quarta-feira, 6 de junho de 2012

Uma história de amor impossível


Era uma vez uma girafa que se apaixonou perdidamente por uma cebola do Japão.
Como ela é muito pescoçuda, um dia desceu das nuvens para copa das árvores, depois para um raminho verde que... ops! Eram os cabelos espetados da cebola. Começaram a conversar como amigos seres vivos que eram, e já se apaixonando concluíram que o amor deles era impossível! Pois além de cebola e japonesa, ainda estava plantada na terra, e nas terras do Japão.

  A girafa era africana, elegante, muito bonita, cercada de animais exóticos das savanas.
 A cebola tinha amigos subterrâneos cenouras cheias de betacaroteno, salsão, batatas e algumas minhocas que passavam de vez em quando.

Quando a girafa e a cebola resolveram se unir, sempre foi sem compromisso, foi no começo apenas para conhecer um mundo um do outro.
A cebola adorava as histórias da girafa sobre a copa das árvores e as nuvens de algodão doce que ela comia.

A girafa achava interessantíssimo que pudesse em contrapartida, existir tanta vida, histórias e sais minerais debaixo de seus pés de girafa, ela antes não fazía idéia do mundo subterrâneo de uma cebola. Começava a fazer...  cada vez mais.
  A girafa ficou viciada na cebola e na maneira como ela fazía seus olhos arderem. Gostava tanto que com o tempo acabou deixando até mesmo de comer nuvens de algodão, para experimentar as exóticas minhocas aceboladas que seu amor fazía pra você.
E assim, o tempo se passava e eles juntos. Um ludibriava o outro com informações vindas de seus diferentes mundos.
 Aconteceu que num belo dia de sol, e a girafa adorava dias de bastante sol, a cebola começou a reclamar do calor dizendo que estava praticamente evaporando. Tentou ficar na sombra e acompanhar a girafa mas estava muito irritado. A cebola começou a ficar roxa de ciúmes da girafa. E ela só estava esticando o pescoço no sol como sempre fez. É que mesmo enfiando a cabeça e o pescoço dentro da toca da cebola, ela ainda era, UMA GIRAFA! Vinda de uma savana da África! E a cebola não se conformava com isso. Queria transformar a girafa num tomate bem vermelho para que juntos fossem um só vinagrete...
  A cebola dizia pra girafa que ela era muito arrogante por não gostar da idéia de ser tomate. Dizia que isso provava que ela não a amava, e que só estava se aproveitando da cebola que fazía seus olhos arderem até chorarem lágrimas de crocodilo. Muito, extremamente, fortemente ofendida e desafiada com a afirmação a girafinha ficou mal. Mas amava muito ele e tentou perdoar e pensou que tinha que fazer alguma coisa. Foi então até um macaco-tigre feiticeiro pedir para transformá-la em um tomate de uma vez por todas e acabar logo com isso. Ou a cebola num elefante, sería mais viável? – indagava.  O macaco tirgre olhou para girafinha, sábio que era, suspirou e disse que isso não sería possível. Pois a natureza de cada um era muito diferente. Bichos exóticos e tubérculos são muito diferentes mesmo, e se houvesse o feitiço de transformação, em muito pouco tempo um dos dois iria morrer!!! E o sofrimento podería ser muito maior.
   Ele explicou que a girafa não aguentaria o clima frio e calculista do Japão, as cebolas são muito bem vindas em muitos lugares, restaurantes chiques das grandes cidades, viajam de navio quando são exportadas, rolam pelo convés. Enquanto que as girafas só são verdadeiramente aceitas em seu habitat.  Por aqueles que como ela, são exóticos, vindos de savanas .

  A girafa saiu inconformada.  Aprendera nas savanas que na natureza o amor quase sempre vencia! Ela precisava de uma idéia. Lembrou do circo. E se eles fossem para o circo? Esta podería ser uma solução! Circo é um lugar onde tudo é possível !
Então eles tentaram vários circos. O chinês, o russo, o cigano, mas toda vez que a girafa entrava em cena a cebola ficava roxa de ciúmes de novo e voltava revoltada as idéias malucas de tomate e vinagrete que massacravam a girafete...

