Eu estava sentada no chão do Sesc Vila Mariana lendo Mafalda. Fui lá atrás desta exposição de quadrinhos. Tinha Calvin e Snoopy também. Cheguei achando que haveria quadros expostos, com a história destes personagens e seus criadores. Nada disso. Só uma mesa com os gibis e livros de quadrinhos para ler. Ok! Sentei-me ao chão e escolhi um. Lendo uma historinha da Mafalda, que se passa nos anos sessenta, tocava o telefone, dentro da história. No mesmo instante, tocou um telefone na área da exposição também. E o som que tocou na sala era justamente de telefone antigo.
Existe todo tipo de toques de telefone possíveis e imagináveis. Tem gente que grava a voz com o nome da pessoa e quando ela liga, ouve-se a voz do indivíduo: “Oi fulano atende o telefone, preciso falar com você”. Mães malucas colocam o choro de seus bebês pra quando liga a babá da criança. Namorados grudentos gravam a voz da namorada dizendo: ”Amorequinhooo! Atende vai, sua chuchuquinha quer falar com você.” Um outro muito comum é escolher o tema do Dart Vader de “Guerra nas Estrelas” para quando liga o chefe. Um funk carioca bem sujo quando liga uma periguete e assim por diante. Com a invenção da bina a ansiedade que demonstra o trecho da música que abre esta crônica tornou-se inviável. Sempre sabemos quem é quando toca o telefone. No entanto também sabemos que a pessoa sabe que ligamos. Pois ela também tem bina. Há aplicativos do I-phone que é possível saber que a pessoa recebeu, e a que horas leu a sua mensagem. Ou seja não se fica mais ansioso se leu ou não . A ansiedade tornou-se: por que diabos ainda não respondeu?
Todavia nós paulistanos temos experimentado a sensação de não saber quem está ligando. Muita gente perdeu os contatos em seus telefones desde a mudança da Anatel de botar o número 9 na frente de todos os números de telefone de celular. O número permanece o mesmo, porém com um “9” na frente. O que causou a desprogramação da bina. O que causou desconforto a uma população acostumada a sempre saber quem está ligando. O telefone toca na festa, maior barulho, vem a tentação: atender ou não? Quem será? O que vai pensar? O que vou dizer a esta pessoa qiue liga e não sei quem é?! Há tempos não se sentia mais essa dúvida.
Eu adoro atender o orelhão quando ele toca. Acho genial falar com a pessoa desconhecida no outro lado da linha. Triiiiimm!
- Alô?
- Olá, quem fala?
- Alguém na avenida Paulista num telefone fantasiado de massa encefálica.
- Como você chama?
- Sirleide, pra você. – tinha lido o nome e telefone da travesti, grudado no aparelho telefônico público.
- Ah, tá. Tudo bem Sirleide?
-Tudo.
- Tá muito trânsito aí na Paulista?
- Deixa eu dar uma olhadinha. Olha, sentido Paraíso tá meio travado, o consolo é o sentido Consolação que tá fluindo melhor.
- Tá. Entendi. Então o Zé já deve ter chegado no trabalho. Você pode chamar ele pra mim Sirleide?
- Chamar quem? O Zé?
- É. Ele tá trabalhando, fala que é rapidinho, preciso dar um recado a ele, sou a mulher dele.
-Mas aonde ele trabalha?
- Aí na Paulista?
- Ah vá?
- Na banca de jornal na frente do prédio do Sesi, Fiesp não sei direito , é aquele prédio que parece um triângulo de lado.
- Hummm... É meu caminho, vou passar por ali agora. Pode deixar que eu aviso “seu” Zé. É pra ele vir aqui atender?
-Isso. Eu espero.
- Ok, sem problemas.
- Muito obrigada Sirleide! Você é uma graça!
-De nada. Dona?
- Maria. Mulher do Zé.
- Maria mulher do Zé, nada mais justo. Bom dia pra senhora, vou lá avisar seu marido. E olhe, se vier pra cá traz guarda-chuva que tá vindo umas nuvens lá dos lados do centro pra cá, viu? Adeus.
Estão revitalizando os telefones públicos do país. Estou amando a idéia. Deve ser para consigam se comunicar o montão de gringos que virão pra cá na Copa e nas Olimpíadas. Imagine se um gringo precisar ligar do orelhão para alguém? Vai precisar de um limpo. Agora estão limpos e decorados. A cidade está cheia orelhões artísticos. E você ainda continua tendo a opção de contratar um artista travesti, caso queira. Tem lá a propaganda deles com os telefones de contato direto. Não é disk-sexo. É o telefone pessoal deles (ou delas) mesmo.
