churrascão com cerveja num domingo de sol. No quintal de sua casa, seu templo. Para um vegan, divino é uma cenoura crua, fresquinha, e assim por diante.
     
 Tem as três mais antigas  religiões do mundo e um montão de derivadas, paralelas, adjacentes, equivalentes ou congruentes. Tem religião que se religa cantando, ou rezando quieto de olhos fechados. De joelhos com terço na mão repetindo as orações decoradas. Tomando chazinho de mato no meio da floresta. Algumas preferem religar  ao som de batuque bem alto, canto, música, chocalho, incenso, saia rodada, coreografia, comida. Muita festa, charuto. Outras ficam em silêncio por horas. Recitam milhões de vezes  mantra “nam yoho rengue kyo”, “om mani padime hum”, somente "ohm", entre outros representantes do som do universo, ou do som da voz de Deus. Tem gente que conversa com Deus como se fosse um analista. Outros como se ele fosse um pai culpado de tudo isso, e se implora clemência a ele. É como se o indivíduo exigisse seus direitos : “ora meu Deus! Faça-me o favor! O Sr. me botou nessa, agora me ajude, ok?”

 No Brasil podemos ver várias formas de se religar convivendo.  Religiões aqui é quase uma modalidade. Não parece que seja um grande problema as tantas diferenças. Embora o deputado Feliciano Filho do Partido Verde esteja tendo problemas com o Candomblé.  É que desde o começo do ano ele está tentando aprovar a lei que proíbe o sacrifício de animais em rituais religiosos. A lei prevê multa de até 5 mil reais para quem botar galinha assassinada em alguma encruzilhada.  A lei não proíbe o assassinato do perú de Natal. Pois serve para alimentar o corpo físico do católico e não para agradar a nenhum Exu. Ou qualquer que seja o  orixá precisado do "trabaio". A Umbanda que é mistura de Candomblé com Jesus Cristo e outros santos católicos, não se manifestou. Mandar perfumes para Yemanjá continua liberado. A morte das plantas de Alfazema não altera a sustentabilidade ambiental restabelecida na Rio mais 20.  O bom cheiro do perfume é até bem vindo. Quem não deve curtir muito o ritual são os garis da praia, que limpam toda a devolução de presentes que fazem de oferenda á Santa. É bom para o mercado interno que Yemanjá prefira Alfazema. Como rainha do mar, ela já deve ter conhecido outras fragrâncias, como a Verbena Chilena, ou os aromas de Capri, porém permanece fiel a erva brasileira. Conservadora, ela também continua receitando as mesmas “ervas de corte” aos seus filhos se protegerem, há tempos.

 Religião sempre se misturou com política?  O Oriente Médio que o diga.  Vi no jornal há poucos dias : " Os católicos apoiam o ditador da Síria". Talvez porque queiram ver a Síria transformada no grande templo deles?

  Se me oferecessem, quando eu comecei a votar aos 16 anos, uma merenda de bolo de chocolate na escola pública que estudei, no lugar daquelas malditas bolachas de maisena murcha, com café ruim e leite em pó, ou macarrão parafuso com salsicha, é capaz que eu tivesse sim repensado meu voto. Iria aprender matemática conectada ao que me conecta ao divino: chocolate. Servido no intervalo. Provavelmente teria sido uma aluna e pessoa melhor em sala de aula. Um ser humano melhor.    Oque é bom pra mim seria bom pra todos ao meu redor. Afinal, com a alma aquietada pelo chocolate de qualidade (meu fator religante que me traz paz) não teria feito tanto bulling em meus coleguinhas. Teria sido uma adolescente menos revoltada, portanto instrumento de Deus e mais útil a sociedade que eu fazia parte. Aliás é por isso mesmo que na guerra os soldados comiam mal. Se comessem bem, não guerreavam direito. É mais ou menos por isso que religião e política sempre se precisaram.

