segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Os pedreiros do Litoral Norte Paulista



  Os pensamentos sempre começam numa cadeira de manicure. Nunca sentaria ali se não fosse obrigada a fazer a unha. Unhas feitas não é um desejo de meu coração, é uma exigência da sociedade, embora eu também goste de vê-las bonitinhas e coloridas. Os homens também gostam, tem que fazer.
  Eu não gosto é da idéia de ter minhas mãos paralisadas nas mãos de uma  mulher desconhecida munida de um alicate afiado. Odeio fazer a unha. É demorado, chato, as vezes até dói, e as manicures novas que ainda não me conhecem, sempre ficam me tirando pelo fato de eu ser uma roedora compulsiva. Aprendi a contornar este problema com o bom humor e tirando além das cutículas o que elas tem de melhor: as fofocas. Mas estava tão calor que eu não conseguia ainda nem falar direito.

  É alto verão no Litoral Norte de São Paulo, janeiro,  ruas cheias de gente em traje de banho. Da parede de vidro do salão de beleza em que estou,  vejo os pedreiros trabalhando do outro lado. Eles  mexem juntos a areia com água e cal para transformar em cimento. Um deles segura a mangueira com água. É moreno em seu ombro tem a marquinha branca da camiseta regata, mostrando a cor original de quando não faz sol assim. Ele deve estar sem camisa para homogeneizar a sua cor. Que bela cor todos eles tem. De repente ele resolve molhar a nuca, as costas e o peito com a água da mangueira. Faz boca de peixinho pra respirar enquanto a água escorre nos olhos e nariz.

- Tem que oxigenar né?
-Oxigenar? Vai pintar o cabelo também?
- Não, não! Tô falando outra coisa. Pensei alto.

   Os outros dois seguram e movimentam firme a enxada. Não gosto da ideia de ter uma mão paralisada nas mãos de uma  mulher.  Gosto da ideia de ter minhas duas mãos paralisadas por uma única mão de um  homem desse munido de uma enxada dessa. A mão dele deve ser áspera que só. São grandes. Parecem deuses gregos, imortais.

-       Que idade eles tem?
-       De vinte á trinta, quarenta, cinquenta.
-       Uau. Abrangente né. Viver na praia é saudável...

   Uma destreza com o pulso no manuseio da enxada, que dá gosto de ver. Se vê os músculos ressaltados dos três enquanto trabalham. Não posso deixar de notar o suor pelo sol escaldante, caindo de algum lugar da testa, escorrendo pelo rosto concentrado de um deles. Ele usa uma camiseta amarrada na cabeça. Um par de olhos verdes e uma pele que brilha de tão morena. Irradia.

 Chega um galego forte de colete de couro! Concluo:
-       Caiçara é descendente de europeu né?
-       É? Sei não. Deve ser.
-       De Vikings... Ex-piratas... acho.

No ombro ele leva um balde enorme de metal cheio de areia que ele despeja ali na massa. Hipnotizada, tudo que consigo dizer pra disfarçar é:

-       Trabalham bem esses pedreiros não?
-       Tsc! Que trabalha que nada! Isso aí é tudo maloqueiro sem vergonha, faz nada o ano todo, em temporada fazem bico de pedreiro.
-       E o que tem de errado nisso? – a declaração dela só aumentou meu interesse! “Pedreiro sem vergonha” ela disse! -  Por acaso um deles é seu namorado e você está com raiva, é isso?
-       Meu namorado?- responde a manicure- Isso aí namora a baixada inteira.- De novo aumenta meu interesse. Homem rodado geralmente é bom.
-       Mas de qual deles você está falando?
-       Fia cê num sabe que é tudo farinha do mesmo saco de cal. Outra coisa- diz a manicure evangélica- é tudo maconheiro.
  Fico imaginando qualquer um deles chapadinho de béck, deitado numa rede, com ventilador ligado, depois de um dia duro de trabalho, com os olhinhos semi-cerrados pela cannabis, e a pele ardidinha de sol.
 
  O do colete traz outro tanto de areia no ombro.  Eu o vejo a levantar  com uma mão só, a outra só serviu de apoio.

-       Quantos kilos pesa essa saco que ele carrega com uma mão?
-       Sei não.
-       Acha que é mais que 57 quilos?
-       Deve ter uns sessenta quilos acho. Por que? – sorrio satisfeita.
-       É mais que meu peso. Eu peso isso. 57 quilos...

  Todas as praias estão  em obras na temporada. As cidadezinhas super lotam, dá problema de infra-esrutura toda hora.
 No caminho de volta pra casa, noto a quantidade de construções e reparos pela vila. Um deles está trepando num praticável pra encaixar uma viga enorme numa faixada, tirei até foto. Casas, igrejas, lojas, bares e restaurantes sendo restaurados por esses... restauradores. Restaurantes, refrigeradores de alma.

  Quando chego em casa pra cozinha e encher de cheiro de alho minhas unhas novas, o cachorro que não sai do meu pé, tenta roubar a picanha que estou cozinhando. Indignada com este animal, eu o prendo na coleira num registro de torneira. O bicho fica lá latindo horrores até que ele estoura a torneira que sai água a todo vapor. Prendo ele no quarto, puta da vida com o desperdício de água gerado pelo arrebentamento da torneira.

 A água não para de jorrar e com força. Olho, penso... sorrio leve. Deixo de cozinhar, guardo as coisas as pressas. Me olho no espelho, sou bela. Saio confiante atrás de um encanador competente para resolver o vazamento de água causado por meu descuido com o bicho.






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