Tem-se hoje em dia, no mínimo um celular por pessoa. Porém para aproveitar as promoções das operadoras, muita gente tem mais de um. Um pra cada operadora. Pergunta-se o telefone da pessoa em seguida qual é a operadora dela. A Anatel proibiu a venda de novos chips e celulares de todas as operadores de celular do país. Decisão tomada pelo fato de elas prometerem tudo e não cumprirem o mínimo: sinal telefônico!
No Brasil se pode fazer chamadas a cobrar! É o único lugar do mundo, acho. Ainda não soube de nenhum outro lugar que exista esta opção. A gravação diz: “Chamada a cobrar: continue na linha após a identificação.” Aí você aceita, porque a gravação mandou. Assim você fala com o desprovido de recursos (grana, crédito, etc) para ligar. O desprovido que precisou fazer a chamada a cobrar, por sua vez escuta: “Chamada a cobrar: diga seu nome e a cidade de onde está falando!”. Livia Prestes, São Paulo –SP Brasil! Subtexto: não desligue, por favor, sou pobre mas é importante! Preciso falar!
O telefone fixo caiu praticamente em desuso. Mas curiosamente é utilizado para as ligações de 0800, somente. Não entendo o por quê disso, mas só é possível realizar uma ligação gratuita, que comece a 0800, de casa. Do telefone fixo. Por que? Não faço idéia, mas do celular, a ligação nem sequer é completada.
E para quê ligar para um 0800? Ou qualquer número de informações, telemarketing, cadastro, serviços. Olha, este drama infelizmente faz parte da vida de todos nós. Uma hora ou outra você vai ter ligar nesses serviços para resolver algum pepino. Faça um alongamento antes, tome um pouco de água com açúcar já pra garantir, faça uma oração de paz e paciência e boa sorte. Ligue. Ela vai atender. Vai botar uma musiquinha para que você aguarde sua vez. O atendimento vai começar eletrônico. Você vai discar vários códigos no intuito de adiantar a explicação do seu problema. Enfim atenderá uma operadora de telemarketing treinada para te acalmar e te ajudar a resolver o problema. Ela confirmará todos os seus dados que você já havia digitado antes no atendimento eletrônico. Vai recitar um texto decorado, dizer o nome dela e em que ela pode ajudar? Tenho a impressão de que todas elas estão lixando as unhas enquanto falam comigo. Ela dirá: “Senhora? Senhora!”. Mil vezes. Depois de você explicar seu problema pelo menos umas três ou quatro vezes para que ela entenda. Então ela vai dizer: “Não se preocupe senhora, vou estar passando a sua ligação para um outro departamento, onde a senhora estará falando com uma outra atendente, que estará resolvendo tudinho pra senhora, que estará ficando feliz e satisfeita, para depois a senhora estar participando da nossa pesquisa de qualidade de atendimento, tudo bem senhora? A senhora entendeu?”. “Sim senhora.” respondo. Musiquinha de espera de novo.
Hoje em dia as pessoa não pedem mais telefone para paquerar. Pedem o “face”. Assim já realizam uma pequena pesquisa sobre a pessoa antes. Não é preciso conversar. Em vez de acreditar nas mentiras que a pessoa diz, você se arrisca acreditando nas mentiras que a pessoa posta no “face”. No espetáculo de Improvisação que estou fazendo, quase toda noite a platéia dá facebook, conexão na internet e telefone, de tema. No início do século passado, comemoravam o encurtamento de distâncias e as novas facilidades de comunicação. No início deste está acontecendo a mesma revolução. São tantas as novidades para se comunicar. Tantas as promoções, está mais fácil viajar. Me pergunto se essas tecnologias todas aproximam ou afastam mais ainda as pessoas.
Antigamente, na época da Mafalda, os pais iam ao cinema e deixavam o telefone da bilheteria com a criança, ou a babá. Caso acontecesse alguma coisa, haveria primeiro de se falar com a bilheteira, que deste modo, saberia o nome do filho do casal, conheceria a família deles. A bilheteira encontraria o senhor e senhora X no cinema, e passaria a ligação a eles. Para poder falar com os pais, o filho teve de ser educado e comunicativo com a bilheteira. Explicou pra ela a situação. Depois de falarem com o filho pelo telefone do cinema, os pais agradeceriam a bilheteira antes de ir embora. Outros tempos. Tinha-se um telefone por restaurante, um por boteco, um aparelho para o povo de um cinema inteiro. Hoje pede-se pelo amor de Deus para desligarem os celulares antes do filme e mesmo assim ninguém consegue. Novos tempos.
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