  Falando em adolescência, como não mencionar a MC Carol!  Ficou famosa como a "menina pastora". Diva do You Tube.  Aos 5 aninhos ela proclamava: “É maravilhoso!  Conselheiro!”. Mais de um milhão de views. A menina cresceu e continua crente da Assembléia de Deus (não a que  estuda a lei de Feliciano) e recebe uma porcentagem do Google pela obra. Que é hilária. Me diverti mais com a menina pastora e seus funks, do que com muita cena de comédia em teatro por aí. Convincente, sabe? E fofinha, como toda criança, cheia de graça.

 Existe hoje uma outra menina pastora, árabe, chama-se Lara.  Ensinaram a menina que os inimigos roubaram os pais dela, os avós, e que todos os israelenses são do mal. Ela tem um programa de TV e fica dizendo isso nele. Lembra a pequena Maysa do SBT: um estouro! Lara está famosa por lá. Está em todos os jornais e responde a processos onde é acusada de incitar o ódio entre as religiões. 

A Universal do Reino de Deus, que também é crente, mas com uma maior super produção, está construindo lá no Brás, um templo. Tão grande quanto o da João Dias.   Não paga imposto porque é instituição religiosa. Belo negócio.  Quanto deverá custar aquele... monumento  arquitetônico? É uma espécie de  arco do Triunfo da França somado a umas colunas romanas. Um gosto que até Deus duvida. Pega dois quarteirões. É gigantesca. Eles gritam com muita fé, dizendo que tudo é em nome de Jesus. Mas Jesus não era humilde e sem posses? Pois é tudo no nome do Homem, mas no papel material empestado a um nome de algum outro homem. Que provavelmente ficou e ficará cada vez mais rico com aquele empreendimento. 

Dizem que a Universal disputa a tapas fiéis com a igreja Mundial. Mesmo estilo de show, apresentação, só que um pouco mais "dark". Alguém deveria sugerir uma aliança. Um monopólio: a Intergaláctica de Deus?

 E falando das bandas fora deste planeta como não mencionar o mais "templo que é dinheiro" da moda em Hollywood, a Cientologia. Igreja de Tom Cruise, Jhon Travolta e outros “american famous”. Acostumados a roteiros de cinema, os astros adotaram como bíblia, um livro de ficção científica. Que pode até ser verdade. Eu não duvido. Não duvido mesmo. Sugere que somos assim insatisfeitos, porque estamos na Terra exilados. O kardecismo já falou algo parecido em um de seus estudos, mas de forma diferente. A cientologia diz que vivíamos longe daqui, em um lugar onde éramos felizes. Tivemos um problema político com um ET líder deste lugar, que achou que não merecíamos ficar lá.  Nos trouxeram pra cá. Aí começamos a ter descendentes com os animais. Darwin já haveria começado a sacar essa teoria. E como ainda lembramos vagamente do que aconteceu, nunca estamos felizes.  Ficamos o tempo todo tentando lembrar de onde viemos e para onde vamos, pois queremos voltar pra casa. Super interessante!

 Pra finalizar, já ouvi muita gente dizer "minha religião é o teatro”. A minha é espírita, mas é o teatro também. É o cinema. É um livro, um poema, uma flor, uma onda no mar. Ou uma igreja belíssima, fechada com vitrais coloridos. Uma torta de espinafre. Uma tarde de sol com hare-krishnas comendo maçã com canela ao som de mantras. Sería legal experimentarmos todas! Sem sermos fanáticos com nenhuma. Qualquer religião pode de determinada forma, fazer bem a determinado alguém, por um determinado tempo. O ritual, a experiência. Seria um bom começo para respeitarmos mais as diferenças. Fanatismo embora lucrativo, não faz bem em tempo algum. Como ir ao teatro ou ao cinema. Tem dias que quero ver Brecht outro dia cinema americano, outro dia ir a uma quadrilha de festa junina. Um pouco de cada. Na época certa. Sem fanatismo.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Uma história de amor impossível


Era uma vez uma girafa que se apaixonou perdidamente por uma cebola do Japão.
Como ela é muito pescoçuda, um dia desceu das nuvens para copa das árvores, depois para um raminho verde que... ops! Eram os cabelos espetados da cebola. Começaram a conversar como amigos seres vivos que eram, e já se apaixonando concluíram que o amor deles era impossível! Pois além de cebola e japonesa, ainda estava plantada na terra, e nas terras do Japão.

