sábado, 4 de agosto de 2012

O carro na frente dos bois




  Estava atravessando na faixa de pedestres, o sinal estava verde para mim. Havia uma outra pessoa na minha frente, que fazia o mesmo: atravessava.  A mulher que dirigia, tinha os cabelos loiros e bem curtos.  Um nariz empinado, olhos verdes, um blazer bem bonito. Um brincão gigante na orelha e um carrão grande, alto e branco. A postura (e figurino) em que dirigia lhe parecia estar num filme de ação ou ficção científica. No entanto ela esperou para que o pedestre passasse no maior drama! Com aquele farol alto aceso forte na nossa cara e uma cara de brava e apressada.  Como se ela fosse uma super executiva, mega importante, e nós reles infortúnios, ousávamos estar em seu caminho. Ela suspirou fundo e passou acelerando na minha frente, como se tivesse feito um grande favor ao pedestre em parar pra ele passar. E me ignorar. Um reles pedestre, ok, mas esperar passarem dois, já estaríamos abusando da sua paciência. Ela deve ter pensado: “cidadania tem limite!”. Como se ela fosse melhor ou mais importante por causa daquele enorme carrão. Carrão. Tem uma estação de metrô e um bairro paulistano com esse nome. Uma homenagem profética?
Poucos carros são simpáticos. Poucos motoristas também.

   Na esquina seguinte, um outro carro, que estava na esquerda, deu seta intencionando  ir para direita, para fazer uma curva. Deram passagem a ele.  Mas buzinaram tanto para este homem.  Mas tanto.  Eu entendo que na cabeça de seus opressores, ele devia ter mantido a preferencial já que desejava fazer a tal curva. Mas gente, buzinaram, xingaram e saíram cantando pneu! É muito agressiva a tonalidade das buzinas dos carros. Você sai triste, ofendido, se sentindo um idiota. Ou é só muito pentelha mesmo. Na maioria da vezes uma buzinada é pior que um xingamento!  Deveriam inventar uma buzina mais amigável? Que igualmente chamasse a atenção, mas que não fosse tão alta, imponente, poluidora, imperativa. Talvez uma musiquinha mais suave?

   O trânsito de São Paulo parece uma selva.  Agora com o fim das férias, se iniciará o que eu chamo de o próprio inferno. Uma selva de carros pretos e prata, sem fim.  Por que será que não há carros cor de rosa? Amarelo com bolinhas? Ou cores mais leves relaxantes, tipo um verdinho d’agua. De vez em quando aparece um vermelho. No momento “a cara do verão” são os carros brancos, altos e grandes. Tem um ar de serem mais caros e não são confundidos com os taxis de Sampa porque são de design imponente, que os diferencia.  São tão altos, e com rodas enormes, feito as de tratores. Parecem projetados para passarem em cima de qualquer coisa. Ou qualquer pessoa.  Eu duvido que quem comprou este carro tenha feito rally na vida ou uma trilha sequer. Foi comprado com o intuito de assustar mesmo. Um investimento? Um “up”no social de seu dono. Muito mais que somente um automóvel.

  O design destes carros é pensado para impor, assustar. Compare as lanternas a dois olhos humanos.  Parecem muito a um par de olhos nervosos! Sanguinários! Quase os “transformers” do cinema. Já repararam a voz dos locutores nos comerciais de carro? Aquela voz de demolidor! Superior. “O melhor e mais robusto da categoria.”  E que categoria.
  Gente, carro é só um objeto de locomoção, poxa! Objeto que seduz por aumentar a velocidade na liberdade de ir e vir, da qual prezamos tanto.  Porém, ao ser escravo do trânsito, automaticamente se perde essa liberdade.

 Não coloquemos o carro na frente dos bois, quando o boi é o mais importante.
Me sinto muitas vezes culpada de usar carro sozinha, sobram quatro lugares vagos! Antiecológico. Quanto pesa um só carro? Quanto gasta para  levar somente a mim que peso 60 quilinhos?  Me aflige ver tanto espaço inutilizado. Poderia levar uma família inteira guaxinins para passear. E mais quilos de castanhas no porta-malas. Poderia levar alguém ao trabalho, aliviando os ônibus lotados. Talvez alguém muito legal na rua esteja indo na mesma direção que eu e poderia estar vindo comigo, ouvindo o mesmo programa de rádio, dando umas opiniões. Despoluindo o planeta, e ainda, se não se enjoasse em movimento, lendo o jornal para mim.
  
  Tanto trânsito enfileirado. A locutora disse na rádio:  “as férias em São Paulo estão dando um sossego danado pra nós paulistanos. Neste momento a CET registra somente 48 kilometros de lentidão, um recorde de tranqüilidade que há tempos não tínhamos!”. Parece piada , eu sei, mas ela disse isso com a maior alegria.   Como quem diz : “saiam de carro a cidade está livre!”. Gente , 48 kilômetros é a costa inteira da Eslovênia! Não se preocupem , com a volta as aulas voltaremos a fazer a marca de engarrafamento do tamanho da costa do Brasil. Desisto de ter filhos só de pensar nas filas de carro na porta das escolas. Queria poder levá-lo a pé. Eu acho que chique mesmo, seria viver perto de casa e ir ao trabalho a pé.  Agora que o IPI baixou mais ainda, as pessoas estão comprando carros que combinem com o visual da estação.

   Imagine se as cores dos carros fossem divididas por profissão, saberíamos quem são essas tantas pessoas que vão se afileirar sozinhas em suas naves hermeticamente projetadas para a solidão. Por que tudo preto e prata? Por que é mais fácil de vender depois. Cor neutra. Acinzenta mais ainda a cidade.

  Calma, eu acho carro uma ótima invenção. Uma das melhores versões da roda.  Difícil é entender o significado que dão a ele. Para trabalhar todos os dias em uma cidade grande não seria melhor investir em transporte coletivo? Usaria-se o carro no final de semana, pra sair da cidade, fazer compras grandes, mas todo dia?  Usar carro todo dia, para tudo, é um costume muito nada a ver. Por que não adaptar a cidade a outras versões da roda como a bicicleta, o patinete, os patins, o triciclo, o carrinho de rolimã para as ladeiras.

  O prefeito Kassab aprovou projeto que transformará o subterrâneo do centro da cidade, ali em toda região da praça da Sé, num mega estacionamento gigantão. Das cidades que eu conheci as que usam transporte coletivo e investem cada ano mais neles, são as mais chiques.  Acho péssimo esse louvor exagerado ao ter seu “carro próprio”, que diabos isso significa? Já que amamos tanto carro assim, poderíamos dar e pegar mais carona.  Andar de taxi, bonde, aerotrem. Reparar nos acontecimentos, no movimento, talvez ler alguma coisa no banco de trás e ter uma boa idéia. Dirigir não possibilita a riqueza que é poder ir a pé, ou de transporte público. Bem mais chique. Mais enriquecedor, mil vezes mais que atropelar tudo e todos, sozinho ouvindo som alto, se escondendo da CET pra atender o celular. Vence o mais alto, mais bravo e mais barulhento. É uma nervosa, rápida e ao mesmo tempo lenta competição!  Em época de olimpíadas: que vença o maior? Mais caro e mais antipático!

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