quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Uma mina mala e mimada

   Maria Antônia descobriu que tem gastrite. Chorou mais ou menos duas horas por causa disso.  A primeira hora pela causa emocional da gastrite, que ela julga saber qual foi. A segunda porque a moça é quase uma atleta e fica muito chateada quando descobre que o corpo tem dessas coisas de ser frágil, ter prazo de validade e vulnerabilidade a doença. 

  Ela pensa que a partir daquele dia,   pra sempre vai ter tido gastrite. Mesmo depois que sarar. Será como as cicatrizes da perna, que tem por causa de seus treinos.  Mas essa cicatriz pega muito mal pois vão pensar  “ou ela é muito nervosa ou ela só come besteira.“

   A moça acha que o mundo deve saber de sua gastrite e compartilha sua dor  postando em todas as redes sociais a sua indignação egoísta.  Recebe vários “likes” de apoio, e receitas de suco de couve, frutas milagrosas vindas da África do Sul,  dentre outras dicas e mandingas.
Ela é uma pessoas que jamais seria vegetariana, jamais não beberia álcool  e jamais deixaria de comer um monte de coisa que gosta. Nenhum motivo que não fosse aquela dor danada, e a frase do médico colombiano do SUS  que é do programa Mais Médicos do PT :  “La señorita tiém que cambiar la alimentación, y se quedar más calmita, me parece muy tensa” a ressoar em sua mente.

  Ela tem raiva de tudo. E de todos também. Naquele momento  a raiva era de médicos que trabalham no Brasil e não aprenderam português correto. Ela generaliza qualquer coisa. "Por que exigem que a gente fale a língua dos outros e não falam  a nossa?" Indagava ela. Imediatamente percebe que sente raiva de muita coisa idiota, como isso que acaba de sentir raiva e pô,  não tem nada a ver!
Logo ela realiza  que talvez por isso tenha uma gastrite.  A raiva mesmo,  verdadeira, era por "algo" externo estar interferindo na vida dela,  se metendo em sua alimentação. Nem a mãe dela fazia isso, como ele podia? Médico folgado, diagnosticar gastrite. Que absurdo...

   A raiva maior é pensar que esta pode ser a primeira de muitas “ites”.  Sinusite, rinite, burcite,  artrite, ela estava ficando mais frágil e velha, só podia. O fim estaria chegando logo pra ela, 27 anos, retorno de Saturno… Em breve ela morreria como seus heróis do rock. Ela pensava nessas coisas e não prestava atenção ao que o médico colombiano dizia.

Por isso ele  teve que chamar a moça da farmácia popular do SUS, que deu os remédio grátis a ela, para  explicar a moça mimada e "fuera de la casita" devaneante,  como se tomava os remédios em português. Ela estava abalada e continuava não entendendo nada, mesmo com a tradutora farmacêutica.  Maria Antônia estava aos prantos nessa hora. Já sabia do veredicto, já tinha tomado as injeções doloridas, estava chorosa e meio em choque enquanto a moça da farmácia tentava lhe falar. O médico colombiano a olha com pena,   e arrisca em portunhol:  “ Calma-te mocinha! No es câncer! Es solo una feridita en su estômago, es tranquilo, calma-te! Eso es muy comum en São Paulo, su ciudád.”

Como um fumante que precisa parar mas não quer, ela decide começar o tratamento amanhã.  Afinal hoje ainda doem as injeções no bumbum que tomou no hospital.

Então ela compra uma caixa de chocolate twix e uma garrafa geladáça de Coca- Cola normal. Come a caixa inteira assistindo pela milésima vez uma série de animação dessas que ela curte.

  Ela decide ligar para os culpados de sua gastrite. Telefona para o pai e diz “Eu não aceito a sua nova mulher! Ela é gorda, se veste mal e é muito idiota. Nunca vou entender por que trocou a mamãe por ela!”. Diz isso e desliga na cara do pai.

 Liga para o ex-namorado que não a atende mais, e se faz de vítima deixando mil recados suplicantes em sua caixa postal, o culpando pelo machucado no estômago. Ela também o culpa por estar sozinha, e agora? Quem vai cuidar dela, fazer chás, comidas leves, fazer carinho, essas coisas? Ela não merecia ter sido deixada, nem ter gastrite. O moço não está nem aí para as mensagens. Está comendo uma japonesa de peitos de silicone. Nem lembra mais de Maria Antônia. O mundo é um lugar injusto, constata a mina mala.

