domingo, 25 de janeiro de 2015

Nasce um Oásis! ( esperamos que cresça, reproduza, e não morra. Mas Transforme.)

  Parabéns São Paulo! Ganhou um parque! Parque Augusta.
Adoro quando as coisas me acontecem de surpresa.
Fui até a Pça Roosevelt procurando a Kombi do poeta Baffô para ouvir poesia, e o som de “Chais na Mala”. É domingo, tarde sol alto, dia 25, niver da city. Encontro os skatistas, skeitando. Um deles me manda sair da frente pra ele fazer uma manobra. Fico puta , claro. Eles sempre fazem isso comigo... Tranquilo, o espaço é democrático.  Segui na minha bike.  Deixa o menino fazer o slide dele.

     Compreensiva e levemente contrariada, fui pedalar no elevado do Maluf pela primeira vez. “Foi Maluf que fez!”. Adoro lembrar da campanha política do mais famoso ladrão desta cidade. Três vezes repetia na musiquinha: “Foi Maluf que fez, foi Maluf que fez, foi Maluf que fez!” Rouba mas faz... Nunca mais ouvi ninguém dizer isso. Ainda bem...

 Muito sol na cabeça, estava de óculos, boné e com sede. Vendo as janelinhas dos prédios do elevado Minhocão, me lembrei daquela música evangélica “Entra na minha casa, entra na minha vida, mexe com minha estrutura, sara todas as feridas...” Me senti dentro da casa das pessoas pedalando ali. Dei boa tarde, tchauzinho e mandei beijos a algumas delas que espiavam pela sua janela.  Quase pedi gelo para meu suco. Era só jogar, pertinho.

    Volto pra Roosevelt e nada de Kombi. Estava sem celular, sem como ligar, checar, essas coisas que celular faz. No lugar do jazz, uma banda de metais e percussão tocando e gravando um som  que dizia mais ou menos assim: “Não posso pagar nem mais um centavo neste trem, sinto muito amor, mas não tem vintén,  moro no Butantã, três e meio pra mim, voltar agora as onze horas...”
O som reclamava do aumento de R$ 3,50 a passagem, numa paródia da música “Trem das Onze”, símbolo da minha cidade. Ouvi, sorri, aplaudi. Eles foram embora, eu fui também.

   Subo a Augusta a caminho da ciclovia e vejo ele, o Parque Augusta! Inaugurado! Não podia ser... muito bom pra ser verdade de domingo. Todo colorido! Cheio de vida: hippies, hypsters, jovens, maduros, dog lovers, baby lovers, famílias, casais, bikers, rockers e muitos malucos beleza. Árvores decoradas com tricô colorido, marcações de trilha, tinha até pom-pons! Placas com frases divertidas, bebedouros para cães. Avisos de ecologia, dizeres de canetinha com protesto. Uma casa com exposição dentro. Espaço, espaço, espaço.  Barraquinhas de comidas e coisinhas. Um cheiro delicioso de jabuticaba com maconha. Tem mangueira, jaqueira, abacatero. Um homem elegantérrimo de saia longa. A de ser chique para usar saia longa e chapéu. Lindo ele estava.

  Tem um povo dormindo lá, acampando ali mesmo. Gente lendo, fotografando, dormindo na sombra. Beijando, ouvindo música, fazendo malabares, massagem, ensaiando texto! Um parque, enfim.

   Penso que um carioca deve ler isso e rir. Aliás, muitos brasileiros não devem entender o quanto pra nós paulistanos, é dádiva qualquer simples espaço livre com sombra e árvores. Um oásis na selva de cimento.

    Como deixaram isso acontecer? Foi Maluf que fez?  Esse tão pouco verde em São Paulo, tão pouca área de lazer. Qual era a idéia de cidade na cabeça de quem fez isso? É deste alguém a culpa de eu ter me irritado com o skatista que expulsa minha bike com a maior classe e educação. Queremos espaço, pra viver, respirar. É preciso.

   Um índio guarani me disse uma vez, achando que era eu uma representante do branco opressor maluco que constrói destruição:  ”Nos dê dez anos de confiança. E você verá a floresta renascer e ter tanta vida, fauna, flora que você não iria acreditar na força e rapidez com que isso aconteceria”- e apontava a uma região desmatada.  Voltará a água a jorrar da fonte, os bichos todos, e as plantes também, de um modo avassalador, assim é a natureza, tão forte e impiedosa como o homem, mas pro lado da vida”- me explicou o cacique.