De tão triste e deprimida um dia a girafa estava tão mal, que caiu toda desengonçada do palco, bateu a cabeça no picadeiro e morre.
Nessa mesma hora, na cozinha do circo que estavam, o cozinheiro pegou a cebola e disse a era hoje é seu grande dia! "Vais virar vinagrete!"- disse o cozinheiro. Toda feliz, a cebola pensou enfim que a girafa havia finalmente sucumbido e se transformado num tomate! Provavelmente pelo mágico do circo, pensou. A empolgação da cebola foi logo cortada. Ele sentiu a faca afiada do cozinheiro separar seu corpo de cebola todo em pedacinhos, e realizar seu desejo, uni-lo com o tomate... Que era um tomate e não a girafa.

Como a girafa era novinha aproveitaram a carne dela.  Serviram carne de girafa a vinagrete.

Em vez de morrer na savana sob o sol, ela morreu assim. Sozinha e a vinagrete.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Doce!


   Tarde fria, porém ensolarada e de silêncio na bluehouse. Este é o nome que dou a casa da minha mãe.  Quando eu era pequena pedi pra ela mudar a cor da casa para um azul Frida Kahlo. Ela atendeu meu pedido e gostou tanto que nunca mais mudou a cor da casa. Batizei de bluehouse, e o nome pegou para sempre. O Silêncio é rompido por um carro que toca a música da Xuxa: "doce , doce, a vida é um doce, vida é mel, que escorre na boca, pedaço do céu", seguido do anúncio em alto som pela gravação da voz do vendedor motorizado: "Olha o doce! Olha o carro do doce! É doce de abóbora, doce de leite, doce de amendoim, tem doce de aniz, tem doce de côco, doce de morango, doce! Tudo quanto é tipo de doce, pode chegar freguesa!". Antigamente era o vendedor de pamonnha. Com voz do interior. Mais precisamente de Pindamonhangaba. Eram pamonhas fresquinhas. O puro creme do milho verde. “Venham provar minha senhora, é uma delícia! Pamonhas, pamonhas, pamonhas”. Este de doce que passou hoje, é bem mais rápido na locução. Parece um narrador de futebol dizendo um montão de tipos de doce, seguido da música da Xuxa.

 Saio na varanda e vejo o carro cercado de crianças. Fiquei imaginando esse carro na Marcha da Maconha. Estaria cercado de marmanjos com baixa glicose no sangue. Pensei também neste carro aparecendo numa rave, como as do filme "Paraísos Artificiais" anunciando "Doce! Doce de todos os tipos! A vida é um doce!". 

   Hoje eu filmei com uma criança. Trabalhou direitinho: texto decorado, sensibilidade, percepção, um ator profissional. Tive uma aula de I-phone com o moleque. Vem aí uma nova geração fantástica. Uma nova era, com novas questões.  As básicas ainda devem ser entendidas e resolvidas, como os direitos humanos e as novas também, como os crimes digitais.

Televisão e internet tem exibido uma animação muito bem feita contra o abuso na infância nas últimas semanas.  Estava vendo tv e aparece a chamada de Globo Repórter que anuncia: não percam hoje "Inventores Brasileiros e suas  invenções geniais", onde mostrava um rapaz mostrando a "mão biônica"!  Gente, a cena do inventor daquilo me lembrou o Fred Kruguer. O grande vilão da minha infância. Não devia ter assistido os filmes dele. Mas eu vi. E morria de medo de dormir por causa deste personagem. Não só porque ele entrava nos sonhos das pessoas transformando em pesadelo, mas também por causa daquelas malditas musiquinhas com meninas pulando corda. Apavorantes.  Crianças são muito usadas em filmes de terror. Vários.

