Todo dia tem alguém querendo ser meu amigo no
facebook. São centenas. Na vida real poucos tem paciência comigo! Antes pensei
em adicionar todos , para depois chamá-los para lotar meus eventos. Mas depois
de tanto compartilhar com a dor e a delícia da vivência alheia, de tantos
ilustres desconhecidos, achei melhor parar de adicionar tanta gente.
A internet, informação rápida, pulverizada, como manejar?
Para os pesquisadores do ano de 2850 dou minha contribuição de como isto está
se dando, ao contar alguns casinhos do maior sucesso do nosso tempo virtual: o
facebook.
Queridos pesquisadores do futuro: trata-se do mais
famoso site de relacionamento do mundo. Mundo que há poucas décadas vem se
tornando globalizado, cada dia mais. Há muito pouco tempo, eu posso do Brasil,
falar com um indiano na Prússia, e vê-lo ao vivo se mexendo em minha tela. Este enorme acesso ao mundo que neste início
de século temos tido, ainda é passível de dúvidas quanto a como se comportar
diante de. Como utilizar tais fascinantes ferramentas. Então estamos usando e
aprendendo pra que servem e anti-servem, na prática.
No começo do século passado, o encurtamento
de distâncias e aproximação de culturas deixou todo mundo igualmente confuso em
como se comportar diante de tantas novidades. Até inventaram o livro de
pequenas éticas, o famoso livro de etiquetas, para que a nova aceleração de
informação e convivência com o novo mundo, fosse regrada, a ponto de acalmar a
muitos que não sabiam como agir. Foi por exemplo a explosão dos perfumes, por
causa das multidões que começaram a usar locomotivas e bondes . Uma das regras
de etiqueta era manter-se cheiroso para não incomodar o outro, que agora era
bem próximo, sentava ao lado. Apesar de até hoje ter gente inoportuna que põe
música alta no ônibus, a maioria das implicações criadas com esses
encurtamentos de distância, nós da vida moderna e urbana, já superamos sua
grande maioria. O encurtamento agora é outro. Mais psicológico.
Em vez de perfumes a explosão é de perfis no
facebook. E aí começa a maluquice humana, parecida com a que começou com
os tais comportamentos de “etiqueta”
antes, mas desta vez, de outro jeito.
Para ser agradável você deve ser no mínimo
lindo e genial em tudo que faz! Deve começar botando uma foto de si mesmo
incrível e bem sucedida, ou de uma paisagem igualmente incrível e bem sucedida.
Sempre de bem com a vida, ou revoltado
com injustiças, neste caso fazendo uma linha heróica. Tem de se mostrar “o cara”
ao preencher o perfil do face e em suas publicações.
Se sofre, é com força, garra e beleza. Se está se dando bem, continua
humilde e brilhantemente justo! E assim
fica-se tentando provar originalidade o tempo todo possível, no “status”
do seu face.
Deve-se realmente
atentar para parecer o máximo, tudo de bom
ponto com. Afinal a entrevistadora do
departamento de recursos humanos, de muitas empresas, pode checar no facebook
como você apresenta a sua vida pessoal e
profissional para o mundo. Há um site de relacionamento com a intenção de expor
o profissional e suas conexões, mas esse
ninguém entra. Nenhum chega nem perto do sucesso do facebook.
A polícia
investigadora mesmo já pegou muitos bandidos descuidados, através das pistas
que os babacas/bandidos amadores deixam em seus perfis!
É muito útil para se
expor, logo, quem precisa de exposição para viver, não pode viver sem hoje em
dia. Quem precisa de alguém para sair hoje
a noite, também vai encontrar checando o estado civil, as preferências,
fraquezas, amizades, tudo, qualquer coisa. Pra comer alguém é uma mão na
roda. Você já personaliza a cantada,
diminuindo a probabilidade de erros nas tentativas.
Aliás, o “face” como
é carinhosamente chamado, foi inventado por um moleque americano, virgem,
narigudo e cheio de espinhas no rosto, pra isso mesmo... Um nerd que não comia
ninguém, estava no primeiro ano de faculdade, puto por ter levado um fora,
inventou o facebook. Para catalogar pessoas e não ficar mais só. De quebra
virar milionário e poder comer mais gente ainda, mas isso foi consequência.
Basica e fundamentalmente,
é pra isso serve o face! Freud tem mesmo razão. Não é que tudo tem sempre sexo na história?
Um dia eu descobri
como cancelar as atualizações de gente chata que publica baboseiras no face, e
só por isso continuei entrando no site. Diariamente. Mais de uma vez por dia.
Me fez viciar mais. E eu estava quase
desistindo.
Um amigo uma vez fez uma campanha: “pare de
se lamentar no face” porque tem gente
que é demasiadamente sincera e coloca todos seus sentimentos, se mostrando:
rancoroso, magoadinho, frágil... claro,
sempre de forma estratégica. Gente que diz preferir animais do que gente por
exêmplo. Gente que quer reconhecimento por ser negro, gay, corinthiano... Mas o
mais comum de novo, e eu devo confessar, sigo mais ou menos esta linha, é
parecer o máximo. Ser linda, boa profissional, bem comida, amar a vida, as
cores, e ter raiva obviamente de coisas “más” como o mensalão (falcatrua política
do nosso tempo). No fundo, no fundo: tudo bobagem, pra valorizar nossa... boa
imagem. Quesito importantíssimo nos dias de hoje. E não mais virtude só dos
belos externamente. Há de ser interessantíssimo também.