   Penso então que no Parque Augusta, se as árvores, e o parque forem devidamente conservados, poderemos ter lindos pássaros e outros bichinhos e flores!

   Imagino uma família de corujas se mudando do Butantã pra lá. O pai coruja dizendo “A vida noturna do lado de lá do Rio Pinheiros é mais interessante, chega de Bumba Meu Boi! Vamos morar perto dos teatros!”- e voam, e povoam. Outra de macaquinhos  “Vamos! Lá tem bananas grátis nas feiras livres da região!”  O Lagarto diria “Vamos família! Dizem que a cidade grande é cheia de insetos e eles cansaram de inseticidas. É nossa chance de prosperar!” Prosperar neste caso procriar, viver, comer bem, dormir fresquinho, ar, água, sono, luz.

  Pego meu celular de volta, carregado.  Descubro com meus coleguinhas do jazz,  que o aniversário é a noite na Roosevelt, que ainda tem nome de presidente americano, mas tudo bem. Uma coisa de cada vez.
 

  Hoje vou cantar pra São Paulo. Atraindo passarinhos a Rua Augusta para o parque, bem como fez Branca de Neve naquele  bosque da história dela. Ainda penso que quem mora na praia, campo, deve estar rindo de mim. “Como pode um quarteirãozinho de nada de árvores, fazer alguém tão feliz?” Alguém não. Muita gente.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Uma mina mala e mimada

   Maria Antônia descobriu que tem gastrite. Chorou mais ou menos duas horas por causa disso.  A primeira hora pela causa emocional da gastrite, que ela julga saber qual foi. A segunda porque a moça é quase uma atleta e fica muito chateada quando descobre que o corpo tem dessas coisas de ser frágil, ter prazo de validade e vulnerabilidade a doença. 

  Ela pensa que a partir daquele dia,   pra sempre vai ter tido gastrite. Mesmo depois que sarar. Será como as cicatrizes da perna, que tem por causa de seus treinos.  Mas essa cicatriz pega muito mal pois vão pensar  “ou ela é muito nervosa ou ela só come besteira.“

   A moça acha que o mundo deve saber de sua gastrite e compartilha sua dor  postando em todas as redes sociais a sua indignação egoísta.  Recebe vários “likes” de apoio, e receitas de suco de couve, frutas milagrosas vindas da África do Sul,  dentre outras dicas e mandingas.
Ela é uma pessoas que jamais seria vegetariana, jamais não beberia álcool  e jamais deixaria de comer um monte de coisa que gosta. Nenhum motivo que não fosse aquela dor danada, e a frase do médico colombiano do SUS  que é do programa Mais Médicos do PT :  “La señorita tiém que cambiar la alimentación, y se quedar más calmita, me parece muy tensa” a ressoar em sua mente.

  Ela tem raiva de tudo. E de todos também. Naquele momento  a raiva era de médicos que trabalham no Brasil e não aprenderam português correto. Ela generaliza qualquer coisa. "Por que exigem que a gente fale a língua dos outros e não falam  a nossa?" Indagava ela. Imediatamente percebe que sente raiva de muita coisa idiota, como isso que acaba de sentir raiva e pô,  não tem nada a ver!
Logo ela realiza  que talvez por isso tenha uma gastrite.  A raiva mesmo,  verdadeira, era por "algo" externo estar interferindo na vida dela,  se metendo em sua alimentação. Nem a mãe dela fazia isso, como ele podia? Médico folgado, diagnosticar gastrite. Que absurdo...

   A raiva maior é pensar que esta pode ser a primeira de muitas “ites”.  Sinusite, rinite, burcite,  artrite, ela estava ficando mais frágil e velha, só podia. O fim estaria chegando logo pra ela, 27 anos, retorno de Saturno… Em breve ela morreria como seus heróis do rock. Ela pensava nessas coisas e não prestava atenção ao que o médico colombiano dizia.

Por isso ele  teve que chamar a moça da farmácia popular do SUS, que deu os remédio grátis a ela, para  explicar a moça mimada e "fuera de la casita" devaneante,  como se tomava os remédios em português. Ela estava abalada e continuava não entendendo nada, mesmo com a tradutora farmacêutica.  Maria Antônia estava aos prantos nessa hora. Já sabia do veredicto, já tinha tomado as injeções doloridas, estava chorosa e meio em choque enquanto a moça da farmácia tentava lhe falar. O médico colombiano a olha com pena,   e arrisca em portunhol:  “ Calma-te mocinha! No es câncer! Es solo una feridita en su estômago, es tranquilo, calma-te! Eso es muy comum en São Paulo, su ciudád.”

