Fui checar minhas
anotações no celular. Tenho gravações também. Muitas delas
constrangedoras. Pois na hora que eu
gravo ou escrevo, me sinto o gênio da
lâmpada, a artista incompreendida e vanguardista, a pensadora do século, e
quando depois leio e ouço, penso em procurar emprego imediatamente. Apago o
mais rápido possível com medo de alguém veja aquela bobagem sem tamanho, e tire
sarro de mim. Mas esta anotação vou
obedecer. Ela ordena: escrever sobre o São Paulo Futebol Clube.
Ainda não sei por
que quero falar sobre ser são-paulina, vou escrevendo e quem sabe me lembro.
Não faço ideia do que está acontecendo com o São Paulo. Sei que se assumiu
espírita e seguem Allan Kardec, o consolador.
Foi na infância. Tive
uma infância dividida, tinha dois quartos, duas casas, a da minha mãe e a da
minha vó. Acho que gostava mais da minha avó porque lá eu podia fazer tudo que
quisesse. Coisas de criança como por fogo na sala com a luz do abat-jour,
quebrar uma cristaleira caríssima e ver ela se estilhaçar no chão com prazer, e
vovó sempre protegia minha criatividade, e meu avô, esse sim me amou de
verdade. Me dava chocolates,
brinquedos, livros, discos do Trem da Alegria, viagens de avião, bilhetes para
parques e eu não precisava dar quase
nada em troca. Minha mãe dizia que eu era o demônio, meu avô dizia que eu era
muito boazinha e inteligente. Até um órgão ele me deu quando eu pedi. Nunca
toquei.
Eu gostava de competir com o filho mais novo
do meu avô, o meu tio Nando, que assim como meu avô, era corinthiano roxo, doente. Uma das
recordações mais incrivelmente felizes da minha infância era assistir o jogo do
Corinthians com o Nando. Aquilo era muito importante pra ele, dava gosto de
ver. Eu assistia pela lateral da estante onde ficava a TV. Esperava pelo
momento mais importante do jogo, antes de um
quase gol ou uma boa bola, então eu desligava a televisão e saía
correndo. Gargalhava feliz com o desespero dele. Fiz ele perder de ver vários
gols corinthianos dos anos 80 e 90. Digo
a ele que isso foi bom, pois ele poderia imaginar o gol como quisesse. Mas
Nando não entendia meu raciocínio a frente, e ficava bem bravo. Acho que até
por isso ganhou uma TV no quarto.
Claro que não fazia
isso com meu avô, só com o Tio Nando. É que o Tio Nando não me dava chocolates,
nem bilhetes para parquinhos, ou instrumentos musicais da moda, pelo contrário.
Com ele eu tinha que dividir minha vó
e os tubos de Pringles. Era um
inimigo. Muito amado mas inimigo. Além do mais ele tinha uma foto tamanho
natural do Freddy Krugger no quarto, meu maior terror de infância, que eu acho
que ele colocou lá pra eu parar de entrar no quarto dele e mexer em tudo, como
também adorava fazer.
Num domingo meu avô
convida a família inteira para ver Corinthians X São Paulo na grande TV nova.
Ele pergunta na frente de todos os parentes qual era o meu time de futebol.
Querendo que eu respondesse Corinthians. Meu primo da minha idade, estava lá e
me olhou com muita apreensão querendo que eu respondesse São Paulo. Esse meu
primo brincava comigo, tomávamos banho juntos escondido de nossos pais, íamos a
praia fazer castelinho, ele me
influenciava muito. Chegou ao ponto de me convencer a pedir um disco do New
Kids On the Block e eu nem gostava deles, nunca gostei. Eu achava que no futuro
ia me casar com ele, afinal ele gostava de cinema, tinha uma fantasia de Rambo,
merecia meu amor. Já tínhamos checados que nosso parentesco era de segundo grau
então isso seria possível. Meu avô iria morrer antes de meu primo e eu estava
em dúvida entre agradar vovô ou meu futuro marido, tudo isso passou pela minha
cabecinha naquele segundo, e lá estava eu dividida de novo.
Foi quando eu tive a
brilhante ideia de responder que quem ganhasse aquele jogo, seria meu time para
sempre. Me senti uma princesa na torre com dois cavaleiros duelando por mim,
Corinthians e São Paulo. Eu estava torcendo em segredo para o Corinthians, pois
era o Coringão que me dava alegrias familiares. Sempre torcia para o
Corinthians fazer gol, jogar bem, pois só assim podia desligar a TV e sair
correndo com gosto! Foram noventa minutos tensos pra mim. Meu primo de um lado, meu avô do outro. Foi a
fase Telê Santana do São Paulo, que ganhava todas e ganhou aquele jogo. Eu não
podia voltar atrás com minha palavra e com tantas testemunhas. Deu-se que virei
são-paulina de um modo trágico. Eu e minha mania de apostar. Apostas levam o
homem a cada situação, foi parecido como
quando fui obrigada a beijar uma mulher uma vez, mas isso é outra história.
No fim das contas, na
minha adolescência e fase adulta, me comportei como todo são-paulino. Não estou
nem aí pra futebol, adoro preto branco e vermelho minhas cores favoritas de
esmalte, adoro homens. Sou a favor do
casamento gay. Acho o Kaká, o Pato e o Ganso gatíssimos, uma delícia ser são-paulina e ver as pernas
vorazes desses caras. Eu prefiro o hino do Flamengo mas sei o do Tricolor
inteirinho. E sei do Corinthians
também...
Espero que meu avô
leia esta crônica do além, e me perdoe. Mesmo porque eu não casei com meu primo
que ficou super baixinho, afinal ele é mesmo de segundo grau, porque a nossa
família é alta como o Rogerio Ceni, que encontrei um dia no supermercado
fazendo compras. Ainda não existiam selfies, mas pûde ver que ele compra melão
e presunto e provavelmente come os dois juntos como eu.
Dei meu primeiro
beijo no meu primeiro namorado no baile de Carnaval do São Paulo Futebol Clube!
Ele também era são-paulino. Meu primeiro porre também foi lá, de bombeirinho,
eu vomitava pink. O primeiro jogo que eu vi foi no Estádio do Morumbi que faço
questão de escrever em letra maiúscula. Vi o goleiro Dida do Corinthians pegar
dois pênaltis do Raí. Senti muita tristeza mas foi engraçado pensar que se naquele dia com meu avô, o Corinthians tivesse ganhado, naquele último
jogo do Raí, minha primeira vez no estádio, eu estaria feliz e não triste.
Na saída do estádio
escuto na minha cabeça a risada feliz do meu avô dizendo “Viu só? Quis virar
são-paulina pra ser freguesa do Coringão!”

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