Quando me sinto um
lixo não ponho no face: “sou uma merda de pessoa, totalmente incapaz e
desnecessária ao mundo. Hoje se tivesse coragem, pois também sou covarde, me
mataria”. Não pegaria bem. Iriam me
julgar: suicida, fraca, baixa auto estima, baixo astral, isso não seria boa
imagem. Mas daria gancho a boa imagem de
outros! Muita gente ia comentar! Com frases lindas de recomposição, amizade
eterna, do tipo: “força amiga você vai
sair dessa! Qualquer coisa liga! Estou aqui para o que der e vier”- e a pessoa
nem tem seu telefone.. . Muito previsível.
Muito marketeiro.
Voltando a como se comportar, são vários os
dramas facebookianos. Alguns amigos
virtuais se acham os melhores amigos, com direitos de verdade, e se sentem
profundamente desrespeitados se você sai bruscamente no meio de uma conversa
virtual. Acham que você faltou com a etiqueta. Gente, e se caiu a conexão? E se
o bolo no forno quase queima? E se a campainha tocou? Abriu o sinal de
transito? E a pessoa quer uma explicação pela demora ou ausência de resposta.
É tão grave nossa
adicção caros amigos de 2850, que mesmo em mesas de bares onde amigos se reúnem
para confraternizar, se vê cinco, seis pessoas reunidas todas sem notarem as
próprias presenças. Por estarem presas as atualizações de seus celulares. Obcecadas em eternizar seus momentos
e provar que são felizes. Ávidas por “curtirs”e “compartilhares”.
Um dia voce tem um
super pensamento filosófico, de novo,ao
mesmo tempo altruísta, ao mesmo tempo sexy, inteligente e político pra
frentista! Você entra na internet, entra
no face e publica. Daquele instante em
seguida sua vida não é mais a mesma. Você vai clicar compulsoriamente na tecla “refresh”
para ver se alguém interessante leu seu
brilhantismo vespertino. Se curtiu ou não o bendito post. De repente só as pessoas mais chatas da sua lista de amigos curtem e você se sente,
um lixo. As vezes ninguém vê. Um sofrimento.
Uma colega sua fala abertamente sobre sexo
tântrico anal, você acha super corajoso
da parte dela! Só vê risadas (kkkk) e poucas curtidas. Como a atualização
apitou no seu I-phone, você vai e discursa sobre isso. Diz que os gays não
conseguem virar héteros porque praticam sexo anal, e é comprovada que a região
é erógena, e causa sensação de prazer e doação transcendentais. E mais, que
deve ser feito com carinho pois dói, e é muito íntimo e etc. Você tinha lido
isso numa revista. Escreve um monte de baboseiras para se sentir ou descolada, ou parceira da menina, ou porque quer ver o
que vão replicar, e mais que tudo isso: porque é um vício. Você não tinha o que
fazer quando recebeu esta atualização. Por fim vvocê escreve: “Faça! Dói mas
vale a pena!”. Poucas horas depois de o mundo inteiro ver sua tese barata, a
mesma amiga posta de novo: “Gente! Alguém entrou no meu face e publicou
maluquices sobre sexo anal! Imagine eeeeeu
falar sobre essas coisas aqui no face! Sou uma mulher casada! Que
baixaria!” e com risos (kkkk). Agora
meio mundo te acha uma pervertida louca.
Tem sempre alguém
que sempre curte nossos vômitos. E quando essa pessoa vomita também, você vai lá
e curte solidariamente. Mesmo sem achar o menor sentido no que a pessoa
escreveu. Um dia numa festa, a pessoa aparece vestida com um mini shorts pink e salto alto,
numa festa Black-Tie, é homem, barbado, tem cheiro de cachaça, a camiseta está
escrito “Romney and Obama fuck each other”. Ele(a) te cumprimenta
fervorosamente. Você fica sem saber quem é, qual é o nome, e que diabos
significa aqueles dizeres na camiseta dele. Ele te mostra a tatugem com o nome
fake que ele usa na “net” . Escrito nas costas. Detalhe: neste momento você falava de teatro na Idade
média com um possível patrocinador da
sua peça. Que delicadamente sai de fininho e desaparece. Face pode ser trágico...é
para sempre na vida da pessoa. Quase uma prisão ou uma doença que aflorada ou
não, está lá, com seu nome, esperando para manifestar.
Um dia você conta a
um amigo confidencialmente sua opinião sobre assunto muito polêmico. Tão
polêmico que você mesma não tem certeza de qual é a sua opinião. Ele vai lá e
te marca numa foto horrível que super afirma o que você não disse, mas divagou
sobre. E agora todos sabem da opinião que nem você mesmo sabe direito se tem.
Aí você diz: Chega!
Eu posso viver fora desta escravidão mental!
E cancela sua conta. De sete em sete dias mais ou menos, o face vai te mandar
um e-mail com a novas fotos postadas pelos seus principais amigos, felizes como
sempre, geniais, nobres sentenças e quotes de efeito, mais a seguinte frase:
“eles sentem falta de voce. Para voltar ao facebook e reativar sua conta clique
aqui”, e um botão azul lindo. Quando você clica, automaticamente está lá de
volta. Exatamente como deixou. Você troca a foto por uma de fênix, em que está
ainda mais gostosa, pele de pêssego, sorriso de pérolas. Põe uma frase
“Einstein” sobre retornos/ renascimento. As pessoas curtem. E como um louco ora
transtornado em abstinência, você clica naquela porra de estrelinha do lado que
torna sua publicação mais vista. E respira aliviado e novamente incluído na era
digital.