Como um fumante que precisa parar mas não quer, ela decide começar o tratamento amanhã.  Afinal hoje ainda doem as injeções no bumbum que tomou no hospital.

Então ela compra uma caixa de chocolate twix e uma garrafa geladáça de Coca- Cola normal. Come a caixa inteira assistindo pela milésima vez uma série de animação dessas que ela curte.

  Ela decide ligar para os culpados de sua gastrite. Telefona para o pai e diz “Eu não aceito a sua nova mulher! Ela é gorda, se veste mal e é muito idiota. Nunca vou entender por que trocou a mamãe por ela!”. Diz isso e desliga na cara do pai.

 Liga para o ex-namorado que não a atende mais, e se faz de vítima deixando mil recados suplicantes em sua caixa postal, o culpando pelo machucado no estômago. Ela também o culpa por estar sozinha, e agora? Quem vai cuidar dela, fazer chás, comidas leves, fazer carinho, essas coisas? Ela não merecia ter sido deixada, nem ter gastrite. O moço não está nem aí para as mensagens. Está comendo uma japonesa de peitos de silicone. Nem lembra mais de Maria Antônia. O mundo é um lugar injusto, constata a mina mala.

Em estado emergencial de carência liga para a avó.
AVÓ - Ah filinha você tem que se cuidar (ainda amorosa).  Sempre achei que uma caixa de chocolate por filme é muita coisa, um dia isso ia dar nisso. Você não é mais uma menininha.
- Sou sim, claro que sou!  Nunca mais repita isso vovó! ( fala com voz de criança)
- Não é não. ( responde a avó surpreendentemente já de saco cheio dela).  Olha, você pare de chorumelas e se cuide! Isso pode virar úlcera. Você não tem idéia do que é uma endoscopia!
- Tenho sim  - ela lembra de quando fez garganta profunda a pedido do namorado e pensa que deve ser parecido.
- É um cano entrando na sua garganta!
- Eu sei vovó, consigo imaginar como é.
- Olha, você deixa de ser respondona!
-Tá bom!
-Não responda a sua avó!
- …
- Pare de ser mimada e comece a se cuidar como adulta! Tenho que ir a praia agora. Vida de aposentada é cheia de compromisso e é preciso cumpri-los. Logo você vai entender também.
 - “Logo eu vou entender também” ? - A avó desliga.

Ela percebe que pela primeira vez, a própria avó está achando que ela está envelhecendo e é doente e chata!  A mandou "se cuidar como adulta", aquela véia do caralho...Agora nada mais importava. A avó era a última esperança de se sentir amada. Maria Antônia pensava em como se vingar do mundo.

  Telefona pra todos os restaurantes e confeitarias de comida emocional que costuma ir e que é gordurosa,  e faz reservas para mesas de 15 pessoas, só para ocupar o salão, causar espera na porta,  e não ir. Dando  assim bastante trabalho aos garçons. Ela faz a reserva com outro nome e dá outro telefone, claro.

Maria Antônia já em casa antes de dormir, lê naquele jornal "STOP a destruição do mundo", que na psicossomatização, gastrite é não ter responsabilidade sobre a própria vida! Por fim compreende tudo. Promete a si mesma parar de agir como uma imbecil mimada. Decide que a partir daquele dia para sempre, não vai mais pedir desculpas por arrotar.  Vai simplesmente dizer “Ops, oh! É que eu tenho gastrite.” E pronto. Se sente brevemente um pouco melhor, posta algo no facebook e dorme. Sozinha.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Os pedreiros do Litoral Norte Paulista



  Os pensamentos sempre começam numa cadeira de manicure. Nunca sentaria ali se não fosse obrigada a fazer a unha. Unhas feitas não é um desejo de meu coração, é uma exigência da sociedade, embora eu também goste de vê-las bonitinhas e coloridas. Os homens também gostam, tem que fazer.
  Eu não gosto é da idéia de ter minhas mãos paralisadas nas mãos de uma  mulher desconhecida munida de um alicate afiado. Odeio fazer a unha. É demorado, chato, as vezes até dói, e as manicures novas que ainda não me conhecem, sempre ficam me tirando pelo fato de eu ser uma roedora compulsiva. Aprendi a contornar este problema com o bom humor e tirando além das cutículas o que elas tem de melhor: as fofocas. Mas estava tão calor que eu não conseguia ainda nem falar direito.