 E as canções de ninar brasileiras?   A mais famosa de todas: "Nana neném que a Cuca vem pegar, papai foi pra roça mamãe foi trabalhar...". Ou seja, deixaram a criança sozinha, a mercê de Cuca, monstro horrendo e malvado.  E continua o terrorismo: "Bicho Papão sai de cima do telhado, deixa o neném dormir sossegado". O leitor conseguiria dormir com um pedido desse? O Boi da Cara Preta, pega a menina que tem medo de careta. Qual menina que não tinha medo de careta, gente? Até eu tenho! Que maldade... Querem que "Sambalêlê" que "tá doente" dance com a cabeça quebrada. Entre outras canções criadas para que os pequenos se comportassem através do medo.

 Trabalhei com teatro folclórico por um bom tempo, e sei que no norte e nordeste brasileiro tem músicas lindíssimas, ideais para crianças. Falam dos bichinhos, plantas, da natureza e da vida no campo. Mas são pouco divulgadas, infelizmente. O universo infantil me encanta, tenho livros, filmes, adoro animação, sou assinante de Cartoon, Nick, fã da TV Cultura.

 Continuo vendo o mesmo canal de TV que agora anuncia entrevista exclusiva com a Xuxa. Ela diz ter sido pedida em casamento pelo Michael Jackson, foi apaixonada por Pelé, mas seu grande amor na vida foi Ayrton Senna. Ela confessa ter sido abusada até os 13 anos de idade. E que ajuda crianças que são vítimas como ela foi. Me lembro dela apresentando o “Xou da Xuxa”, com roupas curtíssimas, super sensuais. Só lembro, não digo nada, mas pergunto, era aquele programa, educativo ao público infantil?

 Até hoje na Europa ainda não existem bons programas para criança, nos EUA esta preocupação é um pouco maior. Mas e os de hoje, que Xuxa apresenta, são ideais para a formação dos pequenos?

 Penso que assim como os crimes de internet devem receber a devida atenção, também o conteúdo para crianças em todas as mídias, principalmente na internet,  precisa ser muito bem pensados.  Educadores, pais, especialistas, todos devem falar, expor essas questões todas, para definir como irá se desenvolver tudo isso da melhor forma possível na chegada era da informação.  Como este texto, humilde tentativa. Como fez a Xuxa que quebrou seu silêncio em rede nacional. Agora sim dá pra entender porque ela deixou de evoluir profissionalmente, quando brigou com a empresária Marlene Matos, porque simplesmente não queria parar de fazer programa infantil. Não quis evoluir com seu público para programa adolescente, muito menos adulto. Ela queria se vestir de fada, e de duende. Queria brincar. Ter a infância que não teve. Provando, ao quebrar o seu silêncio, que infância é importante e muito. Pra vida inteira. E falar as verdades todas também. Viva a quebra de silêncios.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O moderno trem subterrâneo

  Senhoras e senhores, olá!  Hoje é o dia de minha estréia no Angu! Aqui farei argumentos crônicos, sobre nossa cidade querida e extraordinária São Paulo. E outras "cocitas más".