Em estado emergencial de carência liga para a avó.
AVÓ - Ah filinha você tem que se cuidar (ainda amorosa).  Sempre achei que uma caixa de chocolate por filme é muita coisa, um dia isso ia dar nisso. Você não é mais uma menininha.
- Sou sim, claro que sou!  Nunca mais repita isso vovó! ( fala com voz de criança)
- Não é não. ( responde a avó surpreendentemente já de saco cheio dela).  Olha, você pare de chorumelas e se cuide! Isso pode virar úlcera. Você não tem idéia do que é uma endoscopia!
- Tenho sim  - ela lembra de quando fez garganta profunda a pedido do namorado e pensa que deve ser parecido.
- É um cano entrando na sua garganta!
- Eu sei vovó, consigo imaginar como é.
- Olha, você deixa de ser respondona!
-Tá bom!
-Não responda a sua avó!
- …
- Pare de ser mimada e comece a se cuidar como adulta! Tenho que ir a praia agora. Vida de aposentada é cheia de compromisso e é preciso cumpri-los. Logo você vai entender também.
 - “Logo eu vou entender também” ? - A avó desliga.

Ela percebe que pela primeira vez, a própria avó está achando que ela está envelhecendo e é doente e chata!  A mandou "se cuidar como adulta", aquela véia do caralho...Agora nada mais importava. A avó era a última esperança de se sentir amada. Maria Antônia pensava em como se vingar do mundo.

  Telefona pra todos os restaurantes e confeitarias de comida emocional que costuma ir e que é gordurosa,  e faz reservas para mesas de 15 pessoas, só para ocupar o salão, causar espera na porta,  e não ir. Dando  assim bastante trabalho aos garçons. Ela faz a reserva com outro nome e dá outro telefone, claro.

Maria Antônia já em casa antes de dormir, lê naquele jornal "STOP a destruição do mundo", que na psicossomatização, gastrite é não ter responsabilidade sobre a própria vida! Por fim compreende tudo. Promete a si mesma parar de agir como uma imbecil mimada. Decide que a partir daquele dia para sempre, não vai mais pedir desculpas por arrotar.  Vai simplesmente dizer “Ops, oh! É que eu tenho gastrite.” E pronto. Se sente brevemente um pouco melhor, posta algo no facebook e dorme. Sozinha.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Os pedreiros do Litoral Norte Paulista



  Os pensamentos sempre começam numa cadeira de manicure. Nunca sentaria ali se não fosse obrigada a fazer a unha. Unhas feitas não é um desejo de meu coração, é uma exigência da sociedade, embora eu também goste de vê-las bonitinhas e coloridas. Os homens também gostam, tem que fazer.
  Eu não gosto é da idéia de ter minhas mãos paralisadas nas mãos de uma  mulher desconhecida munida de um alicate afiado. Odeio fazer a unha. É demorado, chato, as vezes até dói, e as manicures novas que ainda não me conhecem, sempre ficam me tirando pelo fato de eu ser uma roedora compulsiva. Aprendi a contornar este problema com o bom humor e tirando além das cutículas o que elas tem de melhor: as fofocas. Mas estava tão calor que eu não conseguia ainda nem falar direito.

  É alto verão no Litoral Norte de São Paulo, janeiro,  ruas cheias de gente em traje de banho. Da parede de vidro do salão de beleza em que estou,  vejo os pedreiros trabalhando do outro lado. Eles  mexem juntos a areia com água e cal para transformar em cimento. Um deles segura a mangueira com água. É moreno em seu ombro tem a marquinha branca da camiseta regata, mostrando a cor original de quando não faz sol assim. Ele deve estar sem camisa para homogeneizar a sua cor. Que bela cor todos eles tem. De repente ele resolve molhar a nuca, as costas e o peito com a água da mangueira. Faz boca de peixinho pra respirar enquanto a água escorre nos olhos e nariz.

- Tem que oxigenar né?
-Oxigenar? Vai pintar o cabelo também?
- Não, não! Tô falando outra coisa. Pensei alto.

   Os outros dois seguram e movimentam firme a enxada. Não gosto da ideia de ter uma mão paralisada nas mãos de uma  mulher.  Gosto da ideia de ter minhas duas mãos paralisadas por uma única mão de um  homem desse munido de uma enxada dessa. A mão dele deve ser áspera que só. São grandes. Parecem deuses gregos, imortais.

-       Que idade eles tem?
-       De vinte á trinta, quarenta, cinquenta.
-       Uau. Abrangente né. Viver na praia é saudável...

   Uma destreza com o pulso no manuseio da enxada, que dá gosto de ver. Se vê os músculos ressaltados dos três enquanto trabalham. Não posso deixar de notar o suor pelo sol escaldante, caindo de algum lugar da testa, escorrendo pelo rosto concentrado de um deles. Ele usa uma camiseta amarrada na cabeça. Um par de olhos verdes e uma pele que brilha de tão morena. Irradia.