  A girafa era africana, elegante, muito bonita, cercada de animais exóticos das savanas.
 A cebola tinha amigos subterrâneos cenouras cheias de betacaroteno, salsão, batatas e algumas minhocas que passavam de vez em quando.

Quando a girafa e a cebola resolveram se unir, sempre foi sem compromisso, foi no começo apenas para conhecer um mundo um do outro.
A cebola adorava as histórias da girafa sobre a copa das árvores e as nuvens de algodão doce que ela comia.

A girafa achava interessantíssimo que pudesse em contrapartida, existir tanta vida, histórias e sais minerais debaixo de seus pés de girafa, ela antes não fazía idéia do mundo subterrâneo de uma cebola. Começava a fazer...  cada vez mais.
  A girafa ficou viciada na cebola e na maneira como ela fazía seus olhos arderem. Gostava tanto que com o tempo acabou deixando até mesmo de comer nuvens de algodão, para experimentar as exóticas minhocas aceboladas que seu amor fazía pra você.
E assim, o tempo se passava e eles juntos. Um ludibriava o outro com informações vindas de seus diferentes mundos.
 Aconteceu que num belo dia de sol, e a girafa adorava dias de bastante sol, a cebola começou a reclamar do calor dizendo que estava praticamente evaporando. Tentou ficar na sombra e acompanhar a girafa mas estava muito irritado. A cebola começou a ficar roxa de ciúmes da girafa. E ela só estava esticando o pescoço no sol como sempre fez. É que mesmo enfiando a cabeça e o pescoço dentro da toca da cebola, ela ainda era, UMA GIRAFA! Vinda de uma savana da África! E a cebola não se conformava com isso. Queria transformar a girafa num tomate bem vermelho para que juntos fossem um só vinagrete...
  A cebola dizia pra girafa que ela era muito arrogante por não gostar da idéia de ser tomate. Dizia que isso provava que ela não a amava, e que só estava se aproveitando da cebola que fazía seus olhos arderem até chorarem lágrimas de crocodilo. Muito, extremamente, fortemente ofendida e desafiada com a afirmação a girafinha ficou mal. Mas amava muito ele e tentou perdoar e pensou que tinha que fazer alguma coisa. Foi então até um macaco-tigre feiticeiro pedir para transformá-la em um tomate de uma vez por todas e acabar logo com isso. Ou a cebola num elefante, sería mais viável? – indagava.  O macaco tirgre olhou para girafinha, sábio que era, suspirou e disse que isso não sería possível. Pois a natureza de cada um era muito diferente. Bichos exóticos e tubérculos são muito diferentes mesmo, e se houvesse o feitiço de transformação, em muito pouco tempo um dos dois iria morrer!!! E o sofrimento podería ser muito maior.
   Ele explicou que a girafa não aguentaria o clima frio e calculista do Japão, as cebolas são muito bem vindas em muitos lugares, restaurantes chiques das grandes cidades, viajam de navio quando são exportadas, rolam pelo convés. Enquanto que as girafas só são verdadeiramente aceitas em seu habitat.  Por aqueles que como ela, são exóticos, vindos de savanas .

  A girafa saiu inconformada.  Aprendera nas savanas que na natureza o amor quase sempre vencia! Ela precisava de uma idéia. Lembrou do circo. E se eles fossem para o circo? Esta podería ser uma solução! Circo é um lugar onde tudo é possível !
Então eles tentaram vários circos. O chinês, o russo, o cigano, mas toda vez que a girafa entrava em cena a cebola ficava roxa de ciúmes de novo e voltava revoltada as idéias malucas de tomate e vinagrete que massacravam a girafete...

