quarta-feira, 4 de julho de 2012

Templo é dinheiro




  Religião vem do termo religare, em latim. Significa o modo de conectar-se ao que é divino. Templo é o lugar pra se fazer isso. É um ambiente material, custa dinheiro. Não só a estrutura, mas todo seu marketing e divulgação. As igrejas disputam público com os teatros, bares e academias. Afinal é possível religar-se com arte, gastronomia, literatura, ioga, corrida...

Pra mim, nada mais é tão divino quanto um determinado bolo de chocolate com recheio e cobertura, acompanhado de um cafezinho amargo. O templo para isso seria uma doceria. Me conecta com o infinito. Divino para Carlos Aparecido pode ser um doce de cupuaçu, templo: frutaria. E para  Carla Aparecida, o divino nem doce é. Pode ser um churrascão com cerveja num domingo de sol. No quintal de sua casa, seu templo. Para um vegan, divino é uma cenoura crua, fresquinha, e assim por diante.
     
 Tem as três mais antigas  religiões do mundo e um montão de derivadas, paralelas, adjacentes, equivalentes ou congruentes. Tem religião que se religa cantando, ou rezando quieto de olhos fechados. De joelhos com terço na mão repetindo as orações decoradas. Tomando chazinho de mato no meio da floresta. Algumas preferem religar  ao som de batuque bem alto, canto, música, chocalho, incenso, saia rodada, coreografia, comida. Muita festa, charuto. Outras ficam em silêncio por horas. Recitam milhões de vezes  mantra “nam yoho rengue kyo”, “om mani padime hum”, somente "ohm", entre outros representantes do som do universo, ou do som da voz de Deus. Tem gente que conversa com Deus como se fosse um analista. Outros como se ele fosse um pai culpado de tudo isso, e se implora clemência a ele. É como se o indivíduo exigisse seus direitos : “ora meu Deus! Faça-me o favor! O Sr. me botou nessa, agora me ajude, ok?”

 No Brasil podemos ver várias formas de se religar convivendo.  Religiões aqui é quase uma modalidade. Não parece que seja um grande problema as tantas diferenças. Embora o deputado Feliciano Filho do Partido Verde esteja tendo problemas com o Candomblé.  É que desde o começo do ano ele está tentando aprovar a lei que proíbe o sacrifício de animais em rituais religiosos. A lei prevê multa de até 5 mil reais para quem botar galinha assassinada em alguma encruzilhada.  A lei não proíbe o assassinato do perú de Natal. Pois serve para alimentar o corpo físico do católico e não para agradar a nenhum Exu. Ou qualquer que seja o  orixá precisado do "trabaio". A Umbanda que é mistura de Candomblé com Jesus Cristo e outros santos católicos, não se manifestou. Mandar perfumes para Yemanjá continua liberado. A morte das plantas de Alfazema não altera a sustentabilidade ambiental restabelecida na Rio mais 20.  O bom cheiro do perfume é até bem vindo. Quem não deve curtir muito o ritual são os garis da praia, que limpam toda a devolução de presentes que fazem de oferenda á Santa. É bom para o mercado interno que Yemanjá prefira Alfazema. Como rainha do mar, ela já deve ter conhecido outras fragrâncias, como a Verbena Chilena, ou os aromas de Capri, porém permanece fiel a erva brasileira. Conservadora, ela também continua receitando as mesmas “ervas de corte” aos seus filhos se protegerem, há tempos.

 Religião sempre se misturou com política?  O Oriente Médio que o diga.  Vi no jornal há poucos dias : " Os católicos apoiam o ditador da Síria". Talvez porque queiram ver a Síria transformada no grande templo deles?

  Se me oferecessem, quando eu comecei a votar aos 16 anos, uma merenda de bolo de chocolate na escola pública que estudei, no lugar daquelas malditas bolachas de maisena murcha, com café ruim e leite em pó, ou macarrão parafuso com salsicha, é capaz que eu tivesse sim repensado meu voto. Iria aprender matemática conectada ao que me conecta ao divino: chocolate. Servido no intervalo. Provavelmente teria sido uma aluna e pessoa melhor em sala de aula. Um ser humano melhor.    Oque é bom pra mim seria bom pra todos ao meu redor. Afinal, com a alma aquietada pelo chocolate de qualidade (meu fator religante que me traz paz) não teria feito tanto bulling em meus coleguinhas. Teria sido uma adolescente menos revoltada, portanto instrumento de Deus e mais útil a sociedade que eu fazia parte. Aliás é por isso mesmo que na guerra os soldados comiam mal. Se comessem bem, não guerreavam direito. É mais ou menos por isso que religião e política sempre se precisaram.