 Chega um galego forte de colete de couro! Concluo:
-       Caiçara é descendente de europeu né?
-       É? Sei não. Deve ser.
-       De Vikings... Ex-piratas... acho.

No ombro ele leva um balde enorme de metal cheio de areia que ele despeja ali na massa. Hipnotizada, tudo que consigo dizer pra disfarçar é:

-       Trabalham bem esses pedreiros não?
-       Tsc! Que trabalha que nada! Isso aí é tudo maloqueiro sem vergonha, faz nada o ano todo, em temporada fazem bico de pedreiro.
-       E o que tem de errado nisso? – a declaração dela só aumentou meu interesse! “Pedreiro sem vergonha” ela disse! -  Por acaso um deles é seu namorado e você está com raiva, é isso?
-       Meu namorado?- responde a manicure- Isso aí namora a baixada inteira.- De novo aumenta meu interesse. Homem rodado geralmente é bom.
-       Mas de qual deles você está falando?
-       Fia cê num sabe que é tudo farinha do mesmo saco de cal. Outra coisa- diz a manicure evangélica- é tudo maconheiro.
  Fico imaginando qualquer um deles chapadinho de béck, deitado numa rede, com ventilador ligado, depois de um dia duro de trabalho, com os olhinhos semi-cerrados pela cannabis, e a pele ardidinha de sol.
 
  O do colete traz outro tanto de areia no ombro.  Eu o vejo a levantar  com uma mão só, a outra só serviu de apoio.

-       Quantos kilos pesa essa saco que ele carrega com uma mão?
-       Sei não.
-       Acha que é mais que 57 quilos?
-       Deve ter uns sessenta quilos acho. Por que? – sorrio satisfeita.
-       É mais que meu peso. Eu peso isso. 57 quilos...

  Todas as praias estão  em obras na temporada. As cidadezinhas super lotam, dá problema de infra-esrutura toda hora.
 No caminho de volta pra casa, noto a quantidade de construções e reparos pela vila. Um deles está trepando num praticável pra encaixar uma viga enorme numa faixada, tirei até foto. Casas, igrejas, lojas, bares e restaurantes sendo restaurados por esses... restauradores. Restaurantes, refrigeradores de alma.

  Quando chego em casa pra cozinha e encher de cheiro de alho minhas unhas novas, o cachorro que não sai do meu pé, tenta roubar a picanha que estou cozinhando. Indignada com este animal, eu o prendo na coleira num registro de torneira. O bicho fica lá latindo horrores até que ele estoura a torneira que sai água a todo vapor. Prendo ele no quarto, puta da vida com o desperdício de água gerado pelo arrebentamento da torneira.

 A água não para de jorrar e com força. Olho, penso... sorrio leve. Deixo de cozinhar, guardo as coisas as pressas. Me olho no espelho, sou bela. Saio confiante atrás de um encanador competente para resolver o vazamento de água causado por meu descuido com o bicho.






sábado, 27 de dezembro de 2014

Vodka fruta e gelo

  Das praias do litoral norte, Maresias é a mais “jovem”. Aqui pode cachorro na praia, pode quadriciclo com gasolina, pode maconha, cigarro, “pode entrar! fica a vontade, senta aí”. Pode móveis na areia, som alto até tarde, ou melhor, até cedo.  Tem mais surf que as praias vizinhas e mais vodka que na Rússia. As mulheres solteiras saradas com brincos e cabelos compridos andam em comboio  e os homens são personal.

Estão Eve que sou eu, Claudia, e dois personais . Eve não vê os dois personais desta história. Ou vê mas achava que não os conhecia ainda. São tantos né.

Eve  (enérgica)
-Clau, não!  Eu não quero fazer personal. Nem “conhecer”  nenhum personal, nem ver personal ou surfar, nem fumar maconha com nenhum deles. Nada contra personal trainer, é treinaer que fala?
(pausa todos olham)
Ah, você não é personal?
(pausa)
Nossa, parece muito... ele também não é? Beleza. Mas parece também. Vocês são irmãos?

Maresias é a colônia de férias das academias do Brasil. As pessoas malham o ano todo para vir aqui encontrar ou ser um personal.

Eve
Eu só quero vodka. Fruta e gelo.