De tão triste e deprimida um dia a girafa estava tão mal, que caiu toda desengonçada do palco, bateu a cabeça no picadeiro e morre.
Nessa mesma hora, na cozinha do circo que estavam, o cozinheiro pegou a cebola e disse a era hoje é seu grande dia! "Vais virar vinagrete!"- disse o cozinheiro. Toda feliz, a cebola pensou enfim que a girafa havia finalmente sucumbido e se transformado num tomate! Provavelmente pelo mágico do circo, pensou. A empolgação da cebola foi logo cortada. Ele sentiu a faca afiada do cozinheiro separar seu corpo de cebola todo em pedacinhos, e realizar seu desejo, uni-lo com o tomate... Que era um tomate e não a girafa.

Como a girafa era novinha aproveitaram a carne dela.  Serviram carne de girafa a vinagrete.

Em vez de morrer na savana sob o sol, ela morreu assim. Sozinha e a vinagrete.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Doce!


   Tarde fria, porém ensolarada e de silêncio na bluehouse. Este é o nome que dou a casa da minha mãe.  Quando eu era pequena pedi pra ela mudar a cor da casa para um azul Frida Kahlo. Ela atendeu meu pedido e gostou tanto que nunca mais mudou a cor da casa. Batizei de bluehouse, e o nome pegou para sempre. O Silêncio é rompido por um carro que toca a música da Xuxa: "doce , doce, a vida é um doce, vida é mel, que escorre na boca, pedaço do céu", seguido do anúncio em alto som pela gravação da voz do vendedor motorizado: "Olha o doce! Olha o carro do doce! É doce de abóbora, doce de leite, doce de amendoim, tem doce de aniz, tem doce de côco, doce de morango, doce! Tudo quanto é tipo de doce, pode chegar freguesa!". Antigamente era o vendedor de pamonnha. Com voz do interior. Mais precisamente de Pindamonhangaba. Eram pamonhas fresquinhas. O puro creme do milho verde. “Venham provar minha senhora, é uma delícia! Pamonhas, pamonhas, pamonhas”. Este de doce que passou hoje, é bem mais rápido na locução. Parece um narrador de futebol dizendo um montão de tipos de doce, seguido da música da Xuxa.

 Saio na varanda e vejo o carro cercado de crianças. Fiquei imaginando esse carro na Marcha da Maconha. Estaria cercado de marmanjos com baixa glicose no sangue. Pensei também neste carro aparecendo numa rave, como as do filme "Paraísos Artificiais" anunciando "Doce! Doce de todos os tipos! A vida é um doce!". 

   Hoje eu filmei com uma criança. Trabalhou direitinho: texto decorado, sensibilidade, percepção, um ator profissional. Tive uma aula de I-phone com o moleque. Vem aí uma nova geração fantástica. Uma nova era, com novas questões.  As básicas ainda devem ser entendidas e resolvidas, como os direitos humanos e as novas também, como os crimes digitais.

Televisão e internet tem exibido uma animação muito bem feita contra o abuso na infância nas últimas semanas.  Estava vendo tv e aparece a chamada de Globo Repórter que anuncia: não percam hoje "Inventores Brasileiros e suas  invenções geniais", onde mostrava um rapaz mostrando a "mão biônica"!  Gente, a cena do inventor daquilo me lembrou o Fred Kruguer. O grande vilão da minha infância. Não devia ter assistido os filmes dele. Mas eu vi. E morria de medo de dormir por causa deste personagem. Não só porque ele entrava nos sonhos das pessoas transformando em pesadelo, mas também por causa daquelas malditas musiquinhas com meninas pulando corda. Apavorantes.  Crianças são muito usadas em filmes de terror. Vários.

