Os pensamentos
sempre começam numa cadeira de manicure. Nunca sentaria ali se não fosse
obrigada a fazer a unha. Unhas feitas não é um desejo de meu coração, é uma
exigência da sociedade, embora eu também goste de vê-las bonitinhas e
coloridas. Os homens também gostam, tem que fazer.
Eu não gosto é da
idéia de ter minhas mãos paralisadas nas mãos de uma mulher desconhecida munida de um alicate
afiado. Odeio fazer a unha. É demorado, chato, as vezes até dói, e as manicures
novas que ainda não me conhecem, sempre ficam me tirando pelo fato de eu ser
uma roedora compulsiva. Aprendi a contornar este problema com o bom humor e
tirando além das cutículas o que elas tem de melhor: as fofocas. Mas estava tão
calor que eu não conseguia ainda nem falar direito.
É alto verão no
Litoral Norte de São Paulo, janeiro,
ruas cheias de gente em traje de banho. Da parede de vidro do salão de
beleza em que estou, vejo os pedreiros
trabalhando do outro lado. Eles mexem
juntos a areia com água e cal para transformar em cimento. Um deles segura a
mangueira com água. É moreno em seu ombro tem a marquinha branca da camiseta
regata, mostrando a cor original de quando não faz sol assim. Ele deve estar
sem camisa para homogeneizar a sua cor. Que bela cor todos eles tem. De repente
ele resolve molhar a nuca, as costas e o peito com a água da mangueira. Faz boca
de peixinho pra respirar enquanto a água escorre nos olhos e nariz.
- Tem que oxigenar né?
-Oxigenar? Vai pintar o cabelo também?
- Não, não! Tô falando outra coisa. Pensei alto.
Os outros dois
seguram e movimentam firme a enxada. Não gosto da ideia de ter uma mão
paralisada nas mãos de uma mulher. Gosto da ideia de ter minhas duas mãos
paralisadas por uma única mão de um homem
desse munido de uma enxada dessa. A mão dele deve ser áspera que só. São
grandes. Parecem deuses gregos, imortais.
-
Que idade eles tem?
-
De vinte á trinta, quarenta, cinquenta.
-
Uau. Abrangente né. Viver na praia é saudável...
Uma destreza com o
pulso no manuseio da enxada, que dá gosto de ver. Se vê os músculos ressaltados
dos três enquanto trabalham. Não posso deixar de notar o suor pelo sol
escaldante, caindo de algum lugar da testa, escorrendo pelo rosto concentrado
de um deles. Ele usa uma camiseta amarrada na cabeça. Um par de olhos verdes e
uma pele que brilha de tão morena. Irradia.
Chega um galego forte
de colete de couro! Concluo:
-
Caiçara é descendente de europeu né?
-
É? Sei não. Deve ser.
-
De Vikings... Ex-piratas... acho.
No ombro ele leva um balde enorme de metal cheio de areia
que ele despeja ali na massa. Hipnotizada, tudo que consigo dizer pra disfarçar
é:
-
Trabalham bem esses pedreiros não?
-
Tsc! Que trabalha que nada! Isso aí é tudo
maloqueiro sem vergonha, faz nada o ano todo, em temporada fazem bico de
pedreiro.
-
E o que tem de errado nisso? – a declaração dela
só aumentou meu interesse! “Pedreiro sem vergonha” ela disse! - Por acaso um deles é seu namorado e você está
com raiva, é isso?
-
Meu namorado?- responde a manicure- Isso aí namora
a baixada inteira.- De novo aumenta meu interesse. Homem rodado geralmente é
bom.
-
Mas de qual deles você está falando?
-
Fia cê num sabe que é tudo farinha do mesmo saco
de cal. Outra coisa- diz a manicure evangélica- é tudo maconheiro.
Fico imaginando
qualquer um deles chapadinho de béck, deitado numa rede, com ventilador ligado,
depois de um dia duro de trabalho, com os olhinhos semi-cerrados pela cannabis,
e a pele ardidinha de sol.
O do colete traz
outro tanto de areia no ombro. Eu o vejo
a levantar com uma mão só, a outra só
serviu de apoio.
-
Quantos kilos pesa essa saco que ele carrega com
uma mão?
-
Sei não.
-
Acha que é mais que 57 quilos?
-
Deve ter uns sessenta quilos acho. Por que? –
sorrio satisfeita.
-
É mais que meu peso. Eu peso isso. 57 quilos...
Todas
as praias estão em obras na temporada.
As cidadezinhas super lotam, dá problema de infra-esrutura toda hora.
No
caminho de volta pra casa, noto a quantidade de construções e reparos pela
vila. Um deles está trepando num praticável pra encaixar uma viga enorme numa
faixada, tirei até foto. Casas, igrejas, lojas, bares e restaurantes sendo
restaurados por esses... restauradores. Restaurantes, refrigeradores de alma.
Quando
chego em casa pra cozinha e encher de cheiro de alho minhas unhas novas, o
cachorro que não sai do meu pé, tenta roubar a picanha que estou cozinhando. Indignada
com este animal, eu o prendo na coleira num registro de torneira. O bicho fica
lá latindo horrores até que ele estoura a torneira que sai água a todo vapor.
Prendo ele no quarto, puta da vida com o desperdício de água gerado pelo
arrebentamento da torneira.
A
água não para de jorrar e com força. Olho, penso... sorrio leve. Deixo de
cozinhar, guardo as coisas as pressas. Me olho no espelho, sou bela. Saio confiante
atrás de um encanador competente para resolver o vazamento de água causado por
meu descuido com o bicho.
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