  Falando em adolescência, como não mencionar a MC Carol!  Ficou famosa como a "menina pastora". Diva do You Tube.  Aos 5 aninhos ela proclamava: “É maravilhoso!  Conselheiro!”. Mais de um milhão de views. A menina cresceu e continua crente da Assembléia de Deus (não a que  estuda a lei de Feliciano) e recebe uma porcentagem do Google pela obra. Que é hilária. Me diverti mais com a menina pastora e seus funks, do que com muita cena de comédia em teatro por aí. Convincente, sabe? E fofinha, como toda criança, cheia de graça.

 Existe hoje uma outra menina pastora, árabe, chama-se Lara.  Ensinaram a menina que os inimigos roubaram os pais dela, os avós, e que todos os israelenses são do mal. Ela tem um programa de TV e fica dizendo isso nele. Lembra a pequena Maysa do SBT: um estouro! Lara está famosa por lá. Está em todos os jornais e responde a processos onde é acusada de incitar o ódio entre as religiões. 

A Universal do Reino de Deus, que também é crente, mas com uma maior super produção, está construindo lá no Brás, um templo. Tão grande quanto o da João Dias.   Não paga imposto porque é instituição religiosa. Belo negócio.  Quanto deverá custar aquele... monumento  arquitetônico? É uma espécie de  arco do Triunfo da França somado a umas colunas romanas. Um gosto que até Deus duvida. Pega dois quarteirões. É gigantesca. Eles gritam com muita fé, dizendo que tudo é em nome de Jesus. Mas Jesus não era humilde e sem posses? Pois é tudo no nome do Homem, mas no papel material empestado a um nome de algum outro homem. Que provavelmente ficou e ficará cada vez mais rico com aquele empreendimento. 

Dizem que a Universal disputa a tapas fiéis com a igreja Mundial. Mesmo estilo de show, apresentação, só que um pouco mais "dark". Alguém deveria sugerir uma aliança. Um monopólio: a Intergaláctica de Deus?

 E falando das bandas fora deste planeta como não mencionar o mais "templo que é dinheiro" da moda em Hollywood, a Cientologia. Igreja de Tom Cruise, Jhon Travolta e outros “american famous”. Acostumados a roteiros de cinema, os astros adotaram como bíblia, um livro de ficção científica. Que pode até ser verdade. Eu não duvido. Não duvido mesmo. Sugere que somos assim insatisfeitos, porque estamos na Terra exilados. O kardecismo já falou algo parecido em um de seus estudos, mas de forma diferente. A cientologia diz que vivíamos longe daqui, em um lugar onde éramos felizes. Tivemos um problema político com um ET líder deste lugar, que achou que não merecíamos ficar lá.  Nos trouxeram pra cá. Aí começamos a ter descendentes com os animais. Darwin já haveria começado a sacar essa teoria. E como ainda lembramos vagamente do que aconteceu, nunca estamos felizes.  Ficamos o tempo todo tentando lembrar de onde viemos e para onde vamos, pois queremos voltar pra casa. Super interessante!

 Pra finalizar, já ouvi muita gente dizer "minha religião é o teatro”. A minha é espírita, mas é o teatro também. É o cinema. É um livro, um poema, uma flor, uma onda no mar. Ou uma igreja belíssima, fechada com vitrais coloridos. Uma torta de espinafre. Uma tarde de sol com hare-krishnas comendo maçã com canela ao som de mantras. Sería legal experimentarmos todas! Sem sermos fanáticos com nenhuma. Qualquer religião pode de determinada forma, fazer bem a determinado alguém, por um determinado tempo. O ritual, a experiência. Seria um bom começo para respeitarmos mais as diferenças. Fanatismo embora lucrativo, não faz bem em tempo algum. Como ir ao teatro ou ao cinema. Tem dias que quero ver Brecht outro dia cinema americano, outro dia ir a uma quadrilha de festa junina. Um pouco de cada. Na época certa. Sem fanatismo.

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