 E as canções de ninar brasileiras?   A mais famosa de todas: "Nana neném que a Cuca vem pegar, papai foi pra roça mamãe foi trabalhar...". Ou seja, deixaram a criança sozinha, a mercê de Cuca, monstro horrendo e malvado.  E continua o terrorismo: "Bicho Papão sai de cima do telhado, deixa o neném dormir sossegado". O leitor conseguiria dormir com um pedido desse? O Boi da Cara Preta, pega a menina que tem medo de careta. Qual menina que não tinha medo de careta, gente? Até eu tenho! Que maldade... Querem que "Sambalêlê" que "tá doente" dance com a cabeça quebrada. Entre outras canções criadas para que os pequenos se comportassem através do medo.

 Trabalhei com teatro folclórico por um bom tempo, e sei que no norte e nordeste brasileiro tem músicas lindíssimas, ideais para crianças. Falam dos bichinhos, plantas, da natureza e da vida no campo. Mas são pouco divulgadas, infelizmente. O universo infantil me encanta, tenho livros, filmes, adoro animação, sou assinante de Cartoon, Nick, fã da TV Cultura.

 Continuo vendo o mesmo canal de TV que agora anuncia entrevista exclusiva com a Xuxa. Ela diz ter sido pedida em casamento pelo Michael Jackson, foi apaixonada por Pelé, mas seu grande amor na vida foi Ayrton Senna. Ela confessa ter sido abusada até os 13 anos de idade. E que ajuda crianças que são vítimas como ela foi. Me lembro dela apresentando o “Xou da Xuxa”, com roupas curtíssimas, super sensuais. Só lembro, não digo nada, mas pergunto, era aquele programa, educativo ao público infantil?

 Até hoje na Europa ainda não existem bons programas para criança, nos EUA esta preocupação é um pouco maior. Mas e os de hoje, que Xuxa apresenta, são ideais para a formação dos pequenos?

 Penso que assim como os crimes de internet devem receber a devida atenção, também o conteúdo para crianças em todas as mídias, principalmente na internet,  precisa ser muito bem pensados.  Educadores, pais, especialistas, todos devem falar, expor essas questões todas, para definir como irá se desenvolver tudo isso da melhor forma possível na chegada era da informação.  Como este texto, humilde tentativa. Como fez a Xuxa que quebrou seu silêncio em rede nacional. Agora sim dá pra entender porque ela deixou de evoluir profissionalmente, quando brigou com a empresária Marlene Matos, porque simplesmente não queria parar de fazer programa infantil. Não quis evoluir com seu público para programa adolescente, muito menos adulto. Ela queria se vestir de fada, e de duende. Queria brincar. Ter a infância que não teve. Provando, ao quebrar o seu silêncio, que infância é importante e muito. Pra vida inteira. E falar as verdades todas também. Viva a quebra de silêncios.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O moderno trem subterrâneo

  Senhoras e senhores, olá!  Hoje é o dia de minha estréia no Angu! Aqui farei argumentos crônicos, sobre nossa cidade querida e extraordinária São Paulo. E outras "cocitas más".