  É alto verão no Litoral Norte de São Paulo, janeiro,  ruas cheias de gente em traje de banho. Da parede de vidro do salão de beleza em que estou,  vejo os pedreiros trabalhando do outro lado. Eles  mexem juntos a areia com água e cal para transformar em cimento. Um deles segura a mangueira com água. É moreno em seu ombro tem a marquinha branca da camiseta regata, mostrando a cor original de quando não faz sol assim. Ele deve estar sem camisa para homogeneizar a sua cor. Que bela cor todos eles tem. De repente ele resolve molhar a nuca, as costas e o peito com a água da mangueira. Faz boca de peixinho pra respirar enquanto a água escorre nos olhos e nariz.

- Tem que oxigenar né?
-Oxigenar? Vai pintar o cabelo também?
- Não, não! Tô falando outra coisa. Pensei alto.

   Os outros dois seguram e movimentam firme a enxada. Não gosto da ideia de ter uma mão paralisada nas mãos de uma  mulher.  Gosto da ideia de ter minhas duas mãos paralisadas por uma única mão de um  homem desse munido de uma enxada dessa. A mão dele deve ser áspera que só. São grandes. Parecem deuses gregos, imortais.

-       Que idade eles tem?
-       De vinte á trinta, quarenta, cinquenta.
-       Uau. Abrangente né. Viver na praia é saudável...

   Uma destreza com o pulso no manuseio da enxada, que dá gosto de ver. Se vê os músculos ressaltados dos três enquanto trabalham. Não posso deixar de notar o suor pelo sol escaldante, caindo de algum lugar da testa, escorrendo pelo rosto concentrado de um deles. Ele usa uma camiseta amarrada na cabeça. Um par de olhos verdes e uma pele que brilha de tão morena. Irradia.

 Chega um galego forte de colete de couro! Concluo:
-       Caiçara é descendente de europeu né?
-       É? Sei não. Deve ser.
-       De Vikings... Ex-piratas... acho.

No ombro ele leva um balde enorme de metal cheio de areia que ele despeja ali na massa. Hipnotizada, tudo que consigo dizer pra disfarçar é:

-       Trabalham bem esses pedreiros não?
-       Tsc! Que trabalha que nada! Isso aí é tudo maloqueiro sem vergonha, faz nada o ano todo, em temporada fazem bico de pedreiro.
-       E o que tem de errado nisso? – a declaração dela só aumentou meu interesse! “Pedreiro sem vergonha” ela disse! -  Por acaso um deles é seu namorado e você está com raiva, é isso?
-       Meu namorado?- responde a manicure- Isso aí namora a baixada inteira.- De novo aumenta meu interesse. Homem rodado geralmente é bom.
-       Mas de qual deles você está falando?
-       Fia cê num sabe que é tudo farinha do mesmo saco de cal. Outra coisa- diz a manicure evangélica- é tudo maconheiro.
  Fico imaginando qualquer um deles chapadinho de béck, deitado numa rede, com ventilador ligado, depois de um dia duro de trabalho, com os olhinhos semi-cerrados pela cannabis, e a pele ardidinha de sol.
 
  O do colete traz outro tanto de areia no ombro.  Eu o vejo a levantar  com uma mão só, a outra só serviu de apoio.

-       Quantos kilos pesa essa saco que ele carrega com uma mão?
-       Sei não.
-       Acha que é mais que 57 quilos?
-       Deve ter uns sessenta quilos acho. Por que? – sorrio satisfeita.
-       É mais que meu peso. Eu peso isso. 57 quilos...

  Todas as praias estão  em obras na temporada. As cidadezinhas super lotam, dá problema de infra-esrutura toda hora.
 No caminho de volta pra casa, noto a quantidade de construções e reparos pela vila. Um deles está trepando num praticável pra encaixar uma viga enorme numa faixada, tirei até foto. Casas, igrejas, lojas, bares e restaurantes sendo restaurados por esses... restauradores. Restaurantes, refrigeradores de alma.

  Quando chego em casa pra cozinha e encher de cheiro de alho minhas unhas novas, o cachorro que não sai do meu pé, tenta roubar a picanha que estou cozinhando. Indignada com este animal, eu o prendo na coleira num registro de torneira. O bicho fica lá latindo horrores até que ele estoura a torneira que sai água a todo vapor. Prendo ele no quarto, puta da vida com o desperdício de água gerado pelo arrebentamento da torneira.

 A água não para de jorrar e com força. Olho, penso... sorrio leve. Deixo de cozinhar, guardo as coisas as pressas. Me olho no espelho, sou bela. Saio confiante atrás de um encanador competente para resolver o vazamento de água causado por meu descuido com o bicho.