Parabéns São Paulo!
Ganhou um parque! Parque Augusta.
Adoro quando as coisas me acontecem de surpresa.
Fui até a Pça Roosevelt procurando a Kombi do poeta Baffô
para ouvir poesia, e o som de “Chais na Mala”. É domingo, tarde sol alto, dia
25, niver da city. Encontro os skatistas, skeitando. Um deles me manda sair da
frente pra ele fazer uma manobra. Fico puta , claro. Eles sempre fazem isso
comigo... Tranquilo, o espaço é democrático. Segui na minha bike. Deixa o menino fazer o slide dele.
Compreensiva e
levemente contrariada, fui pedalar no elevado do Maluf pela primeira vez. “Foi
Maluf que fez!”. Adoro lembrar da campanha política do mais famoso ladrão desta
cidade. Três vezes repetia na musiquinha: “Foi Maluf que fez, foi Maluf que
fez, foi Maluf que fez!” Rouba mas faz... Nunca mais ouvi ninguém dizer isso.
Ainda bem...
Muito sol na cabeça,
estava de óculos, boné e com sede. Vendo as janelinhas dos prédios do elevado
Minhocão, me lembrei daquela música evangélica “Entra na minha casa, entra na
minha vida, mexe com minha estrutura, sara todas as feridas...” Me senti dentro
da casa das pessoas pedalando ali. Dei boa tarde, tchauzinho e mandei beijos a
algumas delas que espiavam pela sua janela.
Quase pedi gelo para meu suco. Era só jogar, pertinho.
Volto pra Roosevelt e nada de Kombi. Estava
sem celular, sem como ligar, checar, essas coisas que celular faz. No lugar do
jazz, uma banda de metais e percussão tocando e gravando um som que dizia mais ou menos assim: “Não posso
pagar nem mais um centavo neste trem, sinto muito amor, mas não tem
vintén, moro no Butantã, três e meio pra
mim, voltar agora as onze horas...”
O som reclamava do aumento de R$ 3,50 a passagem, numa
paródia da música “Trem das Onze”, símbolo da minha cidade. Ouvi, sorri,
aplaudi. Eles foram embora, eu fui também.
Subo a Augusta a
caminho da ciclovia e vejo ele, o Parque Augusta! Inaugurado! Não podia ser...
muito bom pra ser verdade de domingo. Todo colorido! Cheio de vida: hippies,
hypsters, jovens, maduros, dog lovers, baby lovers, famílias, casais, bikers,
rockers e muitos malucos beleza. Árvores decoradas com tricô colorido, marcações
de trilha, tinha até pom-pons! Placas com frases divertidas, bebedouros para
cães. Avisos de ecologia, dizeres de canetinha com protesto. Uma casa com
exposição dentro. Espaço, espaço, espaço.
Barraquinhas de comidas e coisinhas. Um cheiro delicioso de jabuticaba
com maconha. Tem mangueira, jaqueira, abacatero. Um homem elegantérrimo de saia
longa. A de ser chique para usar saia longa e chapéu. Lindo ele estava.
Tem um povo dormindo lá, acampando ali mesmo.
Gente lendo, fotografando, dormindo na sombra. Beijando, ouvindo música, fazendo malabares,
massagem, ensaiando texto! Um parque, enfim.
Penso que um
carioca deve ler isso e rir. Aliás, muitos brasileiros não devem entender o
quanto pra nós paulistanos, é dádiva qualquer simples espaço livre com sombra e
árvores. Um oásis na selva de cimento.
Como deixaram isso
acontecer? Foi Maluf que fez? Esse tão
pouco verde em São Paulo, tão pouca área de lazer. Qual era a idéia de cidade
na cabeça de quem fez isso? É deste alguém a culpa de eu ter me irritado com o
skatista que expulsa minha bike com a maior classe e educação. Queremos espaço,
pra viver, respirar. É preciso.
Um índio guarani me
disse uma vez, achando que era eu uma representante do branco opressor maluco
que constrói destruição: ”Nos dê dez
anos de confiança. E você verá a floresta renascer e ter tanta vida, fauna, flora
que você não iria acreditar na força e rapidez com que isso aconteceria”- e
apontava a uma região desmatada. Voltará
a água a jorrar da fonte, os bichos todos, e as plantes também, de um modo
avassalador, assim é a natureza, tão forte e impiedosa como o homem, mas pro lado da vida”- me explicou o cacique.
Penso então que no Parque Augusta, se as
árvores, e o parque forem devidamente conservados, poderemos ter lindos pássaros
e outros bichinhos e flores!
Imagino uma família
de corujas se mudando do Butantã pra lá. O pai coruja dizendo “A vida noturna
do lado de lá do Rio Pinheiros é mais interessante, chega de Bumba Meu Boi! Vamos morar perto dos teatros!”- e voam, e
povoam. Outra de macaquinhos “Vamos! Lá
tem bananas grátis nas feiras livres da região!” O Lagarto diria “Vamos família! Dizem que a
cidade grande é cheia de insetos e eles cansaram de inseticidas. É nossa chance
de prosperar!” Prosperar neste caso procriar, viver, comer bem, dormir
fresquinho, ar, água, sono, luz.
Pego meu celular de
volta, carregado. Descubro com meus
coleguinhas do jazz, que o aniversário é
a noite na Roosevelt, que ainda tem nome de presidente americano, mas tudo bem.
Uma coisa de cada vez.
Hoje vou cantar pra São Paulo. Atraindo
passarinhos a Rua Augusta para o parque, bem como fez Branca de Neve
naquele bosque da história dela. Ainda
penso que quem mora na praia, campo, deve estar rindo de mim. “Como pode um
quarteirãozinho de nada de árvores, fazer alguém tão feliz?” Alguém não. Muita
gente.
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