 Oque não vai faltar aqui é assunto.  Tratando-se de São Paulo, assuntos extraordinários!  Hoje por exêmplo, dois trens do metrô na linha vermelha se chocaram de frente! Ferindo onze pessoas e atrasando inúmeras outras. Chocando a nós que recebemos esta notícia. Se bem que uma vez um helicóptero pousou de baixo da ponte Eusébio Matoso, bem no horário do rush, entre outras coisas malucas que só acontecem em Sampa Babylon City. Deixo pra me apresentar melhor numa outra crônica.
  Eu já ía mesmo falar de metrô, estava na dúvida se estreava com este assunto ou não, mas com uma notícia dessas, decidido está.
 O metrô é o futuro. É oque pode salvar nosso problema de locomoção. Especialmente quando não se chocam de frente. Um trem que passa de baixo da terra! Quer coisa mais moderna?  Dificilmente atrasa, não pega trânsito, e mesmo que lote as vezes, não é tão cheio de problemas como o ônibus. É uma das boas soluções que inventaram para cidades modernas.
  Este ano começou a funcionar a linha amarela de metrô em São Paulo. Liga o Butantã á Luz. Este acontecimento foi tão esperado, uma urgência que precisava acontecer. E ainda há muitas linhas a inaugurar, e precisa fazer mais metrô! São Paulo é grande e super lotada.   Ouvi dizer que nosso sub-solo é muito rochoso, por isso foi tanta a demora de algo tão necessário. As máquinas furadoras alemãs demoram mais tempo para perfurar nossas duras rochas, atrasando as obras. Será?
 Mas agora que ficou pronta a parte que eu utilizo, que glória! Chego rapidinho a Paulista! Nunca choquei com nenhum outro trem. Pena que não tem mais o cinema Belas Artes. Desceria na estação Paulista que tem saída para a Consolação e estaria no cinema rapidinho. Curioso: a estação Paulista tem saída na rua da Consolação e a estação Consolação tem saída na Avenida Paulista. Coisas da vida. E de nossa descendência portuguesa?
 Mas o túnel que une a linha amarela a verde, que me leva do meu metrô que sai do Butantã atá a avenida mais importante da cidade, é o motivo desta crônica. Trata-se de um grande corredor, que faz uma curva e traz um segundo corredor que ao seu final tem escadas rolantes. Publicidades dos dois lados. Ouve-se a cavalaria das pessoas marchando aonde irá dar em escadas rolantes. Estas terminam em catracas enfeites (pois não servem para nada somente foram colocadas ali) e então chega a parte mais épica do caminho da roça para a civilização. Uma super rampa túnel do futuro, com esteiras rolantes.   Duas que sobem e duas que descem. Sendo três eletrônicas, e uma no meio para caminhar. O teto é um arco. 
 O povo não acostumado a isso estaciona nessa esteira, nos obrigando  a parar de andar no caminho, para apreciar a parede. Cronometrei o tempo que leva. São quase 5 minutos só neste trecho. O percurso toda dá uns 10.
 Toda esta parede, do lado direito e do lado esquerdo tem mais publicidade. Enorme.  Parecem duas gigantescas telas de cinema.   Uma vez estava até engraçado, do lado esquerdo um anúncio enorme do filme “Fúria de Titãs” cheio de monstros mitológicos sanguinários, imagens gigantes e amedrontadoras. E do outro lado o direito, os cabelos de Rapunzel  anunciando o filme animação “Enrolados”.
 Mudaram agora para publicidade de telefonia. De uma lado a internet Claro com uma foto gigante de Ronaldo fenômeno e Neymar jogando videogame on-line. E do lado esquerdo  para internet de Vivo, simplesmente a imagem de Pelé. Neymar ou Pelé, Claro ou Vivo? Cinco minutos inteiros para pensar nisso.
O prefeito havia proibido publicidade em out-door na cidade porque a sujava e também porque distraia os motoristas. Gente, as paredes deste túnel são como duas telas de cinema colocadas uma do lado da outra, totalizariam quatro. Dá até tontura passar ali e ver aquilo andando na esteira. Fora as outras dos corredores.
Uma cidade para desenvolver-se tem que desenvolver seu meio de transporte em especial o público. E a vida sub-terrânea de Sampa aumenta mais um pouquinho. Deve aumentar muito mais. Tem que educar o povo a usar direito, urgente. Ao sair de um trem para o outro lado onde se pode caminhar, é impossível atravessar a multidão que vai para a outra plataforma. E até difícil de explicar aqui, como funciona. É um caos. Um caos que pára na esteira rolante, para ver Pelé, Neymar, Ronaldo. E vamos caminhando. Passinhos curtinhos até chegar lá! Eu ía dar umas sugestões aqui, de organização e educação, mas depois que dois trens se chocaram de frente, deixe isso pra lá hoje e outro dia falo mais de metrô!