 Oque não vai faltar aqui é assunto.  Tratando-se de São Paulo, assuntos extraordinários!  Hoje por exêmplo, dois trens do metrô na linha vermelha se chocaram de frente! Ferindo onze pessoas e atrasando inúmeras outras. Chocando a nós que recebemos esta notícia. Se bem que uma vez um helicóptero pousou de baixo da ponte Eusébio Matoso, bem no horário do rush, entre outras coisas malucas que só acontecem em Sampa Babylon City. Deixo pra me apresentar melhor numa outra crônica.
  Eu já ía mesmo falar de metrô, estava na dúvida se estreava com este assunto ou não, mas com uma notícia dessas, decidido está.
 O metrô é o futuro. É oque pode salvar nosso problema de locomoção. Especialmente quando não se chocam de frente. Um trem que passa de baixo da terra! Quer coisa mais moderna?  Dificilmente atrasa, não pega trânsito, e mesmo que lote as vezes, não é tão cheio de problemas como o ônibus. É uma das boas soluções que inventaram para cidades modernas.
  Este ano começou a funcionar a linha amarela de metrô em São Paulo. Liga o Butantã á Luz. Este acontecimento foi tão esperado, uma urgência que precisava acontecer. E ainda há muitas linhas a inaugurar, e precisa fazer mais metrô! São Paulo é grande e super lotada.   Ouvi dizer que nosso sub-solo é muito rochoso, por isso foi tanta a demora de algo tão necessário. As máquinas furadoras alemãs demoram mais tempo para perfurar nossas duras rochas, atrasando as obras. Será?
 Mas agora que ficou pronta a parte que eu utilizo, que glória! Chego rapidinho a Paulista! Nunca choquei com nenhum outro trem. Pena que não tem mais o cinema Belas Artes. Desceria na estação Paulista que tem saída para a Consolação e estaria no cinema rapidinho. Curioso: a estação Paulista tem saída na rua da Consolação e a estação Consolação tem saída na Avenida Paulista. Coisas da vida. E de nossa descendência portuguesa?
 Mas o túnel que une a linha amarela a verde, que me leva do meu metrô que sai do Butantã atá a avenida mais importante da cidade, é o motivo desta crônica. Trata-se de um grande corredor, que faz uma curva e traz um segundo corredor que ao seu final tem escadas rolantes. Publicidades dos dois lados. Ouve-se a cavalaria das pessoas marchando aonde irá dar em escadas rolantes. Estas terminam em catracas enfeites (pois não servem para nada somente foram colocadas ali) e então chega a parte mais épica do caminho da roça para a civilização. Uma super rampa túnel do futuro, com esteiras rolantes.   Duas que sobem e duas que descem. Sendo três eletrônicas, e uma no meio para caminhar. O teto é um arco. 
 O povo não acostumado a isso estaciona nessa esteira, nos obrigando  a parar de andar no caminho, para apreciar a parede. Cronometrei o tempo que leva. São quase 5 minutos só neste trecho. O percurso toda dá uns 10.
 Toda esta parede, do lado direito e do lado esquerdo tem mais publicidade. Enorme.  Parecem duas gigantescas telas de cinema.   Uma vez estava até engraçado, do lado esquerdo um anúncio enorme do filme “Fúria de Titãs” cheio de monstros mitológicos sanguinários, imagens gigantes e amedrontadoras. E do outro lado o direito, os cabelos de Rapunzel  anunciando o filme animação “Enrolados”.
 Mudaram agora para publicidade de telefonia. De uma lado a internet Claro com uma foto gigante de Ronaldo fenômeno e Neymar jogando videogame on-line. E do lado esquerdo  para internet de Vivo, simplesmente a imagem de Pelé. Neymar ou Pelé, Claro ou Vivo? Cinco minutos inteiros para pensar nisso.
O prefeito havia proibido publicidade em out-door na cidade porque a sujava e também porque distraia os motoristas. Gente, as paredes deste túnel são como duas telas de cinema colocadas uma do lado da outra, totalizariam quatro. Dá até tontura passar ali e ver aquilo andando na esteira. Fora as outras dos corredores.
Uma cidade para desenvolver-se tem que desenvolver seu meio de transporte em especial o público. E a vida sub-terrânea de Sampa aumenta mais um pouquinho. Deve aumentar muito mais. Tem que educar o povo a usar direito, urgente. Ao sair de um trem para o outro lado onde se pode caminhar, é impossível atravessar a multidão que vai para a outra plataforma. E até difícil de explicar aqui, como funciona. É um caos. Um caos que pára na esteira rolante, para ver Pelé, Neymar, Ronaldo. E vamos caminhando. Passinhos curtinhos até chegar lá! Eu ía dar umas sugestões aqui, de organização e educação, mas depois que dois trens se chocaram de frente, deixe isso pra lá hoje e outro dia falo mais de metrô!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Quelque chose au Paris