  Nos sambas do Rio de Janeiro alguma mágica acontece que há sempre um copo cheio de cerveja  gelada na mão. O copo simplesmente nunca esvazia. Aqui em Maresias consegui um bar-man gay que me faz drinks de vodka o tempo todo. Ele me conta histórias de um restaurante de elite em São Paulo, uma mais legal que a outra,  e mostra  foto dos pintos dos namorados que teve. Vim para o lugar certo. Exceto que o povo aqui insiste em transformar a praia numa balada, ou night com luzes coloridas. Eu prefiro a luz das estrelas, um forrózinho ou reggae.

Claudia
Pô, você é foda.
Eve
Por que?!
Claudia
Tratou o personal mal!  ( Eve sempre trata alguém mal)
Eve
Mas ele disse que não é personal!
Claudia
Mas é né. Claro que é.
Eve
Não entendo.
Claudia
Ficou sem graça. Você falou como se tivesse alergia a personal!
Eve
Se eu tivesse como estaria em Maresias? Putz... desculpa.  (Eve sempre fala alguma coisa errada sem saber. É um inferno)

Claudia
Vamo correr na praia?
Eve
Não, não...
Claudia
Fazer stand-up
Eve
Não.
Claudia
Caiaque?
Eve
Nope!
Claudia
Pô, cê tá precisando se mexer, gata!
Eve
Eu não quero personal homem, nem mulher. Eu tenho um bar-man gay, tá tudo certo.
Claudia
Quadriciclo?
Eve
...
Claudia
Jet Ski?
Eve
Tem Jet-ski aqui?
Claudia
Aeeee! Pôrra se tem, você não viu na garagem?
Eve
Que garagem?
Claudia
Eu te vi entrando na garag... você entrou na casa do caseiro aquela hora?
Eve
Queria ficar só pra escrever, na sala as pessoas ficam falando comigo.
Claudia
Mas na casa do caseiro? (brava)
Eve
Tem muito quarto nesta casa, muita porta, eu me confundi...
Claudia
Tá tá! Tenta beber menos pra distinguir as portas!


  Maresias é um dos poucos lugares do mundo em que eu, logo eu! Viro a tímida, a mina quieta  do rolê. A introspectiva da casa sou eu. Coisa rara. De vez em quando aparece alguém pra explicar o significado da própria tatuagem, as meninas contam que seu cabelo não é tinta, foi o sol que dourou as mechas. “Você veio de carro ou de helicóptero? Pegou trânsito no céu?”. E toda hora aparece um cachorro diferente. Um mais lindo que o outro, sempre de alguma família ou casal feliz  pedindo carinho e eu dou. Fico alisando eles. Fujo das conversas e foco no cachorro. Um deles parecia ter barba e babava muito... Vodka, fruta e gelo.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Amado Clube Brasileiro




     Fui checar minhas anotações no celular. Tenho gravações também. Muitas delas constrangedoras.  Pois na hora que eu gravo ou escrevo, me sinto  o gênio da lâmpada, a artista incompreendida e vanguardista, a pensadora do século, e quando depois leio e ouço, penso em procurar emprego imediatamente. Apago o mais rápido possível com medo de alguém veja aquela bobagem sem tamanho, e tire sarro de mim.  Mas esta anotação vou obedecer. Ela ordena: escrever sobre o São Paulo Futebol Clube.

   Ainda não sei por que quero falar sobre ser são-paulina, vou escrevendo e quem sabe me lembro. Não faço ideia do que está acontecendo com o São Paulo. Sei que se assumiu espírita e seguem Allan Kardec, o consolador.

 Foi na infância. Tive uma infância dividida, tinha dois quartos, duas casas, a da minha mãe e a da minha vó. Acho que gostava mais da minha avó porque lá eu podia fazer tudo que quisesse. Coisas de criança como por fogo na sala com a luz do abat-jour, quebrar uma cristaleira caríssima e ver ela se estilhaçar no chão com prazer, e vovó sempre protegia minha criatividade, e meu avô, esse sim me amou de verdade.   Me dava chocolates, brinquedos, livros, discos do Trem da Alegria, viagens de avião, bilhetes para parques e eu não precisava  dar quase nada em troca. Minha mãe dizia que eu era o demônio, meu avô dizia que eu era muito boazinha e inteligente. Até um órgão ele me deu quando eu pedi. Nunca toquei.

    Eu gostava de competir com o filho mais novo do meu avô, o meu tio Nando, que assim como meu avô,  era corinthiano roxo, doente. Uma das recordações mais incrivelmente felizes da minha infância era assistir o jogo do Corinthians com o Nando. Aquilo era muito importante pra ele, dava gosto de ver. Eu assistia pela lateral da estante onde ficava a TV. Esperava pelo momento mais importante do jogo, antes de um  quase gol ou uma boa bola, então eu desligava a televisão e saía correndo. Gargalhava feliz com o desespero dele. Fiz ele perder de ver vários gols corinthianos dos anos 80 e 90.  Digo a ele que isso foi bom, pois ele poderia imaginar o gol como quisesse. Mas Nando não entendia meu raciocínio a frente, e ficava bem bravo. Acho que até por isso ganhou uma TV no quarto.