  Esta é a segunda vez que faço uma viagem muito legal, demasiada de boa, e perco a câmera com os momentos registrados. Ainda bem que era baratinha e que as caras eu não perco. Ainda bem também que tenho uma ou outra foto de máquinas de outrem.  E ainda bem ainda, que tenho boa memória!
  Primeiro café da manhã com mamãe, depois de mais de meses viajando.  A primeira coisa que conto é que perdi além da máquina fotográfica, meus óculos. Preciso fazer lentes novas.
 – Aonde você perdeu?  
- Em Paris. Os óculos e a máquina.
- Pelo menos foi em Paris.  - Continuei quieta tomando o café sem entender muito bem a resposta de minha mãe.  Pensei que perder os óculos e a máquina em Portugal seria menos mal, pois já que o país não está muito bem por causa da crise, talvez alguns dos tantos desempregados, um especial com astigmatismo, poderia achar os óculos e se beneficiar, afinal eram bons e bonitos. No caso da máquina talvez uma viajante, distraída como eu, encontrasse por acaso a máquina e fosse fotografar o namorado dela num dia de sol, sabe-se lá.
  Não demorou muito e percebi o sentido da frase “Pelo menos foi em Paris.” Qualquer coisa em Paris é o máximo! Passei frio, fome e quebrei o pé em Paris. Gastei mais do que devia, nada de nenhum "affair", perdi o  chip do celular e o guarda-chuva no Quartier Latin. Manchei de café minha Long Champ novinha, que tinha acabado de comprar! Nem podia comprar, cara que era, comprei e a manchei. Fumei demais em Paris, gastei tudo naqueles cigarros brunets, ruins, caros, porém os mais baratos que tinha. Fiquei com dor no pulmão e no estômago, tanto que vomitei horrivelmente a Champgne Rosé que eu minha amiga compramos para beber sozinhas, no Trocaderó.  Gente, estávamos sozinhas, bêbadas, sem casa! Uhu! Que demais! Que inveja! É capaz de alguém dizer. Só porque foi em Paris, muda tudo?
   Eu e minha queridíssima parceira de viagem gastamos bastante no começo e logo vimos que seria necessário mudar a passagem para antes e achar outro lugar pra ficar rápido. Pensamos que por ser a cidade que mais recebe turista no mundo, não seria grande coisa achar outro hostel ou hotel de estudantes. E no entanto, não achávamos nada. Tudo lotado mesmo.
 É engraçado que quando as festas de Paris acabam, ou ainda estão próximas do horário de terminar, os donos da festa expulsam você do lugar. Simplesmente gritam alto para que todos escutem: “ Si’l vous plaît, dame et mounsieurs ! Sourtez maintenat tous vous!”  Tradução : “Por gentileza senhoras e senhores, dêem o fora daqui, já! Todos vocês imediatamente!”  Assim mesmo.  Ou pior. Fazem isso no comércio também. Não importa se você está gastando fortunas na loja, na padaria, aonde for, se a mesma estiver perto de fechar, vem a vendedora brava e diz gentilmente com os olhos de serial killer:  “Vamos fechar em 15 minutos, escolha logo que diabos você quer, e vá embora".  Pois bem. Se são assim na noite, no comércio, eu tentava imaginar como seriam, e eu ía oque fazer, na seguinte situação:  hotelzinho aonde faltavam 15 minutos para o check out! E nada de acharmos lugar em hotel nenhum.
 Não podíamos ficar mais e não queríamos ser expulsas do hotel, pois somos chiques, iríamos sair no tempo correto com dignidade, como mandava a regra, e assim o fizemos. Finalmente depois de muita procura desesperada encontramos um único lugar. Só que ficava praticamente na própria avenida Champs-Elyséss. Significa Campos Elíseos que não lembra nadinha o Campos Elíseos da minha humilde cidade de São Paulo onde nasci.
  Estávamos no segundo metro quadrado mais caro da cidade mais cara de todas.  Era um hotel chiquérrimo. Mesmo. De verdade. O chuveiro trocava de cor durante o banho, assim a água era colorida. Tínhamos um pátio com um  jardim, só pra gente. Um moço de guarda-chuva nos acompanhava até a porta toda vez que saíamos como se fosse um segurança. Como íamos pagar aquilo? Pois. Economias servem para isso mesmo.
  Teve um momento que me ligaram no celular e eu disse : “Sim, claro. Nos encontramos então mais tarde, agora tenho de pegar esse barquinho no rio Sena até a Saint Germain des- Prés e depois passar na minha casa na Champs- Elysée. Gente, quando vou dizer aquela frase de novo? E em francês. Em francês qualquer desgraça fica chique. 
  Pode doer o bolso, o coração, mas tudo chique, tudo lindo, cheio de tanta luz que nem precisava mais dos óculos perdidos para enxergar tanta beleza.Teve problemas? Uh lá lá! Pelo menos foi em Paris, pois então, seguramente foi ao menos: tudo muito bonito.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Restaurante


  Significa um lugar que restaura, torna novo de novo, oque estava a se desgastar. Restaurante é tudo de bom, eu amo. Minha família sempre teve restaurantes e eu sempre trabalhei neles e nos dos outros também.  É para pessoas, oque  um posto de gasolina é para os carros: você vai lá para reabastecer e poder continuar circulando mais tranquilo pela cidade.
  Ser bem cuidado, bem recebido, servido, alimentado. De comida, sabores, cores, risos, boas notícias, bons amigos. O posto de gasolina, já que resolvi comparar, também acabou virando um ambiente de restauração. Restaura você e seu objeto de locomoção (carro). Você chega, abastece o bichinho (carro), aproveita e compra uns docinhos, cigarro, dá uma olhada de “fora” na cidade, ouve o barulho dela de outro ponto de vista e de escuta. Afinal o barulho que entra no carro misturado com o da rádio é diferente. Estica as pernas, checa as revistas de fofoca com aquelas letras grandes na capa, com frases chamativas e fotos de: famosos com problemas, famosos casando, famosos traindo, famosas grávidas. De madrugada os postos de gasolina ficam cheios de adolescentes bebendo, restaurando a cabeça... ao menos é oque ali intentam.
  A hostess chega para trabalhar no restaurante e o telefone já toca loucamente. Início de fim de semana. Restaurantes e postos de gasolina enchem nas metrópoles. Todos querem a restauração, todos querem abastecer. A lista de reservas começa a crescer e os lugares disponíveis a diminuir.
 No telefone os clientes são super bonzinhos, um pão doce com recheio quente e açúcar em cima!  Pedem com todo amor e carinho pela mesa mais difícil da casa. Alguns investem tempo contando oque exatamente é a noite de hoje ( ou do dia escolhido da reserva)  e fazem questão de explicar tim tim por tim tim o quão importante é para eles a data. E claro, o quanto este restaurante que ele escolheu dentre tantos outros em São Paulo tem : a melhor comida,  pessoas,  serviço... Tudo maravilhoso, lindo, a restauração que ele precisa.

-Poxa eu gosto tanto do Pereira (maitre)! Ele está aí? E o garçom Postura? Posso ficar na praça dele? Soube que Aninha entrou de férias.- Dizem qualquer coisa que os faça parecer amigos muito próximos. E são mesmo. Amamos nossos clientes. O problema é que as vezes eles chegam com fome. As pessoas mudam quando estão com fome.  Vamos esclarecer uma coisa pra a população, gente, fiquem calmos antes de qualquer coisa na vida. Estão certíssimas as aeromoças. Elas sempre dizem cheias de gentileza: “Em caso de qualquer problema, por favor, mantenham a calma, obrigada". Ou seja, avião pode estar caindo, e você provavelmente vai morrer, ainda assim, mantenha a calma!  É a única coisa que de fato ajuda em todos os casos. Mas ele quer seu direito de reservado e de ser restaurado, imediatamente! Tenho muitas histórias de restaurante da vida de hostess. Mas antes quero primeiro estar dentro de um agora. Sem combustível não posso escrever, nem postar nada, nem divulgar lhufas. É a tal pirâmida de Maslow, preciso comer, já. Vou a um restaurante neste exato momento, restaurar minha situação. E não tenho reserva. E estou numa metrópole, que não é nem a minha! Mas hoje, se sou o cliente, quem manda sou eu, certo? Tomara.