 Claro que não fazia isso com meu avô, só com o Tio Nando. É que o Tio Nando não me dava chocolates, nem bilhetes para parquinhos, ou instrumentos musicais da moda, pelo contrário. Com ele eu tinha que dividir minha vó  e  os tubos de Pringles. Era um inimigo. Muito amado mas inimigo. Além do mais ele tinha uma foto tamanho natural do Freddy Krugger no quarto, meu maior terror de infância, que eu acho que ele colocou lá pra eu parar de entrar no quarto dele e mexer em tudo, como também adorava fazer.

   Num domingo meu avô convida a família inteira para ver Corinthians X São Paulo na grande TV nova. Ele pergunta na frente de todos os parentes qual era o meu time de futebol. Querendo que eu respondesse Corinthians. Meu primo da minha idade, estava lá e me olhou com muita apreensão querendo que eu respondesse São Paulo. Esse meu primo brincava comigo, tomávamos banho juntos escondido de nossos pais, íamos a praia fazer castelinho,  ele me influenciava muito. Chegou ao ponto de me convencer a pedir um disco do New Kids On the Block e eu nem gostava deles, nunca gostei. Eu achava que no futuro ia me casar com ele, afinal ele gostava de cinema, tinha uma fantasia de Rambo, merecia meu amor. Já tínhamos checados que nosso parentesco era de segundo grau então isso seria possível. Meu avô iria morrer antes de meu primo e eu estava em dúvida entre agradar vovô ou meu futuro marido, tudo isso passou pela minha cabecinha naquele segundo, e lá estava eu dividida de novo.

 Foi quando eu tive a brilhante ideia de responder que quem ganhasse aquele jogo, seria meu time para sempre. Me senti uma princesa na torre com dois cavaleiros duelando por mim, Corinthians e São Paulo. Eu estava torcendo em segredo para o Corinthians, pois era o Coringão que me dava alegrias familiares. Sempre torcia para o Corinthians fazer gol, jogar bem, pois só assim podia desligar a TV e sair correndo com gosto! Foram noventa minutos tensos pra mim.  Meu primo de um lado, meu avô do outro. Foi a fase Telê Santana do São Paulo, que ganhava todas e ganhou aquele jogo. Eu não podia voltar atrás com minha palavra e com tantas testemunhas. Deu-se que virei são-paulina de um modo trágico. Eu e minha mania de apostar. Apostas levam o homem a cada situação, foi  parecido como quando fui obrigada a beijar uma mulher uma vez, mas isso é outra história.

 No fim das contas, na minha adolescência e fase adulta, me comportei como todo são-paulino. Não estou nem aí pra futebol, adoro preto branco e vermelho minhas cores favoritas de esmalte,  adoro homens. Sou a favor do casamento gay. Acho o Kaká, o Pato e o Ganso gatíssimos,  uma delícia ser são-paulina e ver as pernas vorazes desses caras. Eu prefiro o hino do Flamengo mas sei o do Tricolor inteirinho.  E sei do Corinthians também...

  Espero que meu avô leia esta crônica do além, e me perdoe. Mesmo porque eu não casei com meu primo que ficou super baixinho, afinal ele é mesmo de segundo grau, porque a nossa família é alta como o Rogerio Ceni, que encontrei um dia no supermercado fazendo compras. Ainda não existiam selfies, mas pûde ver que ele compra melão e presunto e provavelmente come os dois juntos como eu.

  Dei meu primeiro beijo no meu primeiro namorado no baile de Carnaval do São Paulo Futebol Clube! Ele também era são-paulino. Meu primeiro porre também foi lá, de bombeirinho, eu vomitava pink. O primeiro jogo que eu vi foi no Estádio do Morumbi que faço questão de escrever em letra maiúscula. Vi o goleiro Dida do Corinthians pegar dois pênaltis do Raí. Senti muita tristeza mas foi engraçado pensar  que se naquele dia com meu avô,  o Corinthians tivesse ganhado, naquele último jogo do Raí, minha primeira vez no estádio, eu estaria feliz e não triste.

  Na saída do estádio escuto na minha cabeça a risada feliz do meu avô dizendo “Viu só? Quis virar são-paulina pra ser freguesa do Coringão!”